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Sobre a necessidade de morrer

por Thynus, em 25.10.13

 

 

 

 

Diante do medo e o despreparo para a morte, que acomete sobretudo as culturas ocidentais, Heidegger afirma que é preciso viver. A angústia do medo da finitude também pode vir de uma existência superficial e massificada

 

Independente da crença, todos vamos morrer. Esse é um evento tão comum quanto o fato de nascer, crescer, ter filhos... Porém, tal assunto causa espanto, e a morte passa a ser vista como uma desgraça; mas morrer é um evento natural e, acima de tudo, necessário: morrer é tão importante quanto nascer.
A morte nos causa tanto medo e angústia que é mais cômodo não entrar em contato com ela. O objetivo deste artigo é apresentar a ideia de morte como necessidade para a vida, um elemento que não é antagônico. É comum percebermos que os indivíduos procuram, ao máximo, afastarem-se da morte, principalmente nas sociedades ocidentais, pois o que mais é valorizado em tais sociedades é a superficialidade e o narcisismo. É necessário, também, analisar a morte enquanto direito de morrer, bem como a sua beleza e seu potencial singularizador numa sociedade de massa.

O MEDO DA MORTE 
De acordo com a interpretação de Sigmund Freud (1856-1939), na Mitologia grega, a morte aparece como elemento contrário à integração. Essa força, chamada morte, representada por Tanatos, alimentaria os desejos destrutivos. Mas, quando operando ao lado da vida, geraria o equilíbrio. O medo da morte está em contextos antigos, como na perspectiva mítica bíblica, segundo Norbert Elias (1897-1990): “No paraíso, Adão e Eva eram imortais. Deus os condenou a morrer porque Adão, o homem, violou o mandamento do pai divino. O sentimento de que a morte é uma punição (...) desempenhou papel considerável no medo humano da morte por um longo tempo”.¹ A limitada duração de nossa existência nos força a viver para encarar a morte como um fato, habituando-nos a ela. Afinal, ela é um problema genuinamente humano, que leva os indivíduos a se protegerem da aniquilação.
Contudo, o problema não é a morte em si, mas como nos deparamos com ela, a maneira como a conhecemos: a consciência sobre a morte foi diminuindo com o passar dos séculos. Isso se deve, também, ao fato de que houve um aumento na expectativa de vida dos indivíduos, o que mostra um aumento de segurança, consequentemente um desvio da reflexão sobre a finitude humana. “O espetáculo da morte não é mais corriqueiro. Ficou mais fácil esquecer a morte no curso normal da vida”.² Isso não significa que não ocorra tal evento, mas, que o mesmo não recebe a atenção que lhe é própria, especialmente numa sociedade narcísica, como a contemporânea.

A SOCIEDADE ATUAL ESTIMULA A CULTURA DO NARCISISMO, EXISTE UMA ESPÉCIE DE CRENÇA, QUASE QUE INABALÁVEL EM NOSSA SUPOSTA IMORTALIDADE

A MORTE NA CULTURA DO NARCISISMO

Hipnos é a personificação do sono enquanto seu irmão gêmeo Tanatos, o da morte. Ambos habitavam o território de Hades, no mundo subterrâneo

 

 A sociedade atual estimula a cultura do narcisismo, de tal maneira que existe uma espécie de crença, quase que inabalável, em nossa suposta imortalidade. Daí surge a necessidade de permanecer, em que morrer representa um desastre. As exigências do sucesso provocam enormes desgastes, levando as pessoas a se sentirem obrigadas a atingir objetivos idealizados e a ter que ultrapassar a todo custo suas limitações, indo além do que podem. Consequentemente, isso gera uma supervalorização da vida, de tal maneira que, surge a ilusão da beleza eterna e da jovialidade, próprios da sociedade atual.

Christopher Lasch (1932-1994) é considerado um grande crítico do modelo de vida próprio das sociedades industriais. E é na sua obra, A cultura do narcisismo, que demonstra sua crítica à nossa sociedade. Nessa obra, ele argumenta que existe, de certa maneira, um desinteresse pelo mundo exterior, exceto à medida que ele serve como fonte de gratificação. Temos, então, uma busca de autoidentidade, em uma espécie de narcisismo. Para Lasch, o narcisista representa a dimensão psicológica dessa dependência. Não obstante, em suas ocasionais ilusões de onipotência, o narcisista depende de outros para validar sua autoestima. Ele não consegue viver sem uma plateia. Essa análise nos indica que vivemos em tempos nos quais nossa individualidade depende da aprovação dos outros, nosso mundo interior não tem tanto prestígio: “Porque o temor de amadurecer e de ficar velho persegue nossa sociedade; porque as relações pessoais se tornaram tão instáveis e precárias; e porque a vida interior não mais oferece qualquer refúgio para os perigos que nos envolvem”
Para o autor, o que caracteriza tal comportamento seria a superficialidade emocional, uma pseudoautopercepção, assim como o horror à velhice e à morte, restando uma preocupação com a sobrevivência de si.
Na verdade, a preocupação com que o outro possa sobreviver consiste apenas no “eu” que precisa ser reconhecido e ter sua existência garantida. Ora, não que não seja importante a preocupação consigo, mas o que se analisa é a demasiada busca de autopreservação em detrimento do que ocorre fora do próprio círculo. Nesse sentido, o que temos é um projeto de transformação da sociedade que visa ao particular, uma busca de razões políticas que não se encontram em valores universais, mas interesses que satisfaçam o prazer do indivíduo.

