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Leibnitz e o cristianismo

por Thynus, em 15.10.13

 

 

A religião natural é a única base da catolicidade no sentido genuíno de uma religião verdadeiramente universal: «Assim, a razão é o princípio de uma religião universal e perfeita, que se pode justamente chamar a lei da natureza. (...) a Lei da Natureza é a religião Católica» (Leibnitz, Parallèle entre la raison originale ou la loy de la nature, le paganisme ou la corruption de la loy de la nature et le christianisme ou la loy de la nature retablie, Grua, I, p. 49).
A revelação destina-se a restabelecer a religião natural, não a anulá-la. Deus revela-se por vias sobrenaturais, mas também na imanência do exercício pensante: «A razão é a voz natural de Deus» (Leibnitz, Carta a Morell, Setembro de 1698, Grua, I, p. 138).
O pensamento racional distingue-se da simples percepção natural na medida em que não está limitado aos fenómenos do mundo actual, exercendo-se sobre o modo e o princípio de constituição desse mesmo mundo. E, mais, sobre a própria natureza do ser divino, que contém em si todas as perfeições no grau supremo.
Da justa consideração do ser divino, no qual está implicada a perfeição da sua obra – já que a sua vontade está intrinsecamente ordenada ao óptimo – decorre um afecto especial: a alegria ou o estado duradouro de prazer. A alegria é o fundamento da religião e da piedade («(...) o bom humor, isto é, o contentamento ou a alegria é o mais seguro fundamento da religião e da piedade (...) e não há praticamente mais nada senão o mau humor que possa fazer cair no ateísmo», Leibnitz, Carta a Coste, 1706, GP III, p. 412.), na medida em que dispõe o espírito a perceber o espírito na sua significação moral. De facto, «as coisas estão feitas de uma maneira que ultrapassa os nossos desejos» (Leibnitz, Princípios da Natureza e da Graça, art. 16.), pelo que o descontentamento, a tristeza, o mau humor e o ódio provêm de uma visão desfocada: «Não há indignação justa na República universal» (Leibnitz, Confessio Philosophi, A VI, III, p. 140.).
O Deus de Leibniz é um excelente geómetra, cujo entendimento se exerce nos mais finos jogos combinatórios, mas não é essa a sua verdadeira fisionomia. Ele é o Deus do amor que, pelo exercício da vontade, faz existir toda a perfeição que o mundo das criaturas pode comportar. Enquanto sentimento que se dirige preferencialmente aos espíritos, o amor é deleitação com a felicidade do outro: amar é sentir prazer no prazer do outro, um modo de intensificação do afecto.
Experiência de alteridade, o amor é o vínculo da sociedade entre os homens e destes com Deus, sendo o mediador da união das vontades num mesmo querer, segundo uma definição clássica do amor, retomada no Discurso de Metafísica («O conhecimento geral da grande verdade, segundo a qual Deus age sempre da maneira mais perfeita e mais desejável possível, é, na minha opinião, o fundamento do amor que devemos a Deus sobre todas as coisas, pois quem ama procura a sua satisfação na felicidade ou perfeição do objecto amado e das suas acções. Idem velle et idem nolle vera amitia est (A verdadeira amizade consiste em querer o mesmo e não querer o mesmo)», Leibnitz, Discurso de Metafísica, art. 4.). Na sua dimensão mais profunda, o amor é desejo do desejo do outro, acrescentando à simpatia natural uma nova dimensão que faz dela a base de uma comunidade moral, expressa numa ordem de com-sentimento e de com-paixão.


Numa Europa atravessada por divisões e conflitos entre as diversas confissões cristãs, Leibniz assume o cristianismo como uma religião interior, que aprofunda a sociedade íntima com Deus, inerente ao ser humano enquanto tal: «nós temos uma sociedade íntima com Deus» (Leibnitz, Tentamina quaedam ad novum codicem legum condendum, A VI, IV, C, p. 2867.). Na sua essência, a Igreja é uma comunidade moral cujo selo é a caridade e a benevolência para com o outro, nomeadamente aquele que, por nascimento e educação, vive numa confissão distinta da romana. O espírito sectário, o hábito da excomunhão, o afrontamento e exclusão do outro são a marca da «política humana» («V. A. deve estar reconhecida à boa vontade da Sra. Brinon, que lhe abre o paraíso, se ouvirmos o seu conselho. Ela supõe que Roma é a única via de acesso ao paraíso. Mas ligar as graças divinas a este tipo de condições que a política humana inventou é ter ideias muito estranhas a respeito de Deus», Leibnitz, Carta à Princesa Sofia, Julho de 1697, A, I, XVI, p. 37.), não do verdadeiro zelo pelas coisas divinas. O Papa e restantes dignitários eclesiásticos não têm o poder para excluir da verdadeira Igreja católica aquele que age em consciência, movido pelo amor. A união entre os cristãos está votada ao fracasso enquanto for entendida mais como uma tarefa política, dependente de condicionalismos vários, do que um empreendimento moral e a promoção de uma cultura de paz.

(José Manuel Santos, Pedro M.S. Alves, Joaquim Paulo Serra - Filosofias da Comunicação)

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