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Arte

por Thynus, em 22.10.13

 

 

A Arte é uma constante na história da humanidade. Todas as culturas possuem Arte, mas sua diversidade torna difícil sua definição. No pensamento ocidental, a Arte é a tradução material da beleza. Por sua vez, a beleza é uma noção da Filosofia Clássica que pode ser entendida como a essência invisível de tudo o que é belo. Dentro da Filosofia Clássica, a beleza é estudada pela Estética, que procura diferenciá-la do belo. Já o belo designa tudo o que, cotidianamente, é captado pela nossa subjetividade e nos provoca emoção, levando-nos a um estado diferente da normalidade. Mas essa noção de belo varia de acordo com o tempo, o espaço e a cultura, ou seja, o belo é relativo: o que é belo para nós, não é para um indivíduo de outra cultura. Entretanto, alguns pensadores consideram que há algo de universal no belo e que pode estar ligado à simetria. Nessa perspectiva, independentemente de todo relativismo cultural, o ser humano de qualquer tempo e lugar consideraria belo tudo o que fosse harmônico e simétrico. De qualquer forma, a noção de beleza deriva da noção de belo, assim como para a tradição ocidental, a Arte deriva da beleza.
Nesse sentido, para muitos pensadores, a principal tarefa da Arte é representar a beleza. Ariano Suassuna, em Iniciação à estética, define a Arte tanto como o dom criador quanto como o conjunto de todas as Artes, plásticas, literárias, cinema etc. Fundamentado na Filosofia Clássica, Suassuna estuda a Arte a partir da Estética e dos filósofos clássicos, como Platão, Aristóteles, Kant e Hegel. Observa assim que, enquanto para Platão a Arte é o caminho para o mundo das ideias, tendo uma função prática e mística de integração do Homem ao Divino, para Aristóteles a Arte tem simplesmente a função de criar formas e Beleza, sendo puramente imaginativa, sem nenhuma função de produção de conhecimento. Poderíamos dizer que essas duas posições representam bem as duas principais visões correntes acerca da Arte. Por outro lado, nem todas as abordagens sobre a natureza da Arte buscaram respostas na Estética como disciplina. Por exemplo, historiadores como Collingwood defendem que a beleza não aparece particularmente na Arte, e não é seu objeto específico; Rafael Agullon afirma que, do ponto de vista histórico, a reflexão estética fracassou pela sua subjetividade: as teorias da beleza no campo metafísico e as muitas doutrinas estéticas não puderam evitar o caráter intuitivo que a beleza tem para o ser humano.

 

Outra noção também bastante complexa é a de artista. Enquanto para alguns o artista é todo aquele que faz Arte, para outros, artista é apenas aquele que elabora uma obra de Arte com consciência estética, ou seja, aquele que tem consciência de que está construindo uma obra de Arte. Nessa segunda perspectiva, o artista existiria apenas na Grécia clássica e no Ocidente a partir do Renascimento. Em outras culturas e períodos, como no medievo europeu, por exemplo, o artista era um artesão, e a obra de Arte tinha status semelhante a qualquer objeto produzido pelo trabalho manual humano. Nesse sentido, e mais ainda naquelas sociedades onde a Arte tinha um fim religioso ou mágico, a maioria das obras é anônima, pois pouco importa seu autor. Só no Renascimento, retomando uma noção grega clássica, o artista se tornou um indivíduo que se definia como artista, e não como artesão: era o artista-gênio, uma celebridade valorizada justamente por produzir Arte. Mesmo em civilizações como a egípcia, onde havia uma clara distinção entre a Arte popular e a Arte para a elite – distinção inexistente nas ditas sociedades “primitivas” –, o artista era também um artesão. A grande inovação do Renascimento no campo da definição do artista foi permitir a liberdade de criação àquele responsável pela elaboração da obra de Arte. O artista, então, possuidor da “inventio”, passou a ser capaz de produzir suas obras sem interferência. Surgiu daí o artista-gênio, o artista que muitas vezes era mais valorizado do que a própria obra, como Da Vinci, Michelangelo, Rafael. Concepção que o Ocidente possui ainda hoje.
A Arte é o grande objeto de estudo de duas disciplinas, a Estética e a História da Arte. Ambas têm forte tendência para o subjetivismo, o que não quer dizer que não sigam métodos rigorosos. No caso da História da Arte, desde o começo do século xx, a partir da obra de Heirinch Wölfflin, iniciou-se um estudo rigoroso da Arte a partir de sua forma e seus estilos. Wölfflin procurou levar os historiadores da Arte a se preocuparem com o estilo e a cultura em que foi produzida, e não apenas com o temperamento do artista. Historicizou a análise da obra de Arte, criando conceitos como estilo nacional e estilo de época, procurando basear a análise artística em aspectos objetivos, como as formas de representação da Arte ocidental, o plano, a linha, a profundidade. Até Wölfflin, os historiadores da Arte acreditavam que a tendência natural da Arte em todo o mundo era a representação da natureza, bem como que ela sempre evoluiria historicamente até conseguir fazer isso cada vez com mais perfeição. Ou seja, acreditavam que a tendência da Arte era o naturalismo. Mas Wölfflin afirmou, em 1915, que a História da Arte não poderia trabalhar com a noção, para ele desajeitada, de imitação da natureza, e que a Arte não era um processo acumulativo em busca da perfeição. Essa perspectiva influenciou estudiosos mais recentes, como Peter Burke, que, ao pesquisar os artistas da Itália renascentista, defendeu a possibilidade de algumas sociedades terem um interesse maior na representação do visível – ou seja, da natureza – do que outras, o que seria o caso da sociedade renascentista. Assim, o naturalismo seria uma questão cultural.