NA OBRA de Markus Zusak (1975) intitulada A menina que roubava livros, romance narrado durante a Segunda Guerra Mundial, a morte é vista como companheira. Em meio a tanto sofrimento, a morte é personalizada como uma amiga para aliviar o peso da desgraça. Ela se encarrega de carregar no colo as almas quentes, na frieza e no desespero da guerra  

 

O mito grego de Narciso serviu como base de diversas teorias no decorrer da História. O narcisismo é símbolo da vaidade, do individualismo e da insensibilidade

 A preocupação da sociedade atual está desvinculada do passado e do futuro, foca apenas no aqui e no agora. Temos, então, indivíduos com medo de se perderem, que se agarram na busca frenética de uma identidade que os satisfaça e lhes permita ser percebido, e morrer é não mais ser percebido, daí o desespero. Tais seres humanos não se percebem parte da História e sua insegurança não se restringe apenas a questões econômicas, etc., mas também ao medo de não conseguir ser plenamente: “... a ética da autopreservação e da sobrevivência psíquica está, então, radicada não meramente nas condições objetivas da guerra econômica, nas taxas elevadas de crimes e no caos social, mas na experiência subjetiva do vazio e do isolamento”.4 Assim, a consciência de Narciso é o espelho, tão externa a ele, tão transparente e líquida. Os gregos conseguiram, no passado, mostrar a imagem que se destacaria no homem dos tempos pós-modernos, que se perde na contemplação do objeto, procurando ali o próprio sujeito, dessa forma, perde-se na procura de si mesmo. O que chamamos aqui de Ética da sobrevivência. Para Lach, “as pessoas deixam de sonhar com a superação de dificuldades, mas simplesmente passam a sobreviver com elas”.5
A ideia do Narciso é uma maneira de aprofundar o olhar no resultado das recentes mudanças no âmbito da sociedade. Dessa maneira, o modo de vida atual é um auxílio para fazer surgir novos “filhos narcisistas”; outro fator impulsionante é a mídia, que, por meio do bombardeamento de propagandas que incentivam a sobrevivência, realiza tudo isso, potencializando os sonhos narcisistas, sendo eles os sonhos de fama, sonhos de glória, voltando cada vez mais o olhar para o alto, para as estrelas, para um mundo livre da maldição da contingência, fugindo cada vez mais da realidade, finita e mortal.

 

 Negação da morte

 

Somos uma sociedade que a todo o momento nega a morte, evita pensar no fracasso de nossa existência. Mas as obras literárias nos defrontam com nossa tentativa de negação e do fracasso desse projeto existencial. Temos como exemplo a obra ficcional Dr. Frankenstein, que é uma grande metáfora para uma reflexão sobre a condição do homem no mundo e a inconveniência da consciência para a nossa existência. Cabe lembrar que os homens existem e possuem a consciência de existir, por isso percebem o real significado da palavra “solidão”. Quando existimos, somos invadidos por sentimentos até então desconhecidos, como medo, tristeza, solidão e desespero. Somos lançados ao mundo após a nossa criação, sem desculpas, sem muletas. Então, juramos nos vingar do nosso criador e de todos ao seu redor. Quando uma pessoa toma consciência de si mesma, surgem perguntas que não possuem respostas. Não existe diferença se você vive em uma casa cheia de pessoas ou em alguma geleira do Ártico, a sensação é sempre a mesma. Mas, ao matarmos nosso criador, passamos a reformular essas questões. Na obra de Mary Shelley, o monstro encontra por acaso dois livros, Os sofrimentos do jovem werther e o Paraíso perdido: “Mal posso descrever-lhe, Frankenstein, o efeito de tais livros. Apresentavam-me uma infinidade de novas imagens e sentimentos que, por vezes, me elevavam ao êxtase, porém, com mais frequência, me lançavam na mais profunda depressão” (passagens retiradas do romance Dr. Frankenstein). No primeiro, ele encontrou uma luz sobre as suas próprias reflexões. Os sofrimentos do jovem Werther é um grande clássico da Literatura e pode ser considerado como um dos precursores do Romantismo alemão. O jovem Werther é dominado por uma paixão profunda, tempestuosa, que o levará a um destino trágico. O protagonista comete suicídio motivado por um amor platônico. É importante ressaltar que o século XIX é marcado pela supervalorização das paixões e dos sentimentos. A vida é compreendida como sendo de dor e sofrimento eterno, e somente a Arte, seja literária, arquitetônica, poética, ou a própria Música, é capaz de causar uma catarse, libertando o ser humano do sofrimento, mesmo que seja por alguns momentos. Já no outro livro, a criatura vê na figura de Satã um retrato pintado de si próprio. Na metáfora bíblica, Satã é aquele que quer possuir o conhecimento absoluto e, assim, luta contra Deus, sendo expulso do paraíso. Mais tarde seduz o homem, levando-o a comer da árvore da Ciência e do conhecimento, condenando-o por ter adquirido consciência e capacidade de reflexão. Sendo assim, a saga humana é uma odisseia de um peregrino que tenta retornar ao paraíso perdido, ao eterno presente, à inconsciência de sua finitude, e tenta em vão, através da Ciência, encontrar um meio para esse feliz retorno: “Insensível criador! Dotara-me de um cérebro e um coração, de percepções e paixões, e me deixara ao léu, alvo do escárnio e da perseguição da humanidade”.

 

 

O PODER INDIVIDUALIZADOR DA MORTE NUMA SOCIEDADE DE MASSA

 

Ao analisarmos a morte na Antiguidade greco-romana, percebemos sua função e lugar, e lá o direito de morrer é reconhecido. Tal direito é que permitia aos enfermos desesperançados findar a própria vida. Havia uma relação próxima entre a vida e a morte. 

