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O ENIGMA DO MAIO DE 1968

por Thynus, em 08.10.13

 

 

A revolta dos estudantes franceses em maio de 1968 é considerada um momento sem precedentes da história mundial, “a maior greve geral da história” (Alan Woods, “A Revolução Francesa de Maio de 1968”, In Defence of Marxism, 8 de maio de 2008, disponível em www.marxist.com/revolucao-francesa-maio-1968.htm) e “um levante mundial simultâneo com o qual revolucionários sonhavam desde a Revolução Russa de 1917” (Eric Hobsbawm, Era dos Extremos, Companhia das Letras, 2008, página 292). Cada vez que “o ano que não acabou” completa mais uma década, universidades organizam simpósios comemorativos, jornais imprimem cadernos especiais cheios de análises, fotos artísticas e artigos saudosistas. No entanto, passados mais de 40 anos desse festejado episódio, uma pergunta permanece no ar: Contra ou a favor do que, afinal, os jovens franceses protestavam?
A vida nunca havia sido tão fácil para os franceses quanto em 1968. Os anos entre 1945 e 1975 ganharam o nome de les trente glorieuses, os trinta gloriosos anos em que a França passou das ruínas da guerra para uma melhoria espetacular de consumo e de padrão de vida. Coisas que hoje consideramos básicas, mas que na época eram reservadas aos ricos, como carro, geladeira, rádio, telefone e televisão, espalhavam-se pela população francesa e por toda a Europa ocidental. O turismo – outra mordomia da qual, por muito tempo, só os ricaços podiam desfrutar – começava a virar tradição entre os jovens franceses de classe média. De poucos milhares de turistas antes da guerra, a Espanha e a Itália passaram a receber, cada uma, mais 25 milhões de pessoas por ano no fim da década de 1960 – boa parte desses visitantes eram os vizinhos que comiam escargot. O desemprego na França havia despencado, os salários tinham aumentado, as crises alimentares e racionamentos viraram conversas dos pais e avós, assim como as histórias de trabalho duro na fazenda. Os jovens já não precisavam trabalhar na lavoura: podiam estudar. A imensa maioria dos estudantes de 1968 eram os primeiros da família a sentar na cadeira de uma faculdade. Do fim da guerra até aquele ano, o número de universitários se multiplicou por seis, enquanto a população da França foi de 39 milhões para 49 milhões. E o que esses jovens de famílias remediadas fizeram quando, enfim, conquistaram o privilégio de passar boa parte da vida estudando e dormindo à tarde?
Coisas muito mais divertidas que estudar. Depois das brigas dos universitários com a polícia e com a direção da Universidade de Nanterre, começaram protestos na margem esquerda do rio Sena. No dia 10 de maio, os estudantes trocaram pedras por bombas de gás com a polícia e arrancaram placas de trânsito, lixeiras e paralelepípedos da rua para fazer barricadas. Também tombaram carros pela rua (tradição que prossegue em todo o fim de ano) e improvisaram escudos com tampas de lixeira. Durante quinze dias, houve alguns confrontos com a polícia e muitos discursos eloquentes. Operários de diversas indústrias entraram em greve para apoiar os universitários (a despeito de alguns sindicatos e do Partido Comunista Francês não apoiarem os protestos dos estudantes). Semanas depois, apesar dos discursos inflamados pregando revolução, invasão e tomada de poder, e apesar de até a cúpula do presidente Charles de Gaulle temer uma derrubada do governo, os protestos acabaram espontaneamente. Todos voltaram a dormir de pijama nos edredons de casa.

O PCF representava a velha esquerda, ainda fiel à tradição soviética, que andava fora de moda desde 1956, quando Kruschev denunciou os crimes de Stálin. O partido não considerou o protesto dos estudantes como uma ação revolucionária legítima e fingiu que nada estava acontecendo.

