Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




"A virtude está no meio"

por Thynus, em 14.10.13

 

 

A Ética a Nicómaco abrange grande parte dos temas da República de Platão; poderia dizer-se, com algum exagero, que a filosofia moral de Aristóteles é a filosofia moral de Platão sem a Teoria das Ideias. Logo no início, Aristóteles explica por que motivo o bem supremo de que trata a ética não pode ser identificado com a Ideia do Bem. Platão era seu amigo, afirma ele, mas a verdade é um amigo ainda maior; e a verdade obriga-o a avançar com nada mais nada menos que oito argumentos para mostrar a incoerência desse aspecto da Teoria das Ideias. A maior parte dos argumentos é altamente técnica e apresenta sinais das esotéricas discussões da Academia; o mais decisivo é talvez o de que a ética é uma ciência prática e deve estudar aquilo que está ao alcance do poder humano, ao passo que uma Ideia do Bem eterna e imutável só poderia ter interesse teórico.
Aristóteles concorda, porém, com o argumento central da República segundo o qual existe uma ligação íntima entre viver virtuosamente e viver feliz, sendo a moralidade para a alma aquilo que a saúde é para o corpo.
De facto, é a felicidade (eudaimonia) que Aristóteles coloca no lugar da Ideia do Bem como o bem supremo que é objecto da ética. O que é então a felicidade? Para o esclarecer temos de considerar a função ou actividade (ergon) característica do homem. O homem deve ter uma função, como é o caso de tipos particulares de homens (os escultores, por exemplo) e dos órgãos ou partes do corpo humano. Que função será esta? Não é a vida, pelo menos não a vida do crescimento e da alimentação, pois essa é partilhada com as plantas, nem a vida dos sentidos, pois essa é partilhada com os animais. Deverá ser uma vida racional ligada à acção: a actividade da alma de acordo com a razão. Assim, o bem humano será o bom funcionamento humano: nomeadamente, «a actividade da alma de acordo com a virtude e, se existirem diversas virtudes, de acordo com a melhor e a mais perfeita».
Ora bem, quantas virtudes existem e qual será a melhor? Aristóteles começa por responder à primeira pergunta no final do primeiro livro da Ética a Nicómaco; e precisará de mais nove livros para responder à segunda. À semelhança de Platão , começa por analisar a estrutura da alma, apresentando a sua própria divisão da mesma em três elementos: um elemento vegetativo, um elemento apetitivo e um elemento racional. O elemento vegetativo é responsável pela alimentação e crescimento; é irrelevante para a ética. O segundo elemento da alma, ao contrário do vegetativo, está sob o controle da razão. É a parte da alma que se ocupa do desejo e da paixão, correspondendo à concupiscência e irascibilidade da alma tripartida de Platão. Esta parte da alma possui as suas próprias virtudes: as virtudes morais, como a coragem, a temperança e a generosidade. A parte racional da alma, que mais tarde será também subdividida, é o lugar das virtudes intelectuais, como a sabedoria prática e o entendimento.
Os livros II a V da Ética debruçam-se sobre as virtudes morais, primeiro em termos gerais e depois individualmente. As virtudes morais não são inatas, nem simplesmente transmitidas de um mestre para o seu discípulo; são adquiridas por meio da prática e podem perder-se por falta de uso. Uma virtude moral, afirma Aristóteles, não é uma faculdade (como a inteligência ou a memória), nem uma paixão (como um acesso de fúria ou de piedade). A simples posse de faculdades ou a simples ocorrência de paixões não fazem uma pessoa boa ou má, louvável ou reprovável. Aquilo que faz de um homem um bom homem é o seu estado de alma duradouro: ou, como diríamos hoje mais naturalmente, o seu carácter.
Uma virtude moral é um estado de carácter que leva um indivíduo a escolher bem e a agir bem. Escolher bem é uma questão de escolher um bom modo de vida; agir bem consiste em evitar pecar por excesso ou por defeito em determinados tipos de acção. Para sermos virtuosos devemos evitar comer e beber de mais, assim como comer e beber de menos. Na nossa relação com os outros, podemos errar se falarmos de mais ou de menos; por sermos demasiado solenes ou demasiado frívolos; por sermos demasiado crédulos ou demasiado desconfiados.
A virtude, afirma Aristóteles, escolhe o meio termo ou o meio campo entre o excesso e o defeito: o homem virtuoso come e bebe na proporção certa, fala na proporção certa e assim por diante. Eis a celebrada doutrina do meio termo de Aristóteles. É frequentemente ridicularizada porque é frequentemente mal interpretada. Uma vez bem compreendida, trata-se de um belo exemplo de análise conceptual.
Aristóteles não faz o elogio da mediocridade dourada nem está a encorajar-nos a permanecer no meio do rebanho. A quantidade certa de qualquer coisa, afirma Aristóteles expressamente, pode diferir de pessoa para pessoa, do mesmo modo que a quantidade certa de alimento para um campeão olímpico difere da quantidade certa de alimento para um atleta principiante. A doutrina do meio termo não pretende ser uma receita para uma vida correcta: temos de encontrar por nós próprios a quantidade certa em cada caso. Mas aprendemos a fazê-lo evitando pecar por excesso ou por defeito; tal como, nos nossos dias, aprendemos a controlar um carro ao lo ngo da faixa certa ao dominar as guinadas iniciais em direcção à berma e à faixa contrária. Assim que aprendemos, seja como for, qual é a proporção certa de qualquer tipo de acção — seja a extensão certa de um discurso num banquete, ou a proporção certa do nosso salário a oferecer a obras de caridade —, então, segundo Aristóteles, teremos a «prescrição certa» (orthos logos) no nosso espírito. A virtude é o estado que nos permite agir de acordo com a prescrição certa.
A virtude diz respeito não só às acções, como também às paixões. Podemos ter medos a mais ou a menos; podemos interessar-nos de mais ou de menos pelo sexo. O indivíduo virtuoso é destemido na altura certa e temeroso na altura certa, e não é nem lúbrico nem frígido. A virtude diz respeito ao meio termo da paixão tanto quanto ao meio termo da acção.

(Anthony Kenny - História Concisa da Filosofia Ocidental)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:29



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D