 

 
Em nossa sociedade, a velhice, inevitavelmente, é caracterizada com atributos negativos

Ao refletirmos sobre a palavra “paganismo” encontramos sua derivação na palavra pagus, que significava o pedaço de terra onde se plantava. Na Antiguidade greco-romana, cada pagus possuía algo de sagrado, um espírito que estava governando o espaço de terra. Tal espírito era concebido como sendo de um ancestral da família que ali estava sepultado. Assim, o enterro dos indivíduos amados tornava a terra sagrada, o húmus era devolvido para o local de onde retornara. O corpo morto, sagrado, tornava à terra sagrada. Nesse sentido, no paganismo, havia uma supervalorização da morte.
Entretanto, com o surgimento do Cristianismo, a morte passa a ser substituída pela vida. No paganismo havia o direito de morrer, já com a religião cristã surge a sacralidade da vida, pois a vida é concebida como um dom de Deus e, por isso, deve ser preservada. Essa visão cristã ganha ênfase com a Modernidade, de tal maneira que a vida deve ser privilegiada em detrimento da morte. Com o advento da Modernidade, sob a guisa do pensamento do filósofo René Descartes (1596-1650) e de Francis Bacon (1561-1626), o ser humano vive um momento no qual se percebe capaz de realizar uma dominação de tudo aquilo que está ao seu redor, controlando os fenômenos da natureza. O mundo é visto “nu”, sem Deus, e o ser humano, nessa perspectiva, não vê mais o universo circundante como dominado por forças impessoais.
“Significa principalmente, portanto, que não há forças misteriosas incalculáveis, mas que podemos, em princípio, dominar todas as coisas pelo cálculo. Isto significa que o mundo foi desencantado. Já não precisamos recorrer aos meios mágicos para dominar ou implorar aos espíritos, como fazia o selvagem, para quem esses poderes misteriosos existiam. Os meios técnicos e os cálculos realizam o serviço.”

 

Na Antiguidade Clássica, a vida e a morte estavam intimamente ligadas, essa relação só foi modificada a partir da Idade Moderna

Assim, o véu de mistério que cobria a realidade é retirado. Pois, segundo Max Weber (1864-1920), o saber científico avança sem confiar em qualquer valor misterioso, transcendente, uma vez que tudo pode ser dominado pelo cálculo e, assim, a Ciência liberta a humanidade de qualquer elemento religioso.
Weber chega a dizer que o desencantamento do mundo é uma característica de nossos tempos, no qual as ideias religiosas se retiraram da vida pública. E esse é um ponto importante, sendo que Weber não diz que o intelectualismo elimina a religião, embora possa corroer a imagem que ela fornece à realidade. Se, por um lado, o ponto de partida da história da humanidade é um mundo povoado de sagrado, de mistérios que são respeitados, mas não explicados, o ponto de chegada é uma humanidade moderna que afirma ter a capacidade de explicar com a Ciência, acima de tudo com a razão, a compreensão do mundo que está a sua volta. A realidade é encaixada no intelecto humano (ou ao menos é isso que se tenta), e todo o resto é deixado de lado. O ser humano se desenvolveu, progrediu, mas desencantou o mundo.
A partir da Modernidade, percebe-se o início do abandono da morte, que ganha ênfase na Contemporaneidade. Agora, o ser humano cada vez mais se torna incapaz de olhar a morte. Para ampliar esse argumento, pensemos no conceito de divertissement do filósofo Blaise Pascal (1623-1662). Esse conceito não significa apenas distração, ou divertimento. Mas, dado que o ser humano não tem condições de enfrentar a sua mortalidade, escapando de encarar a morte, lança-se no entretenimento de maneira a não pensar na sua finitude, porque o ser humano é constituído de uma miséria ontológica que o insere em uma consciência trágica sobre a própria vida. Para boa parte dos seres humanos, é extremamente difícil encarar essa realidade miserável, então preferem desviar toda a sua atenção desses questionamentos e, para fazê-lo, procuram, então, o divertimento. Segundo François Muriac (1885-1970), comentador de Pascal, “o homem, por mais cheio de tristeza que se encontre, se, por ventura, entrar num divertimento, será feliz durante esse tempo; e o homem mais feliz, se não estiver se divertindo e se entretendo com alguma paixão ou com alguma distração que impeça de se espalhar o tédio, ficará logo triste e infeliz. Sem divertimento não há alegria, com divertimento não há tristeza. E o que forma a felicidade das pessoas de grande condição é que têm uma porção de gente para diverti-las, e o poder de se manterem nesse estado”.7

 

A partir do século XX, a morte deixa de ser “familiar”, “doméstica” e passa a ser um “tabu”, algo de que o homem Pós-moderno tenta fugir a todo custo

