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A dignidade de um corpo

por Thynus, em 05.10.13

 

 

Ao contrário daquilo que frequentemente se afirma, a Bíblia não condena a sexualidade: na Bíblia encontra-se inclusivamente um dos livros mais eróticos da história da literatura - o grande teólogo Bonhoeffer, que morreu enforcado pelo nazismo, escreveu numa das suas cartas da prisão: "Não é mesmo imaginável amor mais apaixonado, mais sensual, mais ardente do que este do qual se fala no Cântico dos Cânticos" - e, como é sabido, o Cântico dos Cânticos é um dos livros da Bíblia. Contra a gnose, o cristianismo afirmou e confessa que Deus é o criador bom deste nosso mundo. Por isso, toda a criação, incluindo a sexualidade, é boa.
O mal-estar em relação à sexualidade no Ocidente vem fundamentalmente da gnose e de Santo Agostinho: o pessimismo deste, que o levou à convicção de que o prazer sexual é sempre pecado, pois a finalidade da relação sexual devia ser unicamente a procriação, acentuou-se com a doutrina formulada no século XIII segundo a qual no domínio sexual não há matéria leve no que se refere ao pecado. Na Idade Média, arranjaram-se, por isso, as motivações mais diversas para, exceptuando as terças e quartas-feiras, proibir as relações sexuais ao longo da semana: quinta-feira, porque se lembra a prisão de Nosso Senhor; sexta, em memória da sua morte; sábado, em honra da Virgem Maria; domingo, porque é o dia da Ressurreição; segunda, porque é o dia dedicado aos defuntos; e havia ainda os dias de festa!...
Chegava-se, pois, a esta contradição: por um lado, havia a obrigação moral de relações sexuais fecundas, em ordem ao cumprimento da ordem de Deus: crescei e multiplicai-vos; por outro, havia o receio de, precisamente desse modo, contribuir para o aumento de pessoas com o pecado original; havia ainda a agravante de contribuir para as condenações ao inferno, caso os recém-nascidos morressem antes de receber o baptismo: em muitas ocasiões Santo Agostinho afirma a condenação eterna das crianças que não foram baptizadas...
Há hoje, no que se refere à sexualidade, o perigo real de avançar com o "vale tudo", que conduz ao niilismo moral e à desgraça. É necessário, porém, acrescentar, como me disse uma vez Bernhard Haering, o famoso renovador da moral católica, que precisamente o discurso tradicional da Igreja sobre o corpo e o sexo poderá muito bem ser um dos responsáveis maiores pela presente situação de mal-estar.
A própria juventude já percebeu que a banalização da sexualidade não é caminho. Não há que ter medo do prazer. Mas a sexualidade reduzida a máquina de prazer termina em desprazer. A sexualidade do ponto de vista biológico, portanto, enquanto genitalidade, é simples, do mais simples que há. Mas o ser humano não é redutível ao biológico. A sexualidade pode ser espaço do sagrado, mas também da perversão; vivência do êxtase, mas também da escravidão. Nela, conjuga-se a ternura e a luta, a exaltação e a decepção, o efémero e a eternidade. Os místicos falam dela como símbolo da união com Deus, mas há aqueles para quem ela foi um inferno. Sem o exercício da sexualidade, talvez os seres humanos fossem ainda mais selvagens, mas tantas vezes esse exercício foi ele mesmo a selvajaria! É por natureza criadora, mas também é fonte de morte. Portanto, a sexualidade não pode ser tabu. Mas quem julga poder e dever trivializá-la ou mente ou não sabe o que diz.
Quanto à sexualidade, a Igreja não pode ser moralista. Do que se trata é de anunciar a dignidade de um corpo humano que é liberdade. Precisamos primeiro de reconciliar-nos com o corpo, esse corpo na ambiguidade de um saco de tripas e do esplendor de um sorriso e de uma ideia genial, do qual Deus disse no princípio que é bom, esse corpo frágil que Deus mesmo assumiu para si em Jesus Cristo, esse corpo terreno que, segundo a fé cristã na ressurreição, está misteriosamente no seio da Santíssima Trindade.
Então, virá à luz que a sexualidade humana, onde entra o amor físico, o afecto e o espírito, é encontro sagrado de liberdades criadoras.

(Anselmo Borges - Janela do (In)Visível)

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publicado às 04:20



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