 O mistério sobre os motivos do Maio de 1968 é contemporâneo ao fato. Aqui no Brasil, numa crônica daquele mês, o escritor Nelson Rodrigues conta que percebeu a falta de motivo da revolta durante um jogo de futebol:

No intervalo de Fluminense x Madureira, um “pó de arroz”, muito aflito, veio me perguntar: – “Afinal, por que é que estão brigando na França? O que é que os estudantes querem?”. O torcedor me olha e me ouve como se eu fosse a própria Bíblia. Começo: – “Bem”. Faço um suspense insuportável. Fecho os olhos e pergunto, de mim para mim: – “O que é que os estudantes querem?”. Era perfeitamente possível que eles não quisessem nada. Por sorte minha, o jogo ia começar. Enxoto o torcedor fraternalmente: – “Vamos assistir ao jogo!”.
Depois da vitória, fui para casa, na carona do Marcelo Soares de Moura (para mim, uma das poucas coisas boas do Brasil é a carona do Marcelo Soares de Moura). Quando passamos pelo Aterro, só uma coisa me fascinava, ou seja: – a hipótese de que os estudantes franceses estejam lutando por nada. Vejam bem. Hordas estudantis fazendo uma Revolução Francesa por coisa nenhuma
(Nelson Rodrigues, “O destino de ser traída”, O Óbvio Ululante, Companhia das Letras, 1993, página 240).

Um dos poucos intelectuais franceses a ficar de fora da euforia dos jovens (e ganhar, por isso, a fama de chato de plantão) foi o filósofo Raymond Aron. Logo depois dos protestos, ele escreveu artigos e um livro afirmando que o Maio de 1968 não foi uma revolução, e sim uma encenação de revolução, uma sessão de psicodrama destinada a tratar problemas afetivos e emocionais, não políticos. “Em vez de levar os estudantes a sério, temos que entender o que eles sentem”, escreveu. Para Aron, as exigências em si não eram importantes: o principal era a renovação do sentimento de esperança numa época em que as utopias pegavam poeira. “Os homens de esquerda, privados de sua utopia desde o stalinismo, acharam ter redescoberto o que sempre sonharam, uma revolução que não acabaria em tirania e brutalidade”, ele escreveu no livro La Revolution Introuvable (“A revolução esquiva”). Aron ainda acrescenta: “Por que deveríamos admirar esses clubes pseudojacobinos onde pseudorrevolucionários discutem pseudorreformas em sessões intermináveis?” (Raymond Aron, “Reflections after the psychodrama”, revista Encounter, dezembro de 1968, disponível em www.unz.org/Pub/Encounter1968dec-00064, páginas 64 e 65).

 

 