Segundo o historiador francês Philippe Áries (1914-1984), o ser humano ocidental afastou e expulsou a morte de seu cotidiano. A morte passa a ser reprimida e proibida dos nossos dias, pois ela é percebida como algo extraordinário; sob tal perspectiva, a morte não é normal e deve ser evitada. Ao analisar o contexto contemporâneo, não é difícil constatar que a morte está presente em nosso dia a dia, nos noticiários, nos filmes, etc. E aí se coloca a questão: por que algo tão natural nos causa tanto espanto? De um lado, o fenômeno da morte é banalizado, escondido, mas, por outro lado, é um desconcertante mistério, não é comparável a outro fato, é único e desmedido.
Entretanto, há aqueles que preferem se esconder na multidão como se fosse possível fugir da finitude. Essa fuga ocorre em meio a uma espécie de degradação cultural gerada pelo nivelamento simplista das qualidades humanas. Pesa sobre nós a “ditadura da massificação”, na qual a existência individual se dilui na coletividade. Obviamente que a interpretação de igualdade a todos não teve sua eficácia para a vida em sociedade, uma vez que não há como tratar os indivíduos de forma igualitária em um mundo constituído por diferenças, seja no âmbito psicológico, social, filosófico, etc. Um dos principais filósofos a discutir esse problema é Ortega y Gasset (1883-1955), criador do conceito de homem-massa. Para ele, “de repente a multidão tornou-se visível, instalou- se nos lugares preferenciais da sociedade. Antes, se existia, passava despercebida. Ocupava o fundo do cenário social; agora, antecipou-se às baterias, tornou-se o personagem principal. Já não há protagonistas, só coro”.8 Entretanto, a definição do homem-massa não está ligada somente a parâmetros sociais, econômicos de maneira específica, mas pela falta de critérios seletivos, pela falta de espírito avaliativo e isento de sensibilidade cultural, medindo sua existência por parâmetros quantitativos da ganância, aliado à redução do gosto cultural. Assim, tal indivíduo se contenta com pouco, com a vida simplista, imediatista e sem grandes ideais. Para esse pensador, “massa é todo aquele que não atribui a si mesmo um valor – bom ou mal – por razões especiais, mas, que se sente como todo “mundo” e, certamente, não se angustia com isso, sente-se bem por ser idêntico aos demais”.9

PENSAR SOBRE A MORTE CAUSA CONFRONTOS COM SUA REALIDADE MAIS PROFUNDA, POIS A MORTE TEM POTENCIAL SINGULARIZADOR, ESPECIALMENTE NUMA SOCIEDADE DE MASSA

 A recusa de discussões sobre a morte caminha nessa direção, pois, ao aproximar-se da morte cada um necessitará se confrontar consigo, com sua realidade mais profunda, porque a morte tem potencial singularizador, especialmente numa sociedade de massa, no qual, muitas vezes, parece que o coletivo se sobrepõe aos aspectos individuais. Assim, a experiência da morte pode levar o ser humano a se perceber como único, possibilidade que muitos temem, preferindo a moral do rebanho. Para o filósofo Martin Heidegger (1889- 1976), é por meio da angústia diante da morte que o indivíduo se transforma de maneira radical, fazendo surgir sua autenticidade. Enquanto o indivíduo se angustia, ele se destaca, singulariza-se, pois só ele pode ser o que ele é diante da morte. Na morte, sua existência se torna autêntica, e essa aceitação da aproximação da nadificação implica olhar de frente o não-ser.

 

A autenticidade surge a partir da consciência da finitude humana, observando a morte como possibilidade da impossibilidade na existência. Dessa maneira, pode-se projetar e edificar uma existência a partir da superação do não-ser.

 

 

A Ciência, na Idade Moderna, surge como eminentemente ativa em contraposição à Ciência antiga que era contemplativa

O medo é direcionado aos entes intramundanos. Já a angústia não se refere a qualquer realidade imanente. Essa angustia faz do Dasein um ser de possibilidade, pois é levado a se projetar, a se construir, abrindo-se para a perspectiva futura, implicando na noção de finitude. O futuro gera a consciência da possibilidade da morte, que, por sua vez, leva o indivíduo a realmente existir. Entretanto, numa sociedade massificada, a fuga da morte é estrada certa como busca de realização pessoal, e a morte passa ser sempre a morte do outro: “A interpretação pública da presença diz: morre-se porque com isso qualquer outro e o próprio impessoal podem dizer com convicção, mas eu não; pois esse impessoal é o ninguém”.10 A morte faz parte da vida, carregamos ela conosco. “O fruto imaturo, por exemplo, encaminha-se para o seu amadurecimento. No amadurecimento, aquilo que ele ainda não é, de modo algum, se oferece como algo que se lhe ajunta, no sentido de algo que ainda não é simplesmente dado. O próprio fruto amadurece. O amadurecimento e o amadurecer caracterizam-lhe o ser enquanto fruto. Não fosse o fruto um ente que chegasse por si mesmo ao próprio amadurecimento, nada que se lhe acrescentasse de fora poderia eliminar-lhe a imaturidade. O ainda-não da imaturidade não significa uma coisa exterior à qual, indiferentemente ao fruto, poderia ser simplesmente dada nele ou com ele. O ainda-não indica o próprio fruto em seu modo específico de ser.”11
Heidegger, deixa mais claro, ao dizer que “o ainda-não já está incluído em seu próprio ser, não como uma determinação arbritária, mas como um constitutivo. Analogamente, a presença enquanto ela é, já é seu ainda-não”.12 Para Heidegger a morte plenifica a existência. Tal existência, que é propriedade humana, implica uma abertura para a morte, caso contrário, teremos uma existência inautêntica (uneigentlich), possuindo uma vida superficial, encobrindo o ser. Esse esquecimento do ser ocorre de maneira mais clara no século XX; segundo Heidegger, o Dasein é um ser imerso na sua existência, um ser no mundo (in-der-welt-sein) e tal estrutura ontológica implica a inseparabilidade do ser humano e do mundo. Por isso o ser humano não se encontra simplesmente no mundo, coisificado, como um ente dado. Antes, mora nele, habita e existe no mundo.

