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Contradições

por Thynus, em 07.10.13

 

O ser humano é por sua própria constituição um ser paradoxal, em tensão. Ele é essa mistura enigmática de finito e infinito, essa unidade tensa de corpo e espírito, de impulso e razão. Há disso um exemplo simples e dramático: a um dado momento a pulsão sexual pode ser tão intensa que cegue a razão, e lá temos nós eventualmente mais um ou mais uma a fazer crescer o número dos seropositivos...
Assim, também não há sociedades completamente harmónicas, pois inevitavelmente são atravessadas pelo conflito. As tensões, os conflitos e até as contradições variam, mas estão sempre presentes.
Vejamos, a título de exemplo, algumas das tensões e conflitos na nossa sociedade.
Trata-se, por um lado, de uma sociedade altamente competitiva, que exige enorme preparação científica e técnica, educação esmerada, com trabalho aturado, permanente e competente, mas que, por outro, está impregnada de consumismo, propaga o hedonismo, valoriza em extremo o prazer. Esta tensão torna complexa a educação, não favorecendo de modo nenhum a harmonia pessoal. Tanto mais quanto, num tempo em que é preciso lutar duramente para arranjar um lugar ao sol, programas alarves de televisão e concursos rasteiros dão fama rápida e quantias fabulosas.
A nossa sociedade não quis ter filhos, e evidentemente estava no seu direito. Mas agora somos fatalmente confrontados com a inversão na pirâmide das idades, com todas as consequências daí advenientes, por exemplo, no domínio da segurança social. Por outro lado, teremos de importar mão-de-obra estrangeira, o que certamente pode trazer benefícios sem conta; ao mesmo tempo será, porém, necessário estarmos preparados para conflitos que inevitavelmente daí surgirão.
A medicina felizmente foi prolongando a esperança de vida das pessoas. Mas, por outro lado, que preparação existe para lidar com a velhice dos outros e com a velhice própria? Chega-se a este paradoxo: a mesma medicina que fez aumentar a média etária vai ser solicitada para ajudar na eutanásia.
Nunca o indivíduo quis auto-afirmar-se com tanta força e ao mesmo tempo talvez nunca como hoje se tenha sentido que se vive num processo sem sujeito. Nunca a velocidade foi tão veloz, mas a partir de um certo limiar tomamos consciência de que se vai cada vez mais devagar: veja-se o desespero do trânsito nas cidades. Nunca houve tantos meios de comunicação acompanhados de tanta solidão; e não há também a angústia do afogamento em tanta informação? Reclama-se os direitos individuais, mas esbateram-se as fronteiras entre o privado e o público, quase desapareceu a intimidade, e, a pretexto da segurança, rendemo-nos à vigilância do Big Brother, que não é propriamente o da televisão, mas o de Orwell. Quando olhamos para a rapidez dos transportes, para tanta tecnologia comunicativa e outra que devia facilitar a vida, aparentemente devíamos nadar em tempo livre, mas de facto toda a gente desespera com a falta de tempo e nunca o stress terá sido tanto.
O conflito maior é o dos pobres, que são milhares de milhões. Ao mesmo tempo que nos países desenvolvidos se come de mais e se queima ou deita comida ao mar em ordem à manutenção dos preços, sabe-se que em cada 3,6 segundos morre no mundo uma pessoa com fome e que um quinto da população mundial tem de sobreviver com um dólar ou até menos por dia. A revolução mundial vai mesmo chegar: que ninguém tenha dúvida disso...
Afinal, a contradição é fundamentalmente sempre a mesma: tornámo-nos escravos do ter e esquecemos o ser. 

(Anselmo Borges - Janela do (In)Visível)

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publicado às 12:33



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