Alguns traços bem conhecidos do Maio de 1968 são os grafites e os cartazes com os dizeres “É proibido proibir” ou “Seja realista: exija o impossível”. As frases das ruas mostram que os jovens tinham consciência de que viviam um tempo mais agradável que o dos pais, como essa: “Desde 1936, eu luto por aumento de salário. Meu pai, antes de mim, lutou por um aumento de salário. Agora, eu tenho TV, geladeira e um Volkswagen. Mas toda a minha vida tem sido uma chatice”. Chatice e tédio são palavras comuns. “Nós não queremos um mundo onde a garantia de não morrer de fome traz o risco de morrer de tédio”, dizia um grafite. “Tédio é contrarrevolucionário”, dizia outro. Será essa a resposta? Os estudantes destruíram ruas e jogaram pedras nas pessoas só por tédio, aquele sentimento que jovens bem nutridos têm quando precisam arrumar o quarto?
Há explicações mais criativas. A psicanalista francesa Janine Chasseguet-Smirgel defendeu que os protestos e as ideias utópicas dos estudantes, assim como dos intelectuais que os apoiaram, eram puro narcisismo, uma revolta contra pai e mãe – e mais: um desejo freudiano de voltar ao útero materno. No livro Freud or Reich? Psychoanalysis and Illusion, Janine afirma que manifestantes foram seduzidos por “ideias paranoicas que provocam a negação da realidade e a mobilização da ilusão, uma ilusão fundamentada na racionalização maníaca”. Essa é uma daquelas teorias psicanalíticas de boteco que fazem a testa franzir imediatamente; no entanto, diante dos incompreensíveis atos dos estudantes de Maio de 68, talvez o raciocínio encalacrado da psicanalista seja uma explicação adequada.
Aqui entre nós: qual não é?
É claro que os estudantes tinham causas e bandeiras – mas é aí que a coisa fica pior. Eles pediam o fim da proibição de casais nos dormitórios universitários, o recomeço das aulas na Universidade de Nanterre e Sorbonne (fechadas depois dos primeiros conflitos), o fim da presença da polícia nas universidades e mudanças no horário de fechamento dos prédios. Além dessas questões mundanas, faziam ataques gerais à sociedade de consumo, à Guerra do Vietnã e uma grande ode à Revolução Cultural Chinesa.
É, a China. Nos anos 60, uma desilusão com o comunismo soviético pairava na Europa. Em 1956, o líder soviético Nikita Kruschev deixou o mundo de queixo caído ao denunciar, em pleno congresso do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética, as perseguições, os assassinatos e os casos de genocídio de seu antecessor, Josef Stálin. Logo depois do discurso, no entanto, o próprio Kruschev mostraria seu lado malvado ao reprimir protestos na Hungria. Depois de milhares de pessoas marcharem por Budapeste e derrubarem o governo comunista local, Kruschev revidou com tanques e soldados, matando 2.500 rebeldes húngaros e prendendo muitos outros. Depois desses eventos, o regime de Moscou ganhou pelo mundo a fama de um sistema envelhecido e burocrático, sem o ardor revolucionário do passado. Quem não se desencantou com o comunismo nesse momento teve de encontrar outros modelos a defender. Foi assim que jovens e intelectuais viraram os olhos para a China e seu líder, Mao Tsé-tung.
Mao parecia aos estudantes e intelectuais franceses um líder mais zen que os colegas soviéticos. O homem escrevia poesias e dava ensinamentos políticos tão esquisitos que lembrava um mestre de filme B de kung fu, como “a ação não deve ser uma reação, mas sim uma criação” ou “viver não consiste em respirar, e sim em fazer”. Em 1966, Mao lançou no país a Revolução Cultural. Era mais um massacre bizarro de inimigos políticos que algum tipo de renovação, mas os franceses mais descolados projetaram ali a tão sonhada revolução dentro da revolução, um sistema que nunca perderia os objetivos utópicos e o ímpeto revolucionário. “A China de Mao se tornou a projeção para as superaquecidas fantasias estudantis”, conta o historiador americano Richard Wolin (Richard Wolin, The Wind from the East: French Intellectuals, the Cultural Revolution, and the Legacy of the 1960s, Princeton University Press, edição Kindle, 2010, página 122).
Entre os radicais chiques franceses, virou bacana planejar viagens à China, citar passagens do Livro Vermelho de Mao e até usar o terno de colarinho típico do líder chinês. Em meados de 1967, Jean-Luc Godard lançou o filme La Chinoise (A Chinesa, no Brasil), sobre cinco estudantes que sonhavam derrubar o governo francês. Por que a China, Godard? “Porque todos estão falando sobre a China”, disse ele ao jornal Le Monde. “A China propõe soluções que são únicas... O que diferencia a Revolução Chinesa e a Revolução Cultural é a juventude, a busca moral e científica, livre de preconceitos” (Idem). Meses depois, quando a polícia e os universitários começaram a se estranhar, era esse filme e essas ideias que estavam
