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UMA VEZ, HÁ MUITOS ANOS...

por Thynus, em 06.10.13

 

 

"Há muitos anos, o mundo era bem diferente do nosso mundo de hoje em dia", começou o nativo, guardião da sabedoria. "Existiam menos pessoas, vivíamos mais perto da terra. As pessoas entendiam a linguagem da chuva, as colheitas e o Grande Criador. Sabiam até mesmo como falar com as estrelas e os povos do céu. Estavam cientes de que a vida é sagrada, e que ela vinha do casamento da Mãe Terra com o Pai Céu. Era uma época em que tudo estava em equilíbrio, as pessoas eram felizes."
Senti alguma coisa muito antiga crescendo dentro de mim enquanto ouvia ecoando a calma voz do homem pelo arenito das paredes rochosas em volta. De repente, sua voz ficou triste.
"Então alguma coisa aconteceu", ele disse. "Ninguém realmente sabe o porquê, mas as pessoas começaram a se esquecer de quem eram. Ao se esquecerem, começaram a se sentir separadas — separadas da terra, separadas umas das outras e até mesmo de quem as havia criado. Ficaram perdidas, vagando pela vida, sem nenhuma direção ou destino. Nesse estado de segregação acreditavam que deviam lutar para sobreviver aqui neste mundo, para defender-se das mesmas forças que lhes concederam a vida, que tinham aprendido a viver com tanta harmonia e confiança. Logo passaram a se proteger energicamente do mundo em que viviam, em vez de viverem em paz com o mundo que estava dentro deles."
Imediatamente a história que ele contava encontrou ressonância em mim. Enquanto ouvia, eu identificava a descrição perfeita de como procedem os seres humanos hoje em dia! Nossa civilização, sem sombra de dúvida, focaliza mais o mundo em nossa volta do que o nosso mundo interior, com exceção de poucas culturas isoladas e de alguns remotos bolsões de tradições, ainda remanescentes.
Gastamos centenas de milhões de dólares todos os anos defendendo-nos de doenças e tentando controlar a natureza. Ao fazermos isso, com toda probabilidade ficamos ainda mais desgarrados de uma posição de equilíbrio com o mundo natural. O guardião da sabedoria havia conquistado a minha atenção — a questão agora era: para onde ele ia levando tal história?
"Ainda que eles tenham esquecido quem eram, intimamente a dádiva de seus ancestrais continuava existindo", ele prosseguiu. "Ainda havia uma memória vivendo dentro deles. Durante a noite, dormiam e sonhavam que ainda tinham o poder da cura corporal, de fazer chover quando necessário e de falar com os ancestrais. Sabiam que, de algum modo, poderiam encontrar, uma vez mais, seu antigo lugar no mundo natural.
"Enquanto tentavam se lembrar de quem eram, começaram a construir coisas externas para se lembrarem das internas, para se recordarem quem realmente eram, intimamente. Com o passar do tempo chegaram até a construir máquinas de curar, fabricar produtos químicos para fertilizar seus plantios, e esticar fios para se comunicarem a longas distâncias. Quanto mais se distanciavam de seus poderes interiores, mais atravancadas sua vida ficava com as coisas que eles acreditavam que iam torná-los mais felizes."
Enquanto escutava, eu percebia o paralelo inconfundível entre a narração sobre essas pessoas e a nossa civilização de hoje. Nossa civilização ficou impregnada de sentimentos de impotência quanto a nos prestar ajuda ou fazer um mundo melhor. Com bastante frequência sentimo-nos desamparados ao vermos pessoas queridas aprisionadas aos grilhões da dor ou na dependência dos vícios. Acreditamos não ter poder para minorar o sofrimento causado por doenças horríveis, que nenhum ser vivo deveria ser obrigado a enfrentar. Podemos esperar apenas pela paz que resgatará nossos entes queridos e os trará de volta dos campos de batalha estrangeiros. E também sentimo-nos insignificantes na presença de uma ameaça nuclear crescente, enquanto o mundo cerra fileiras dividindo-se nas várias crenças religiosas, hereditariedades e fronteiras.
