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determinismo

por Thynus, em 26.10.13

 

 

Esta noção é normalmente compreendida como a tese de que para tudo que acontece existem condições tais que, uma vez dadas, nenhuma outra coisa poderia ter acontecido. Na influente formulação filosófica articulada por David Hume e J.S. Mill, isso aparece como teoria da regularidade determinista, ou seja, de que para cada evento x existe um conjunto de eventos y1… . yn, tais que se conjugam regularmente sob algum conjunto de descrições.
Neste século, pelo menos até bem recentemente, assumiu-se de maneira geral que isso continua sendo válido na natureza, com exceção da mecânica dos quanta (onde tudo indica ser impossível determinar simultaneamente a posição e o momentum de partículas elementares). No entanto P.T. Geach e G.E.M. Anscombe, nos anos 60, expressaram reservas a esse respeito. Nos anos 70, de forma mais sistemática, o mesmo foi feito por R. Bhaskar. Este afirmou que uma reflexão sobre as condições em que os resultados deterministas são efetivamente possíveis (a partir do que o determinismo, como tese metafísica, deriva a sua plausibilidade) indica que, com exceção de uns poucos contextos fechados especiais — estabelecidos de forma experimental ou ocorrendo naturalmente —, as leis estabelecem limites, impõem restrições ou funcionam como tendências, em vez de prescreverem resultados fixados de forma única. Em particular, têm um caráter não-empírico e de norma; e são consistentes com situações de controle dual e múltiplo, determinação múltipla e plural, complexidade, surgimento e intermediação humana (por exemplo, na atividade experimental). A partir dessa perspectiva, as leis não são efetivas ou contingentes, mas necessárias e reais — propriedades de mecanismos e não conjunções de eventos. E o único sentido no qual a ciência pressupõe o determinismo é o sentido (não-humeano, não-laplaciano) de determinismo da ubiqüidade, isto é, a ubiqüidade de causas reais (mas talvez não necessariamente inteligíveis), incluindo causas de diferenças, e daí a possibilidade (por mais remota que seja) de explicações estratificadas. O “determinismo”, como normalmente compreendido, pode portanto ser considerado uma noção que repousa em uma ontologia ingênua e factualista de leis, e em particular no erro de se supor que um evento, porque foi levado a acontecer, estava destinado a acontecer antes de ter sido causado — uma confusão entre determinação (ontológica) e predeterminação (epistemológica)). Nem é o caso de dizer que as relações de geração natural são (logicamente) transitivas. Assim, não é o caso de se dizer que, porque S1 produziu S2, e S2 produziu S3, S1 produziu S3 — se, por exemplo, S2 possui poderes emergentes, ou o sistema em que S3 se formou é aberto, ou o processo é estocástico. O desenvolvimento da teoria da catástrofe e do caos representou mais um golpe no determinismo de regularidade, ilustrando que sistemas dinâmicos não-lineares podem produzir resultados altamente irregulares (caóticos e imprevisíveis). (Ver também PREVISÃO.)
A relativa raridade de resultados deterministas e a complexidade de agentes têm implicações para a questão do livre-arbítrio. A posição predominante na primeira metade do século era a “compatibilista”, segundo a qual o livre-arbítrio pressupõe o determinismo. Sob a influência de Gilbert Ryle, John Austin, o último Wittgenstein, F. Waismann, P. Strawson e S. Hampshire, a visão do senso comum de que o determinismo representa uma ameaça aos nossos conceitos normais de mediação (ver AÇÃO E MEDIAÇÃO), escolha e responsabilidade costumava, de maneira geral, reconciliar-se com um contínuo compromisso com o determinismo no nível físico, na doutrina de que os conceitos anteriores funcionavam em um nível lógico, estrato lingüístico ou jogo lingüístico diferente. Mas uma vez descartado o factualismo, a possibilidade de uma rejustificação naturalista da mediação humana, da CAUSALIDADE de motivos e a potencial aplicabilidade do atributo “livre” aos agentes, suas ações e situações está mais uma vez aberta.
Tem havido muita controvérsia no século XX a respeito de o marxismo ser uma teoria determinista no sentido de que toma os resultados como sendo (a) inevitáveis e/ou (b) previsíveis e/ou (c) predestinados. Isso não tem como ser discutido aqui (ver o verbete “determinismo” em Bottomore et al., 1983) — a não ser para observar que existem bons motivos filosóficos e históricos para não se tratar o programa de pesquisa marxista como determinista em nenhum desses sentidos.

(William Outhwaite & Tom Bottomore - "Dicionário do pensamento social do século XX")

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publicado às 15:48



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