em cartaz.
A revista pornô Lui caiu na onda chinesa publicando um ensaio fotográfico com oito páginas de modelos seminuas em chapéus de palha e em trajes da guarda vermelha de Mao (Richard Wolin, página 114).
A simpatia dos estudantes pelo maoismo acabou criando interessantes contradições.
Duas das maiores vitórias dos operários que apoiaram o Maio de 68 foram o aumento do salário mínimo e a conquista da quarta semana de férias. Enquanto isso, nas comunas populares implantadas por Mao, chineses trabalhavam com números nas costas, numa tentativa do governo de abolir o nome dos cidadãos.
No dia 10 de maio de 1968, apareceu em Paris o grafite “É proibido proibir”, em oposição ao tradicional “É proibido colar cartazes”. Enquanto isso, na China, Mao Tsé-tung proibia a população de reclamar da educação (sob pena de morte), de se mudar para outras regiões do país, de abandonar a lavoura, de armazenar grãos e, até mesmo, de ter fogão e panela em casa.
“O patrão precisa de você, você não precisa dele“, gritavam os estudantes franceses simpatizantes do maoismo. Enquanto isso, na China, os trabalhadores precisavam da boa vontade dos chefes dos campos de produção para serem autorizados a se alimentar. Aqueles que não trabalhavam o suficiente ganhavam uma “punição leve”: ficar um dia sem comer (Jung Chang e Jon Halliday, Mao: A História Desconhecida, Companhia das Letras, 2006, página 537).
Veja mais sobre os regimes soviético e chinês no capítulo “Comunistas”.
Por sorte, o tempo passou. Muitos dos filhos do Maio de 68 seguiram o conselho de Nelson Rodrigues (“Jovens, envelheçam o mais rápido possível!”), largaram antigas crenças, pararam para pensar e, com uma tremenda cara de amnésia, se perguntaram: “Onde, afinal, estávamos com a cabeça?”. Um deles foi o filósofo Luc Ferry, ministro de Educação da França durante o governo Jacques Chirac. “Tínhamos duas grandes utopias, a pátria e a revolução, e eu sou daqueles que acordam todos os dias e se alegram quando lembram que essas coisas acabaram”, diz ele. “O maoismo matou milhões de pessoas. Qual é a nostalgia que se pode ter por isso? O que admirávamos era lixo.” (Entrevista com Rita Loiola, realizada em maio de 2008). O mais impressionante é que, naquele mesmo ano, uma revolução legítima e verdadeira estava acontecendo na Europa: a Primavera de Praga. Desde o começo de 1968, os tchecoslovacos tentavam se livrar das unhas da União Soviética e cuidar da própria vida. Liderados pelo reformista Alexander Dubcek, por alguns meses eles sentiram o aroma dos direitos que os franceses tomavam como garantidos, como a liberdade de associação e de imprensa, e imaginaram um sistema com mais partidos políticos. A festa em Praga acabou quando a União Soviética mandou 2 mil tanques invadirem a cidade e botarem o povo em seu lugar. Os estudantes franceses, se não simpatizavam com a velha burocracia soviética, tampouco se solidarizaram com os tchecoslovacos. Pouca gente falava sobre o evento, nenhum cartaz exibiu frases em apoio aos tchecoslovacos.
Para atrapalhar a trajetória dos tanques, a população trocava placas de trânsito de lugar e apagava os nomes dos locais. Somente as placas que apontavam a direção de Moscou ficavam intactas.
“O que nos revela sobre as ilusões do Maio de 1968 o fato de eu não me lembrar de uma única menção à Primavera de Praga e, muito menos, do levante dos estudantes poloneses, em nossos debates mais sinceramente radicais?”, escreveu o historiador Tony Judt, na época jovem estudante inglês que viajou a Paris para conhecer as barricadas. “Rebeldes? Em que causa? A que preço? Mesmo aqueles poucos espíritos corajosos que eu conhecia, desventurados o bastante para passar uma noite na cadeia, voltavam para casa na hora do almoço.” (Tony Judt, O Chalé da Memória, Objetiva, 2012, página 125).
Depois de 15 dias de barricadas e choques com a polícia, os jovens, que empunharam cartazes dizendo que iriam tomar o que quisessem e que aboliriam os chefes, voltaram para casa e foram arrumar o quarto. A polícia e o governo se surpreenderam com a facilidade em debelar a multidão. No dia 30 de maio, cerca de 1 milhão de franceses marcharam pela avenida Champs-Élysées contra os estudantes e em apoio ao general De Gaulle. Nas eleições parlamentares de junho, os partidos conservadores, que o apoiavam, obtiveram uma vitória acachapante, com a esquerda perdendo 99 assentos na Assembleia Nacional Francesa. Os paralelepípedos voltaram ao chão das ruas de Paris, e as universidades reabriram. Mas houve, sim, um grande legado do Maio de 68: uma infinidade de intelectuais tentando entender o que, afinal, aqueles jovens queriam.

(Narloch, Leandro - Guia politicamente incorreto da História do Mundo)

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