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Nix

por Thynus, em 10.10.13

 

 

Longe de ser perfeito, como nas passagens que lemos no Gênesis, o princípio criador entre os gregos não proveio de uma idéia de eternidade nem do sopro vital de um deus todo-poderoso que extrai a luz do caos e com ela empreende o resto de sua obra, até coroar com a criação do homem as transformações dos céus e do mundo natural. Em seu primeiro dia, segundo a narrativa bíblica, Deus fez a luz, ainda que não houvesse nada para ser iluminado. O universo era um caos informe e, sobre a face do abismo, reinava a noite. "Haja luz", disse Ele, e a luz existiu. Então, o Deus judeu-cristão chamou à luz dia e às trevas denominou noite. Passou-se uma tarde, passou-se uma manhã e, ao escurecer, separou as águas das águas e criou uma abóbada intermediária, que foi a abóbada celeste. No segundo dia, ordenou que as águas se juntassem por baixo do céu e fez aparecer os continentes. Chamou de mar a massa líquida e de terra os continentes. Reverdeceu a terra a fim de que gerasse as sementes segundo suas espécies e as árvores frutíferas. No terceiro dia, Deus criou dois luminares no céu, regentes da noite e das estrelas, para marcar os ciclos do dia e da escuridão e para assinalar as festas e a contagem dos anos e dos dias. No quarto dia, criou os animais. A água conheceu a flutuação da vida; a terra, o andar e o movimento e, um pouco mais além, sob o teto dos céus, surgiram as aves fundadoras da dinâmica do vôo. "Crescei e multiplicai-vos" - ordenou-lhes. "Enchei as águas do mar; e que as aves se reproduzam sobre a terra." No dia seguinte, deu prosseguimento à sua obra criando as feras da terra, os animais domésticos e abundantes répteis, também separados por espécies. "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança" - disse ao final de tudo. "Que ele domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos e todos os répteis". Criou macho e fêmea, deu-lhes sua bênção e exclamou: "Olhai, eis que vos ofereço as ervas que dão sementes sobre a face da terra; e as árvores frutíferas que geram semente vos servirão de alimento. E a todos os animais da terra, a todas as aves do céu, aos répteis - a todo ser vivente - a erva verde lhes servirá de alimento."
Ao ver sua obra consumada ao sexto dia, Deus deixou transcorrer mais uma tarde e mais uma manhã. Outra vez, na escuridão do silêncio, revisou como ficavam concluídos os céus e a terra e suas multidões de vegetais, de animais e de gente. Então, consagrando o sétimo dia, descansou Deus de sua tarefa, A dinâmica do mundo adquiriu seu próprio ritmo e se estabeleceram para sempre os ciclos da vida e da morte.

 