 

NO MOMENTO que o ser humano passa a ser senhor da natureza, caracterizado pelo desencantamento do mundo, como diria Max Weber, e acima de tudo por uma humanidade racionalizada, busca agir sem qualquer resíduo que venha de concepções misteriosas e incalculáveis

 

Uma interpretação errada da morte gera medo porque essa ligação seria desfeita de maneira paralisante, especialmente numa sociedade em que o convívio é pautado pelo afastamento do ser, e a noção de vivência é caracterizada pela ditadura da impessoalidade. A massificação do convívio dilui o eu, e a morte é o resgate que ninguém quer perceber, pois a morte é uma possibilidade de descoberta. Descoberta que petrifica o ser humano, pois o medo humano não é endereçado a algo objetivo; o que se teme, na verdade, é o próprio ser humano. Coisificamo-nos na vida e escondemo-nos nas coisas, esperando delas uma espécie de redenção, esperando que os entes façam por nós algo que somente nós podemos fazer. Massificamos nossos sonhos na esperança de que ao adquirir objetos nos eternizemos, garantindo um minuto a mais de vida. Enfim, nós nos diluímos no todo para que a morte não nos encontre. Mas, oras, nós fomos feitos para a morte!

 

 

MORRER, UM TABU

 

A sociedade contemporânea está vivenciando a “cultura de massificação”, na qual todo o destaque pessoal parece diluído

 

O mundo ocidental levou a compreensão da morte a um tabu, que deve ser afastado das crianças, levado para longe das conversas, bem como tudo aquilo que seja traço característico dos passos que antecedem a morte, como a enfermidade, a velhice. Então, o medo diante da própria finitude se transforma em pânico. Por isso os rituais de morte fazem parte das sociedades, através deles se consegue “digerir” o impacto realizado pela não existência de alguém. Nós nos tornamos mais humanos quando percebemos que vamos morrer. Essa consciência finita da morte repercute na vida. Vivemos para morrer. Porque a morte vem nos perguntar sobre o sentido da nossa existência e nos retirar da inércia do silêncio de não pensarmos nossa própria condição.

A morte não deveria ser vista como uma surpresa, mas como uma possibilidade sempre presente em nosso cotidiano, uma vez que ela ocorre dentro do mundo, ela vem ao nosso encontro e nós vamos ao encontro dela. Todavia, a impessoalidade não irá retirar essa condição, não falar da morte não faz você mais imortal, não o deixa menos atingido pela morte.
Uma reflexão sobre a morte realiza uma pausa na nossa trajetória. Com isso, vemos a morte como uma necessidade existencial, ela nos capacita para irmos além do que somos. Quem sabe teríamos na morte mais humanidade, e não tanto uma espécie de castigo divino, ela seria amiga, próxima, necessária. Assim, humanizaríamos a morte, ela seria nossa, nossa necessidade.
A morte é uma proteção que desprotege. Tão necessária, tão humana, tão nossa.

NOTAS:
1 ELIAS, 2001, p. 17
2 ELIAS, 2001, p. 11
3 LASCH, 1983, p. 37
4 LASCH, 1983, p. 77
5 LASCH, 1983, p. 75
6 WEBER, 1982, p. 165
7 MURIAC, 1975, p. 72
8 ORTEGA Y GASSET, 2002, p. 43
9 ORTEGA Y GASSET, 2002, p. 45
10 HEIDEGGER, 2005, p. 35
11 HEIDEGGER, 2005, p. 24
12 HEIDEGGER, 2005, p. 25


(Matêus Ramos Cardoso / Wellington Lima Amorim) 

 

HYPERLINKS: 

*Vida e morte (Viver e morrer são a descoberta da finitude humana, de nossa temporalidade e de nossa identidade: uma vida é minha e minha, a morte. Esta, e somente ela, completa o que somos, dizendo o que fomos. Por isso, os filósofos estóicos propunham que somente após a morte, quando terminam as vicissitudes da vida, podemos afirmar que alguém foi feliz ou infeliz. Enquanto vivos, somos tempo e mudança, estamos sendo. Os filósofos existencialistas disseram: a existência precede a essência, significando com isso que nossa essência é a síntese final do todo de nossa existência. “Quem não souber morrer bem terá vivido mal”, afirmou Sêneca.)

*A busca de uma ética para os novos tempos (Para Soren Kierkegaard, o memento mori pode fundar uma sabedoria. A morte, levada a sério, é uma fonte de energia sem igual, estimula a ação e dá sentido à vida. Já o controle do comportamento pelas drogas, as intervenções no cérebro, a terapia comportamental programando a ação humana e as manipulações genéticas envolvem profundos perigos que afetam a identidade pessoal. Para essas questões vitais a ética tradicional não tem qualquer resposta. Reagindo à questão fundamental de Nietzsche, que se encontra na introdução deste livro, Jonas diz: "Saber se estamos qualificados para esse papel demiúrgico, eis a questão mais grave que se pode colocar para o homem, que se descobre subitamente de posse de um tal poder sobre o destino".)
* Filosofia e religião; dois modos opostos de abordar a questão da salvação (... se as religiões se definem como “doutrinas da salvação” por um Outro, pela graça de Deus, as grandes filosofias poderiam ser definidas como doutrinas da salvação por si mesmo, sem a ajuda de Deus.
É assim que Epicuro, por exemplo, define a filosofia como uma “medicina da alma”, (1) cujo objetivo último é o de nos fazer compreender que “a morte não deve amedrontar”. Esse é também todo o programa filosófico que seu mais eminente discípulo, Lucrécio, expõe num poema intitulado Sobre a Natureza das Coisas:
É preciso, antes de tudo, expulsar e destruir esse medo do Aqueronte [o rio dos Infernos] que, penetrando até o fundo de nosso ser, envenena a vida humana, colore todas as coisas do negror da morte e não deixa subsistir nenhum prazer límpido e puro.