 


Harold Osborne, por sua vez, ao estudar o naturalismo grego, definiu-o como um conjunto de técnicas cuja principal motivação era reproduzir cópias das aparências visíveis das coisas, dando origem, assim, à Arte naturalista. Outras sociedades também tiveram Arte naturalista, como os mochicas no Peru, mas foi o naturalismo grego que influenciou a Europa e a formação do Ocidente. Nesse sentido, a importância do naturalismo grego é específico de um período e de uma região, e não tem valor absoluto, não sendo superior a outras formas de concepção artística. Na verdade, ainda segundo Osborne, a maioria dos estudiosos da Arte acredita que o naturalismo é uma concepção minoritária na Arte mundial, que, na maioria das sociedades, prepondera a Arte conceitual, interessada em representar as coisas não com sua aparência no mundo visível, mas com aquilo que considera sua aparência verdadeira, que está fora do tempo e do espaço. As sociedades produtoras de Arte conceitual, como diversos grupos étnicos africanos e nativos americanos, não almejam reproduzir a aparência acidental do objeto, ou seja, sua aparência no mundo, pois esta varia de acordo com o tempo e mesmo com o observador. Mais importante é representar a aparência eterna das coisas, perceptível apenas no mundo invisível.
Já Arnold Hauser, ao se debruçar sobre a Arte da Grécia antiga, ressaltou seu caráter de inovação no sentido de perda do aspecto religioso. Para ele, nesse momento, a Arte deixou de ter uma função religiosa. Na verdade, deixou de ter qualquer outra função que não a função de Arte: a Arte era mais um meio para se alcançar alguma coisa, e passou a ser um fim em si mesmo; deixou de servir à magia, de ser uma forma de propaganda, e se tornou uma atividade pura, desinteressada, autônoma. Essa, na verdade, é uma importante questão na Estética: será que a Arte tem como único objetivo a criação da beleza ou ela só tem validade quando engajada a uma ideia, com uma finalidade, por exemplo, educativa? Muitos artistas se identificam com uma ou outra postura, havendo ainda obras de Arte que podem ser classificadas em posições intermediárias. Nesse contexto, Suassuna dá exemplos de algumas obras de Arte produzidas no teatro que têm maior ou menor grau de preocupação com a Arte em si ou com determinadas ideologias: Salomé, de Oscar Wilde, seria um exemplo de obra que se preocupa fundamentalmente com a beleza e com a Arte enquanto tal; já O mal-entendido, de Albert Camus, seria uma peça “engajada”, na qual a preocupação artística se mistura com inquietações de ordem filosófica.

"O que pensa que é um artista? Um idiota, que só tem olhos, quando pintor, só ouvidos, quando músico, ou apenas uma lira para todos os estados de alma, quando poeta, ou só músculos, quando lavrador? Pelo contrário! Ele é simultaneamente um ente político que vive constantemente com a consciência dos acontecimentos mundiais destruidores, ardentes ou alegres e que se forma completamente segundo a imagem destes. Como seria possível não ter interesse pelos outros homens e afastar-se numa indiferença de marfim de uma vida que se nos apresenta tão rica? Não, a pintura não foi inventada para decorar casas. Ela é uma arma de ataque e defesa contra o inimigo." (Pablo Picasso, sobre Guernica.)

 

Podemos assim constatar a grande complexidade que envolve o conceito de Arte, e seu intrínseco envolvimento com a noção de beleza. Hoje, a História da Arte já inclui campos de pesquisa que valorizam a Arte chamada “primitiva”, mas só o fato de chamá-la assim já é um juízo de valor que interpreta a Arte ocidental como superior. Por outro lado, autores como Osborne elaboraram importantes reflexões que atribuem à Arte conceitual – à Arte das sociedades tribais, por exemplo – seu legítimo valor histórico, apontando seu alto grau de abstração. No entanto, essa visão menos etnocêntrica ainda está bastante restrita a alguns círculos acadêmicos, e é comum que os educadores brasileiros continuem a repetir fórmulas ultrapassadas, julgando a Arte a partir do naturalismo ocidental. Isso é mais grave porque a maioria desses educadores realmente não conhece a História da Arte, ocidental ou não. É muito importante que os professores de História estudem a História da Arte, conheçam os grandes artistas do Ocidente e ultrapassem essa fronteira para buscar a Arte conceitual africana ou americana. Só assim poderemos levar para a sala de aula uma discussão acurada sobre a Arte. Discussão extremamente importante para a formação humanística do indivíduo, pois a formação do cidadão não pode se restringir a conhecimentos técnicos e pragmáticos, mas precisa oferecer também uma visão universalista do mundo, que pode ser encontrada na Arte como um todo.

 

Como atividade para ser realizada como os alunos, a comparação entre obras de arte, africanas e renascentistas, por exemplo, frisando a opção que cada cultura faz ou não pelo naturalismo, é um excelente instrumento para derrubar visões etnocêntricas pré-concebidas, ao enfatizar o enorme grau de abstração necessário para a elaboração da Arte conceitual, e o considerável desenvolvimento filosófico requerido por tais obras. Antes de tudo, entretanto, cabe a docentes e discentes buscarem os instrumentos conceituais que lhes permitirão ler melhor a Arte, em suas diversas manifestações (pinturas, colagens, músicas, teatro, poesia, artes manuais, danças etc.), sem estabelecer uma dicotomia rígida entre a “obra-prima” e as Artes ditas “menores”. Nessa empreitada, a valorização do direito de fruir a Arte deve ser um dos debates preliminares, e os museus e os artistas locais devem ser valorizados e discutidos.

(Kalina Vanderlei Silva, Maciel Henrique Silva - "Dicionário de conceitos históricos")

"Os espelhos são usados para ver o rosto; a arte para ver a alma." (George Bernard Shaw)

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publicado às 17:53



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