Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




DESEJO

por Thynus, em 20.10.13

 

Durante séculos, utilizaram-se as expressões apetite e desejo para designar afecções ou movimentos da alma, entendida esta num sentido muito geral. Como o primeiro desses já caiu em desuso, preferimos referir-nos aos dois neste artigo. Para Aristóteles, o desejo é uma das classes do apetite. O desejo não é necessariamente irracional; pode ser e é muitas vezes, um acto deliberado (ÉTICA A NICóMACO), que tem como objecto algo que está em nosso poder de deliberação. Em rigor, aquilo a que se chama eleição ou preferência é um “desejo deliberado”. Com estas análises, Aristóteles parecia rejeitar o contraste estabelecido por Platão entre desejo e razão (REPÚBLICA), mas deve ter-se em conta que a concepção platónica de desejo é mais complexa do que parece se considerarmos unicamente o texto citado; com efeito, Platão admitia não só a distinção entre desejos necessários e desejos desnecessários. Mas considerava ainda a possibilidade de um desejo que pertenceria exclusivamente à natureza da alma (FILEBO).
Era normal, no mundo antigo, a referência ao desejo como uma paixão da alma, embora não se deva dar sempre ao termo paixão um sentido pejorativo. Quando se acentuava o carácter racional da alma, contudo, qualquer das suas paixões podia aparecer como um obstáculo para a razão. Assim acontecia com os velhos estóicos; por exemplo, Zenão de Citio falava do desejo como uma das quatro paixões juntamente com o temor, a dor e o prazer. Na sua discussão da noção de concupiscência, S. Tomás (SUMA TEOLOGICA) nega que a concupiscência, ou desejo estejam unicamente no apetite sensitivo. Isto não quer dizer que se estenda sem limites por todas as formas do apetite. O desejo pode ser sensível ou racional, e aspira a um bem que não se possui. Mas não deve confundir-se o desejo com o amor ou a deleitação. Em S. Tomás, a bondade ou maldade do desejo dependem do objecto considerado. Os autores modernos trataram do desejo fundamentalmente como uma das chamadas “paixões da alma”. O principal interesse que move esses autores é psicológico (num sentido muito amplo do termo). Assim acontece com Descartes, quando escreve que “a paixão do desejo é uma agitação da alma causada pelos espíritos que a dispõem a querer para o porvir coisas que se representam como convenientes para ela” (AS PAIXÕES DA ALMA). Também em Locke: “a ansiedade que um homem encontra em si por causa da ausência de algo cujo gozo presente leva consigo a ideia de deleite é aquilo a que chamamos desejo, o qual é maior ou menor, consoante essa ansiedade seja mais ou menos veemente” (ENSAIO). Semelhante ansiedade não é, em si mesma, má; em rigor, pode ser o incentivo para a destreza humana. Espinosa não estabelece nenhuma distinção entre apetite e desejo: “o desejo é o apetite acompanhado da consciência de si mesmo” (ÉTICA).
Hegel, por seu lado, afirma que “a consciência de si mesmo é o estado de desejo em geral (FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO). A condição do _desejo e do trabalho (ou esforço) aparece no processo em que a consciência volta a si mesma no decurso das suas transformações como consciência feliz. Para Sartre, o desejo não é pura subjectividade, tão-pouco é pura apetência, análoga à do conhecimento. A intencionalidade do desejo não se esgota num “para algo”. O desejo é algo que “eu faço a mim próprio” ao mesmo tempo que estou fazendo ao outro desejado, como desejado. Por isso Sartre diz que o desejo —que exemplifica no desejo sexual— tem um ideal impossível, porque aspira a possuir a transcendência do outro “como pura transcendência e, contudo, com corpo”, isto é, porque aspira a “reduzir o outro à sua simples factuidade, já que se encontra então no meio do meu mundo” e, ao mesmo tempo, quer que “esta felicidade seja uma perpétua apresentação da sua transcendência aniquiladora” (O SER E O NADA)

(JOSÉ FERRATER MORA - DICIONÁRIO DE FILOSOFIA)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:09


Comentar:

Comentar via SAPO Blogs

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D

subscrever feeds