Isso é válido também para Epicteto, um dos maiores representantes de outra escola filosófica da Grécia antiga, o estoicismo, sobre o qual falarei daqui a pouco, que vai reduzir tod as as interrogações filosóficas a uma única e mesma fonte: o medo da morte. Vamos ouvi-lo quando se dirige a seu discípulo durante as conversas que com ele mantém:

Tens em mente — diz ele — que para o homem o princípio de todos os males, da baixeza, da covardia, é... o medo da morte? Exercita-te contra ela; que para isso tendam todas as tuas palavras, todos os teus estudos, todas as tuas leituras e saberás que é o único meio que os homens têm de se tornarem livres.(2)

O mesmo tema se encontra em Montaigne, no famoso adágio segundo o qual “filosofar é aprender a morrer”, e em Spinoza, com sua bela reflexão sobre o sábio, “que morre menos que o tolo”; em Kant, quando se pergunta “o que nos é permitido esperar”, e até em Nietzsche, que se aproxima, com seu pensamento sobre a “inocência do devir”, dos mais profundos elementos das doutrinas da salvação elaboradas na Antiguidade.
... O MEDO DA MORTE NOS IMPEDE DE VIVER BEM.)

* Deus ainda tem futuro? (Há uma correlação íntima entre a concepção de Deus e a concepção do Homem. Com o eclipse de Deus é o sentido do mundo que desaparece e o próprio Homem perde orientação. George Minois conclui a sua História do Ateísmo: se, independentemente da sua resposta, positiva ou negativa, o Homem já não vir necessidade de colocar a questão de Deus, isso significa que, pela primeira vez na sua História, a Humanidade sucumbe ao imediatismo, a uma visão fragmentária do aqui e agora e "abdica da sua procura de sentido".
No contexto de uma crise global - crise financeira, económica, social, política, moral -, é preciso perguntar se a crise de Deus não ocupa lugar central.)
 * Nix (A maioria da progênie noturna é composta por abstrações, símbolos terríveis que nos intimidam talvez para ordenar os ciclos da vida e da morte. Tal como a linhagem da Terra, Nix foi pródiga em sua fecundidade de criaturas do bem e do mal. Em sua Teogonia, Hesíodo afirma que são seus filhos: Moiro, de quem pouco se ocupou a mitologia; a negra Kera e Tânatos, todos os três vinculados à morte. Também pariu Hipno e deu à luz a tribo dos Sonhos. Depois, sem deitar-se com ninguém, pariu Momo, o doloroso lamento e as Hespérides, aos cuidados de quem foram entregues as famosas maçãs de ouro, que Hera recebeu por ocasião de seus esponsais com Zeus. 
... A Noite pariu o Destino, mas também trouxe à luz o Sono e os Sonhos. Avó das Dores, teve por filha a Rivalidade, ainda que já estivesse o Amor no mundo para enobrecer os trabalhos de suas irmãs nefastas. Sem Nix a luz careceria de sentido, e o símbolo solar de Apolo jamais reinaria ao lado da esperança. É das trevas que surgem os prenúncios da leveza e da realidade. Atrás dela caminha a luz prometedora que chega depois de uma angustiante espera. A escuridão inflige um gemido, mas também antecipa a nova ordem de deuses, semideuses, heróis e homens portadores de uma transparência que opõe a Tânatos [ou à Morte] a fascinação da aurora. 
* Nos cemitérios, a interrogação (Quando se vai ao cemitério visitar a campa de um familiar, de um amigo, presta-se uma homenagem, faz-se uma romagem de saudade... É isso mesmo: de saudade, no sentido mais radical da palavra, já dito na própria etimologia: a saudade refere-se a uma ausência sem nome e sem fim, que nos faz sentir a solidão que nos dói no mais íntimo de nós... Se a etimologia for saltitem dare então trata-se de uma saudação, com o desejo de que quem partiu e anda longe esteja e passe bem. Aí, no recolhimento mais intenso, pode erguer-se, sem palavras, apenas uma súplica, um soluço, como forma de tentar balbuciar o Mistério indizível...
... Mesmo que assistamos à morte de alguém é de fora que o fazemos... Ninguém sabe o que é estar morto. Diante do cadáver do pai, da mãe, do filho, do amigo, do marido, da mulher, não tem sentido dizer: o meu pai está aqui morto, a minha mãe está aqui morta, o meu amigo está aqui morto, o meu marido está aqui morto, a minha mulher está aqui morta... De facto, eles não estão ali... Também é por pura ilusão de linguagem que dizemos que levamos o pai ou a mãe ou o filho ou o amigo ou a mulher ou o marido à sua última morada... Como não podemos dizer, quando vamos ao cemitério, que os vamos visitar... Nos cemitérios, com excepção dos vivos que lá vão, não há ninguém.)
* O Caos (Os gregos vêem o mundo como a arena onde se trava a luta entre os irmãos gêmeos Eros e Anteros, que personificam respectivamente as forças de atração e repulsão presentes em todas as coisas. Ao contrário da idéia atualmente difundida, Eros não personifica apenas a atração sexual: ele preside a todas as forças que atraem, unem, agregam, desde as células vivas, tomos e moléculas, aos planetas e galáxias; amizade, amor e atração sexual são representações dessas forças agregadoras, todas elas regidas pela mesma divindade. Seu irmão, Anteros (Anti-Eros), preside a todas as forças desagregadoras: desde a decomposição das células mortas, à força de repulsão existente entre as moléculas, e as que não permitem que o cosmos se precipite sobre si mesmo.
Não é correto opor-se Eros a Tânatos, como faz a Psicanálise, pois Eros não está em oposição à Morte, ao menos da maneira que se acredita. Mesmo na dupla Eros-Anteros, o pensamento dualista verá o antagonismo entre a vida e a morte, mas esta consiste numa concepção infantil, que mostra as limitações da visão judeu-cristã na compreensão dos mitos. Fora do dualismo maniqueísta, a vida não é Eros, e sim o resultado da contraposição entre Eros e Anteros; nem a vida nem a morte se situam num desses pólos, mas no equilíbrio entre os mesmos.)
