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Deus é relação

por Thynus, em 20.10.13

Nos frequentes debates sobre ética que felizmente há, se alguém perguntasse: se no mundo houvesse apenas um homem, colocar-se-ia a questão ética?, a resposta era evidente: Não. De facto, se no mundo houvesse apenas um homem, realmente nem sequer saberia que era homem, não tomaria consciência de si como homem.
Ouvimos várias vezes falar na história dos meninos selvagens. Abandonados entre animais, tinham comportamento animal e não sabiam falar... Não se tornaram autenticamente seres humanos. Como disse Fichte, só nos tornamos homens entre homens. Não há eu sem tu, não há tu sem eu. Não existe ser humano sem outro ser humano.
Contrariamente ao que frequentemente pensou a filosofia moderna, é necessário dizer que o eu não se constitui a si próprio sem o outro. Pelo contrário, eu não sou sem o outro, eu não sou eu sem o tu. O outro faz parte de mim. A minha identidade é atravessada pela alteridade. A alteridade é constitutiva da minha identidade.
Que é que isto quer dizer senão que ser e ser em relação se identificam?
Pergunta-se então: como pensar Deus enquanto absoluto, portanto, sem relação, pois é isso também que quer dizer absoluto?
Ainda recentemente o filósofo André Comte-Sponville declarava que não acredita em Deus, porque "seria um sujeito absoluto e auto-suficiente". Ora, "um sujeito que existisse independentemente de todo o encontro" parecer-lhe-ia "contraditório". Uma das razões para ser ateu está em que a noção de Sujeito absoluto lhe parece contraditória, precisamente porque "quem diz subjectividade diz relação".
É necessário reconhecer que a objecção de Comte-Spon-ville é de monta e atravessa a história da filosofia e da teologia filosófica. Significativamente, acrescenta: "ou então é necessário pensar a Trindade, no cristianismo, como a tomada em conta do facto de que não há subjectividade a não ser na relação: que não é possível um sujeito absoluto a não ser na condição de ser, se se pode dizer, intrinsecamente relacional".
É de facto assim que Deus se revela no cristianismo: como relação, como comunhão. Se Deus é pessoa, só pode ser unitrino, uno na trindade de pessoas. Só um Deus comunional, um Deus que tem em si mesmo o seu Tu, portanto, um Deus que é em si mesmo Amor, é que pode criar livremente o mundo e estar na raiz do ser humano enquanto parceiro livre de uma aliança com Deus livre. Se ser e ser em relação não se excluem, pelo contrário, se implicam, então, como escreve o filósofo Bela Weissmahr, "o ser absoluto é a substância absolutamente relacionada das relações absolutamente subsistentes". Qualquer outra concepção de Deus desemboca ou num Deus indiferente em relação ao mundo ou num Deus que se confunde com o mundo e que impede a liberdade, impondo a necessidade, ou num Deus que fatalmente exerce tirania sobre o homem, anulando a sua dignidade infinita.

(Anselmo Borges - Janela do (In)Visível

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publicado às 18:43



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