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EXISTÊNCIA

por Thynus, em 21.10.13

 

Como derivado do latim, o termo existência significa “o que está aí” e, neste sentido, é equiparável à realidade. Seja como for, deve distinguir-se a existência enquanto tal das diversas entidades existentes. Aqui, trata-se pois de dilucidar a questão da natureza ou ESSÊNCIA da existência e não de nenhum dos existentes. Apoiando-se em análises anteriores, Aristóteles defendeu que se entende a existência como substância, isto é, como entidade. A existência é a substância primeira enquanto é aquilo de que pode dizer-se algo e onde residem as propriedades. Quando a existência se une à ESSÊNCIA, temos um ser. Dele podemos saber o que é precisamente porque sabemos que é. Ao averiguar quais são os requisitos da existência e ao utilizar neste sentido os conceitos de matéria e forma, de potência e acto, Aristóteles lançou as bases para muitas discussões posteriores acerca da relação entre a existência e o que faz a existência ser. Se chamamos a este último ESSÊNICA, temos a base para os debates sobre a relação entre ESSÊNCIA e existência.
Embora os autores medievais tenham tido em conta o sistema de conceitos gregos, há diferenças básicas entre certas concepções gregas de existência e a maior parte das concepções medievais. Depressa os gregos tenderam a conceber a existência como coisa; os filósofos medievais, especialmente os de inspiração cristã, defenderam que há existências que não são propriamente coisas, e que nem sequer podem compreender-se por analogia com nenhuma coisa e que, contudo, são mais existentes do que outras entidades. É o caso de Deus, das pessoas, etc.. Pôs-se em relevo que há, na filosofia medieval, duas concepções fundamentais da concepção entre ESSÊNCIA e existência. De acordo com uma que pode designar-se como “primado da ESSÊNCIA sobre a existência”, a existência concebe-se inclusive como um acidente da ESSÊNCIA. É opinião de Avicenas e de filósofos mais ou menos avicenianos. A outra pode chamar-se “primado da existência sobre a ESSÊNCIA”. De acordo com ela, a ESSÊNCIA é algo como a inteligibilidade da existência. É o caso de autores como S. Boaventura, S. Tomás, etc.
Equiparou-se muitas vezes o significado de existência e ser; isto suscitou o seguinte problema: dado algo que existe, pode perguntar-se dele o próprio existir? Alguns autores defendem que a existência é o primeiro predicado de qualquer entidade existente, sendo secundários todos os demais predicados. Isto significa que “a existência não existe”. Mas existem todas as entidades existentes. Outros autores negaram que a existência seja um predicado; entre eles destacou-se Kant com a sua célebre afirmação de que o ser não é um predicado real como podem sê-lo os predicados “é branco”, “é pesado”, por exemplo. Referir-se a algo e dizer dele que existe é uma redundância. Se a existência fosse um atributo, todas as proposições existenciais afirmativas não seriam mais que tautologias e todas as proposições existenciais negativas seriam meras contradições. Por outro lado, dizer de algo que é não significa dizer que existe. O e não pode subsistir por si mesmo: alude sempre a um modo no qual se supõe que é isto ou aquilo. E se enchermos o predicado por meio do existir, dizendo que determinada entidade existe, faltará todavia precisar a maneira, o como, o quando ou o onde da existência. De modo que, de acordo com isto, o “ser existente” não pode possuir nenhuma significação a não ser dentro de um contexto. Isto supõe que o conceito que descreve algo existente e o conceito que descreve algo fictício não são, enquanto conceitos, distintos. Examinando apenas o conceito, não podemos decidir se aquilo a que se refere existe ou não existe.
Pode perguntar-se, no existencialismo actual, deve tomar-se o termo existência num sentido tradicional. Examinaremos a doutrina de Kierkegaard e de Heidegger.
Para Kierkgaard, a existência é antes demais o existente, o existente humano. Trata-se daquele cujo ser consiste na subjectividade, isto é, na pura liberdade de eleição. Não pode falar-se, por conseguinte, da ESSÊNCIA da existência; nem sequer se pode falar de a existência: deve falar-se unicamente de “este existente” ou “aquele existente”, cuja verdade é a subjectividade Kierkegaard, existir significa tomar uma “decisão última” relativamente à absoluta transcendência divina. Essa decisão determina “o momento”que não é nem a mera fluência do “tempo universal” nem tão pouco uma participação qualquer no mundo inteligível eterno. Por isso a filosofia não é especulação, é decisão; não é descrição de essências, é afirmação de existências. há em Kierkegaard um “primado da existência” e em termos tradicionais um “primado da existência sobre a ESSÊNCIA” tal como em muitos autores contemporâneos, como Nietzsche, Dilthey, Bergson, Sartre e até, em certo sentido, Heidegger, embora todos partam de supostos diferentes.
Heidegger usa o termo dasein, que se traduz por vezes por existência, mas que não significa existência no sentido tradicional. O dasein não é a existência em geral nem tão pouco uma entidade qualquer, mas o ser humano enquanto é o único ente que se interroga sobre o sentido do ser. Neste sentido, o dasein tem uma clara preeminência sobre os demais entes. É necessária uma análise do dasein que prepare o terreno para uma ontologia. O que aqui nos importa é sublinhar que o que é próprio desta existência não é aquilo que já é mas o seu poder ser.

(JOSÉ FERRATER MORA - DICIONÁRIO DE FILOSOFIA)

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publicado às 01:42



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