* Do sacrifício religioso ao erotismo (É geralmente próprio do sacrifício harmonizar a vida e a morte, dar à morte o jorro da vida, à vida o peso, a vertigem e a abertura da morte. É a vida misturada à morte, mas, no sacrifício, a morte é ao mesmo tempo signo de vida, abertura ao ilimitado.)
* Identidade e morte (Para os gregos, o que caracteriza a morte é a perda da identidade. Os mortos são, antes de mais nada, “sem-nome” ou mesmo “sem-rosto”. Todos que deixam a vida se tornam “anônimos”, perdem a individualidade, deixam de ser pessoas. Ulisses, durante a sua viagem (direi mais adiante em quais circunstâncias), ao ser obrigado a descer aos infernos, onde estão aqueles que não têm mais vida, é tomado por surda e terrível angústia. Contempla horrorizado todo aquele povo no Hades. O que mais o preocupa é a indistinta massa de sombras que nada mais identifica. Aterroriza-o o barulho que fazem: um barulho confuso, um burburinho, uma espécie de rumor surdo dentro do qual não se pode reconhecer voz alguma e menos ainda qualquer palavra que faça sentido. É essa despersonalização que caracteriza a morte aos olhos dos gregos, e a vida boa deve ser, tanto quanto possível e pelo tempo que se puder, o contrário absoluto desse tom acinzentado infernal.)
(Talvez valesse a pena nos apegarmos aos ensinamentos de Epicuro que, já no século 3 a.C., entendia não ter o humano nenhuma relação com a morte. O ateniense, pregando a calma felicidade, disse não temer a morte porque nunca iria encontrá-la, pois "enquanto sou a morte não é; e desde que ela seja, não sou mais". Consolo pueril ou convicção racional? Não importa; ajuda a exorcizar o terrível mistério.
De qualquer forma, é sempre bom recordar a sapiência secular da mineira Dona Sinhá Azeredo: quando afrontada pelos filhos e netos que, de brincadeira, ironizavam sua idade avançada (com os males e esquisitices senis decorrentes), retrucava, de modo triunfal: "Deixa estar; caminheiros somos, caminhando vamos...")
* Angústia e esperança (...morreremos. De qualquer modo, porquê envenenar a vida com a morte, se precisamente a vida é que é decisiva? Como sublinha o filósofo Fernando Savater, deveríamos reflectir muito mais sobre "a maravilha de ter nascido, que é tão grande como o espantoso assombro da morte. Se a morte é não ser, já vencemos uma vez no dia em que nascemos". Pelo nascimento roubámos algum tempo ao nada. Lembrando o velho Epicuro, nunca coexistimos com a morte: enquanto eu estou, ela não está; quando ela estiver, eu já não sou. Se a morte desembocar no nada, já não estaremos lá para nos revoltarmos, para nos darmos conta da angústia de que já não existimos. Mas, por outro lado, precisamente o pensamento de que tudo acaba na morte é intolerável: não se tolera não ir para lado nenhum. Mais do que intolerável é impensável: como é que um existente consciente pode pensar o nunca mais existir?
Por isso, acena sempre um outro pensamento na esperança: Ou será que aquele instante da morte no qual deixamos de pertencer ao tempo é coincidente com o instante da memória criadora de Deus?)
* Sexo e morte no cristianismo (Separar-se de Deus é descobrir os efeitos de não possuir atributos divinos: eternidade, infinitude, incorporeidade, auto-suficiência e plenitude. Ora, pelo sexo, os humanos não somente reafirmam sem cessar que são corpóreos e carentes, mas também não cessam de reproduzir seres finitos. O sexo é o mal porque é a perpetuação da finitude. Nele, está inscrita a morte como diria, séculos mais tarde, Freud. Ou o poeta, respondendo à pergunta: o que é o homem? com a resposta: ”cadáver adiado que procria”.) 
* Eros e Thânatos (... da libido, nascem dois princípios antagônicos que lutam em nosso inconsciente: Eros (do grego, amor) eThânatos (do grego, morte), um Princípio de vida ou vital e um princípio de morte ou mortal.
Esses dois princípios tornam o princípio do prazer extremamente ambíguo, pois o prazer não estará necessariamente vinculado a Eros, mas, de modo profundo, a Thânatos. Se o desejo supremo dos seres humanos for o equilíbrio, o repouso, a paz, o imutável, somente Thânatos ou a morte poderá satisfazer tal desejo e produzir verdadeiro prazer, enquanto Eros colocando-nos no interior de afetos conflitantes, podenão ser a realização do princípio do prazer. O ponto essencial é que o princípio de morte não é apenas o desejo de destruição dos outros que seriam obstáculos ao repouso, mas de autodestruição.
Qual a maior dor que sente um ser humano? Qual o traumatismo originário? Nascer. Sair do aconchego e do repouso uterino, separar-se do corpo materno. Thânatos é o princípio profundo do desejo de não separação, de retorno à situação uterina ou fetal, de regresso à paz e ao nada primordiais. Por isso é tão potente, mais poderoso do que Eros, que nos força a viver.)
* "O sono é uma porção de morte que tomamos antecipadamente" (A. Schopenhauer)(O sono pede emprestado da morte para conservar a vida; ou são os juros pagos provisoriamente à morte, que é o pagamento integral do capital. O reembolso total se exige em um prazo tanto maior quanto mais elevados são os juros e mais metodicamente se paga.)
* NO INSTANTE, A ETERNIDADE (Tornou-se um lugar comum: o reconhecimento de que nas nossas sociedades científicas e técnicas, urbanas e consumistas, hedonistas e invadidas pelo niilismo a morte se tornou tabu. Disso, pura e simplesmente não se fala. É uma realidade quase obscena, embora se admita que o mundo dos mortos invada o mundo dos vivos um ou dois dias por ano - um e dois de Novembro, os dias dos Finados, dos Defuntos. As nossas sociedades são as primeiras na história a colocar o seu fundamento sobre a negação da morte.
Uma sociedade sem Eternidade, enredada no círculo infernal da produção-consumo, tem de ignorar a morte. Neste tipo de mundo, a morte é o não integrável, e o nosso dever é não pensar nela.
 