Aparentemente, quanto mais desgarrados ficamos de nossas relações naturais com a terra, com nosso corpo, uns dos outros e de Deus, mais vazios nos tornamos. Tão vazios assim, empenhamo-nos na luta para preencher nosso vácuo íntimo com "coisas". Observando o mundo a partir dessa perspectiva, não posso deixar de pensar sobre dilema semelhante levado ao cinema pelo filme de ficção científica Contato. O consultor para temas de ciência do presidente dos Estados Unidos, representado pelo ator Matthew McConaughey, explora a questão fundamental enfrentada por todas as sociedades tecnológicas. Durante uma entrevista de televisão, ele indaga se nossa sociedade melhorou com os avanços tecnológicos. Teriam eles nos aproximado uns dos outros ou feito com que ficássemos mais separados? A questão acaba não sendo realmente respondida no filme, e um tópico desses poderia, sozinho, ser tema de um livro inteiro.
Entretanto, o que o consultor desejava demonstrar era um argumento bastante sólido, quando indagou quanto de nosso poder dissipamos em distrações.
Ao sentirmos que videogames, filmes, relacionamentos virtuais online e comunicação que dispensa a voz são necessidades que estão substituindo o contato face a face na vida real, percebemos sinais de uma sociedade com problemas. A mídia eletrônica e de entretenimento, embora sem dúvida pareçam tornar a vida mais interessante, também podem ser vistas como bandeiras vermelhas que sinalizam perigo e nos dizem como estamos fora da rota de uma vida rica, saudável e significativa. Além disso, quando evitar doenças passa a ser o principal foco de nossa vida em vez de como viver de maneira saudável, como evitar a guerra em lugar de como cooperar na paz, como criar novas armas e não como viver em um mundo onde os conflitos armados ficaram obsoletos, claramente fizemos a opção do caminho da sobrevivência e nada mais. Dessa maneira ninguém é verdadeiramente feliz — ninguém "vence", realmente. Quando nos encontramos vivendo assim, a atitude óbvia a tomar, evidentemente, é procurar por outro caminho. Precisamente essa é a proposta deste livro e este é o motivo pelo qual compartilho essa história.
"Como a história termina?" perguntei ao nativo, guardião da sabedoria. "As pessoas encontraram finalmente o poder e se lembraram de quem eram?" Nesse momento do dia o Sol já tinha desaparecido por trás das escarpas do desfiladeiro e, pela primeira vez, eu podia ver melhor com quem estava falando. O homem queimado de sol em minha frente deu um amplo sorriso ao ouvir minha pergunta. Ficou quieto por um instante, depois sussurrou: "Ninguém sabe, porque a história ainda não terminou. As pessoas que se perderam são nossos ancestrais, somos nós que estamos escrevendo o final dessa história! O que você acha...?"
Depois disso só voltei a vê-lo poucas vezes, em vários locais das regiões e comunidades que ambos amávamos. Entretanto, lembro-me dele muitas vezes, até hoje. Enquanto observo como se desdobram os eventos no mundo, lembro-me dessa história e pergunto-me se ainda chegaremos a ver como termina durante nossa vida. Será que o leitor e eu seremos os que vão se lembrar?
São muito grandes as implicações da história contada pelo homem do cânion. A sabedoria convencional da narração é a de que as ferramentas das civilizações passadas — independentemente da idade que tenham — eram de certa forma menos adiantadas do que as modernas tecnologias. Ainda que seja verdadeiro o fato de esses povos não contarem com os benefícios da ciência "moderna" naquela época para ajudá-los com seus problemas, talvez eles tivessem algo ainda melhor.
Nas minhas discussões com historiadores e arqueólogos cujas vidas são baseadas na interpretação do passado, esse tópico geralmente acaba sendo a origem de emoções acaloradas. "Se eles eram tão adiantados, onde está a prova de tanta tecnologia?", perguntam os especialistas. "Onde estão as torradeiras, os fornos de microondas e os aparelhos de DVD?" Acho muito interessante depender tanto das coisas feitas pelos indivíduos ao se interpretar como uma dada civilização teria se desenvolvido. E o que dizer do raciocínio que está sob a superfície do que eles fizeram? Embora nunca tenhamos nos deparado com uma TV ou câmera digital nos registros arqueológicos do sudoeste americano (ou em nenhum outro lugar, para falar a verdade, tanto quanto eu saiba) a questão é, por quê?