Os antigos gregos não compartilharam dessa idéia da Criação. Sua concepção de ordem surgiu com o silêncio desde o abismo primordial, fonte do movimento e da vida. Segundo Hesíodo, do Caos nasceram Érebo e a negra Nix, a Noite; e da Noite surgiram Éter e Hemera, frutos de seus amores com Érebo. Ainda que fosse mãe da Luz, Nix não gerou deuses de luz nem de justiça, pois estes provieram de Gaia, a Terra, mãe, como ela, de monstros e de homens. De seio farto, Gaia serviu de sólida matriz para mortais e imortais, até que Eros fosse incubado pela Noite no ovo primordial. Foi assim que o amor se enraizou nas trevas e, por meio dele, a escuridão adquiriu a capacidade da união fecundante. Assim também foram engendradas as sementes imortais, a matéria que compõe os deuses e seu reino olímpico.
Complexa como é, essa cosmogonia mediterrânea não eleva a Noite à categoria de deusa, tampouco considera a primeira geração de entidades como provinda de atos supremos de vontade. O ser animado nasceu do próprio Caos. Nix é o princípio, o impulso criador, como o inferno, a terra e o céu. E como cada um destes, criou sua própria descendência, não à maneira do Gênesis, mas por uma lógica de fecundidade secreta, por obra da potência multiforme.
Os protogregos eram tribos arianas vindas do norte que vieram a se instalar às margens do Mediterrâneo. Traziam consigo antigas crenças e não se sabe onde começou o mistério que durante séculos cultivaram sobre a origem das coisas. Finalmente assentados em cidades, organizaram seus mitos e seus cultos; mas não seria senão no fim do século VIII e na primeira metade do século VII anteriores à nossa era que, com o advento da escrita, Hesíodo produziria uma genealogia da criação. Nessa obra, junto com outras potências estritamente míticas, a Noite se destaca como depositária de um saber elemental, aparentemente constituído para recordar as limitações de nossa condição humana. Tanto Melésio como Lamisco, o Sábio, afirmaram que aquilo que foi produzido no princípio existe agora e existirá no futuro, como a terra, o céu e a Noite; o bem e o mal; a dúvida que sobrevém à obscuridade e a lucidez que lhe faz o contraste. Por essa razão a Noite é uma referência essencial no decurso do ser, pois é ela que torna possível que tudo apareça e possa ser distinguido através da claridade.
A maioria da progênie noturna é composta por abstrações, símbolos terríveis que nos intimidam talvez para ordenar os ciclos da vida e da morte. Tal como a linhagem da Terra, Nix foi pródiga em sua fecundidade de criaturas do bem e do mal. Em sua Teogonia, Hesíodo afirma que são seus filhos: Moiro, de quem pouco se ocupou a mitologia; a negra Kera e Tânatos, todos os três vinculados à morte. Também pariu Hipno e deu à luz a tribo dos Sonhos. Depois, sem deitar-se com ninguém, pariu Momo, o doloroso lamento e as Hespérides, aos cuidados de quem foram entregues as famosas maçãs de ouro, que Hera recebeu por ocasião de seus esponsais com Zeus.
A Noite engendrou ainda as Moiras, provedoras do bem e do mal, a quem os mortais chamaram Cloto, Láquesis e Átropos; e as Keres, vingadoras impiedosas que, em sua cólera sagrada, perseguem sem cessar aos mortais e mesmo aos imortais que cometeram delitos, a fim de infligir-lhes castigos exemplares.
Finalmente, a funesta Noite pariu Nêmese [a Vingança], açoite de todos os mortais, e encerrou sua descendência dando à luz o Engano, as Paixões, a terrível Velhice e, logo depois, a violenta Éris [a Discordia] que, por sua vez, seria mãe do Esquecimento, da Fadiga, da Fome, das Dores que provocam o pranto, das Batalhas, dos Assassinatos, dos Massacres de seres humanos, bem como das Brigas, das Falsidades, dos Discursos, das Ambigüidades, das Leis Injustas, da Ofuscação, dos Amigos íntimos, das Cumplicidades e de Orco, aquele que maiores desgraças causa aos mortais quando alguém comete perjúrio de forma voluntária.
E à Noite que se refere a primeira lição moral sobre a qual se fundamentaria nossa civilização contemporânea. A ela também corresponde o desafio da razão criadora, associado por Platão ao célebre Mito da Caverna; e através dos avatares de sua ampla descendência compreendemos que, para os gregos, era o belo que interessava acima de tudo. Sua intenção estética explica o sentido de espaço que atribuíram ao Caos, um espaço amoldável, disposto a dinâmica da ordem e, em caso algum, condenado a ser desfigurado.
Segundo Aristófanes, quando a Terra, o Ar e o Céu ainda não existiam, a Noite engendrou um ovo no seio infinito de Érebo, e foi desse ovo que saiu Eros, o Amor, ou mais exatamente o princípio de atração que permitirá às criaturas juntarem-se entre si para crescer, se multiplicar e participar da luz e da beleza. Somente esta referência já dotaria de divindade a potência noturna, já que, saído do ovo primordial, Eros se uniu de noite ao Caos alado no vasto Tártaro e fez nascer a raça dos pássaros, a primeira das espécies viventes que vieram a aparecer. Desse modo, antes mesmo que o Amor unisse todos os elementos, e ainda antes que existissem os imortais, as aves povoaram o universo, talvez para acentuar a importância do vôo, a liberdade na qual se resume a sua condição.
Muito bonito, se é que existe, esse vínculo noturno de Eros com os pássaros contrasta com a estirpe tenebrosa dos açoites que afligem a todos os mortais. A Noite pariu o Destino, mas também trouxe à luz o Sono e os Sonhos. Avó das Dores, teve por filha a Rivalidade, ainda que já estivesse o Amor no mundo para enobrecer os trabalhos de suas irmãs nefastas. Sem Nix a luz careceria de sentido, e o símbolo solar de Apolo jamais reinaria ao lado da esperança. É das trevas que surgem os prenúncios da leveza e da realidade. Atrás dela caminha a luz prometedora que chega depois de uma angustiante espera. A escuridão inflige um gemido, mas também antecipa a nova ordem de deuses, semideuses, heróis e homens portadores de uma transparência que opõe a Tânatos [ou à Morte] a fascinação da aurora.

(Martha Robles - Mulheres, Mitos e Deusas - o feminino através dos tempos)

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publicado às 08:25



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