... Ora, é evidente que é necessário excluir todas as atitudes mórbidas face à morte. Até porque o medo da morte foi utilizado também pela Igreja como verdadeiro exercício de terrorismo sobre as consciências, para uso do poder. Mas é igualmente verdade que, quando uma sociedade nada tem a dizer sobre a morte, é porque, em última análise, nada tem a dizer sobre a existência autenticamente humana. Quando uma sociedade precisa de afastar a morte do seu horizonte, temos aí um sinal decisivo de desumanização e alienação. A ocultação da morte anda vinculada ao profundo mal-estar provocado pelo vazio existencial e pela falta de sentido. Sem o horizonte da morte e o seu apelo à Transcendência, o projecto antropológico fica reduzido a instantes que se devoram.)
* Ameaçados de Morte? ("Dizem que estou ameaçado de morte... quem não está ameaçado de morte? Estamos todos desde que nascemos... Porém há na advertência um erro conceptual. Nem eu nem ninguém estamos ameaçados de morte. Estamos ameaçados de vida, ameaçados de esperança, ameaçados de amor ." Talvez nunca a humanidade, ameaçada de morte em tantas frentes e por tantos perigos que ela mesma desencadeou, tenha necessitado tanto como hoje de homens e mulheres comprometidos incondicionalmente e de modo radical na defesa da vida. Esta luta pela vida temos que inicia-la no nosso próprio coração, "campo de batalha em que duas tendências disputam a primazia: o amor à vida e o amor à morte" (E. Fromm). Desde o interior do nosso próprio coração vamos decidindo o sentido da nossa existência. Ou nos orientamos para a vida pelos caminhos de um amor criador, uma entrega generosa aos outros, uma solidariedade geradora de vida... ou entramos por caminhos de morte, instalando-nos no egoísmo estéril e decadente, uma utilização parasitária dos outros, uma apatia e indiferença total ante o sofrimento alheio.)
* O medo da morte ("Pode-se comparar a existência de um indivíduo a um rio - pequeno a princípio, estreitamente encerrado entre duas margens, arremetendo, com entusiasmo, primeiro os seixos e depois as cataratas. A pouco e pouco, o rio alarga-se, as suas margens afastam-se, a água corre mais calmamente e, por fim, sem nenhuma mudança brusca, desagua no oceano e perde sem sofrimento a sua existência individual.
O homem que na velhice pode ver a sua vida desta maneira, não receará a morte, pois as coisas que o interessavam continuam. E se, com o declínio da vitalidade, a fadiga aumenta, o pensamento do que subsiste não será desagradável. O homem inteligente deve desejar morrer enquanto trabalha ainda, sabendo que os outros continuarão a sua missão interrompida, e contente por pensar ter feito o que lhe era possível fazer." - Bertrand Russell, in 'A Última Oportunidade do Homem') 
("O medo não é uma perturbação psicológica. Ele é parte da nossa própria alma. O que é decisivo é se o medo nos faz rastejar ou se ele nos faz voar. Quem, por causa do medo, se encolhe e rasteja, vive a morte na própria vida. Quem, a despeito do medo, toma o risco e voa, triunfa sobre a morte. Morrerá, quando a morte vier. Mas só quando ela vier. Esse é o sentido das palavras de Jesus: “Aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á. Mas quem perder a sua vida, a encontrará.“ Viver a vida, aceitando o risco da morte: isso tem o nome de coragem. Coragem não é ausência do medo. É viver, a despeito do medo.
Houve um tempo em que eu invocava os deuses para me proteger do medo. Eu repetia os poemas sagrados para exorcizar o medo: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum...“ “Mil cairão à tua direita, dez mil à tua esquerda, mas nenhum mal te sucederá...“ A vida me ensinou que esses consolos não são verdadeiros. Os deuses não nos protegem do medo. Eles nos convidam à coragem de viver a despeito dele." - in 'A Casa de Rubem Alves')
* A libido é a força que nos liga mais fortemente à vida (Sendo a libido a força que nos liga mais fortemente à vida, podemos compreender sua importância. Quando investimos essa energia em alguém, ele se torna emocionalmente significativo para nós. Assim também uma circunstância ou algo que amamos, porque representam oportunidades de gratificação. Podemos então entender que uma perda de qualquer uma dessas relações nas quais depositamos nossa energia amorosa, desperte um estado de mal estar. Ele poderá vir a ser superado, após um período de luto, se conseguirmos recuperar esse capital afetivo e investí-lo em outras pessoas ou circunstâncias, estabelecendo novamente uma ligação que nos proporcione a sensação

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