Será que ao encontrarmos os restos de civilizações avançadas, como as do Egito, Peru ou do sudoeste do deserto americano, estaremos realmente nos deparando com remanescentes de uma tecnologia a tal ponto adiantada que dispensava o uso de torradeiras e DVDs? Talvez tivessem superado a necessidade de viver em um mundo exterior desordenado e complexo. Talvez soubessem algo acerca deles mesmos que tenha lhes dado uma tecnologia interna para viver de modo diferente, uma sabedoria que já esquecemos. Tal sabedoria lhes trouxe tudo de que precisavam para sustentar e remediar suas vidas de uma maneira que estamos somente principiando a perceber.
Se isso for verdade, talvez não seja necessário buscar nada além da natureza para compreendermos quem somos e qual é, verdadeiramente, nosso papel nesta vida. É igualmente possível que algumas das nossas mais profundas e fortalecedoras percepções já estejam confirmadas pelas descobertas misteriosas feitas no mundo dos quanta. Durante o último século, os físicos descobriram que a matéria do nosso corpo e o universo nem sempre segue a forma limpa e organizada das leis da física, consideradas sagradas durante, aproximadamente, trezentos anos. De fato, na menor de todas as escalas do mundo, as próprias partículas que nos constituem quebram as regras que dizem sermos separados uns dos outros e limitados em nossa existência. No nível das partículas, aparentemente tudo está interconectado e é infinito.
Essas descobertas sugerem que existe algo no interior de cada um de nós que não é limitado pelo tempo, nem pelo espaço e nem mesmo pela morte. Essas descobertas concluíram que, aparentemente, vivemos em um universo "não-local", onde tudo está sempre conectado.
Dean Radin, cientista sênior do Institute of Noetic Sciences, foi pioneiro na exploração do que significa viver em tal mundo. Conforme sua explicação, a "não-localidade" significa que "existem maneiras de mostrar que coisas que parecem estar separadas, de fato não estão separadas".(Dean Radin, em comentário sobre cenas especiais da filmagem dos produtores da película de 2004 Suspect Zero, dirigido por E. Elias Merhige (Paramount Studios, DVD lançado nos Estados Unidos em abril de 2005). O enredo do filme gira em torno do uso da visão remota para a investigação criminal. Durante 15 anos, Radin conduziu estudos experimentais de fenômenos psíquicos na academia e na indústria por meio de seus compromissos em instituições dentre as quais as universidades de Princeton, Edinburgh, Nevada e a SRI International. Atualmente ele é cientista sênior no Institute of Noetic Sciences, uma organização com concessão para explorar "as fronteiras da consciência para o progresso das transformações individuais, sociais e globais".) Em outras palavras, o "nós" que habita nosso íntimo, não se limita pela pele e pelos pêlos de nosso corpo.
Não importa como chamemos esse "algo" misterioso, nós todos o temos, e o nosso se mistura com o dos outros, como parte do campo de energia que banha todas as coisas. Acredita-se que esse campo seja a rede quântica que conecta o universo, o infinitamente microscópico e o molde energético para tudo, desde a cura de nosso corpo ao fortalecimento da paz mundial. Para reconhecer nosso verdadeiro poder, precisamos compreender o que é esse campo e como ele funciona. Se os antigos naquele cânion do norte do Novo México — ou, para falar a verdade, de qualquer outro lugar do mundo — compreendiam como essa esquecida parte do nosso interior funciona, temos uma forte argumentação para honrar a sabedoria dos ancestrais e entronizá-la em um lugar adequado na nossa época.

(Gregg Braden - "A matriz divina")

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publicado às 20:28



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