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A comunidade moral dos espíritos

por Thynus, em 05.10.13

 

A passagem da natureza ao espírito significa um aumento de comunicação. Efectivamente, a superioridade do espírito revela-se pela sua capacidade de exprimir Deus e entrar em sociedade com ele («E como o próprio Deus é o maior e o mais sábio dos espíritos, é fácil julgar que os seres com os quais ele pode, por assim dizer, entrar em conversação e mesmo em sociedade, comunicando-lhes os seus sentimentos e as suas vontades de uma maneira particular, e de tal modo que eles possam conhecer e amar o seu benfeitor, o devem tocar infinitamente mais do que o resto das coisas, que apenas podem passar por instrumentos dos espíritos», Discurso de Metafísica, art. 35.), tornando-se membro da cidade de Deus, sem quebrar o vínculo com a natureza material: a cidade de Deus é «um mundo moral no mundo natural» (Monadologia, art. 85). Deus comunica-se aos espíritos, cuja receptividade contribui para a glória divina: «Com efeito, posto que Deus é espírito e o mais perfeito de todos, vejo bem que ele será o mais feliz e o mais satisfeito. E também vejo bem que ele se comunicará com os outros espíritos [itálico meu] e que receberá muito mais prazer, se me é permitido falar assim, do seu Reino sobre os espíritos do que do seu poder sobre os corpos. (...) E os espíritos que pensam em Deus, que raciocinam sobre ele e de algum modo como ele na medida em que conhecem a verdade, devem sem dúvida tocá-lo incomparavelmente mais do que todas as criaturas brutas» (Dialogue entre Theophile et Polidore, A VI, IV, C, p. 2237). Ora, qual o modo dessa comunicação? Como é que Deus se comunica com os espíritos?
Como é que estes participam na realização da obra divina? Como é que exprimem e imitam a Deus? A resposta leibniziana mais elaborada a este emaranhado de questões encontra-se na mesma passagem do Diálogo que acaba de ser citado: «Pois, considerado sem os espíritos, o universo é uma única vez: mas cada espírito é uma nova maneira de exprimir ou de representar o universo segundo Deus o olha por assim dizer de um certo lado» (Ibidem).. Pela sua expressão, os espíritos multiplicam indefinidamente o mundo actual, recriando-o à sua maneira, «através de escantilhões arquitectónicos, cada espírito sendo como que uma pequena divindade no seu departamento» (Monadologia, art. 83)
O que julgo interessante é que Deus se comunique e entre em sociedade com os espíritos seguindo as vias naturais – o bom uso da razão e o sentimento ajustado para com o mundo. A religião natural é a única base da catolicidade no sentido genuíno de uma religião verdadeiramente universal: «Assim, a razão é o princípio de uma religião universal e perfeita, que se pode justamente chamar a lei da natureza. (...) a Lei da Natureza é a religião Católica» (Parallèle entre la raison originale ou la loy de la nature, le paganisme ou la corruptionde la loy de la nature et le christianisme ou la loy de la nature retablie, Grua, I, p. 49).
A revelação destina-se a restabelecer a religião natural, não a anulá-la. Deus revela-se por vias sobrenaturais, mas também na imanência do exercício pensante: «A razão é a voz natural de Deus» (Carta a Morell, Setembro de 1698, Grua, I, p. 138).
O pensamento racional distingue-se da simples percepção natural na medida em que não está limitado aos fenómenos do mundo actual, exercendo-se sobre o modo e o princípio de constituição desse mesmo mundo. E, mais, sobre a própria natureza do ser divino, que contém em si todas as perfeições no grau supremo.
Da justa consideração do ser divino, no qual está implicada a perfeição da sua obra – já que a sua vontade está intrinsecamente ordenada ao óptimo – decorre um afecto especial: a alegria ou o estado duradouro de prazer. A alegria é o fundamento da religião e da piedade («(...) o bom humor, isto é, o contentamento ou a alegria é o mais seguro fundamento da religião e da piedade (...) e não há praticamente mais nada senão o mau humor que possa fazer cair no ateísmo», Carta a Coste, 1706, GP III, p. 412), na medida em que dispõe o espírito a perceber o espírito na sua significação moral. De facto, «as coisas estão feitas de uma maneira que ultrapassa os nossos desejos» (Princípios da Natureza e da Graça, art. 16), pelo que o descontentamento, a tristeza, o mau humor e o ódio provêm de uma visão desfocada: «Não há indignação justa na República universal» (Confessio Philosophi, A VI, III, p. 140).
O Deus de Leibniz é um excelente geómetra, cujo entendimento se exerce nos mais finos jogos combinatórios, mas não é essa a sua verdadeira fisionomia. Ele é o Deus do amor que, pelo exercício da vontade, faz existir toda a perfeição que o mundo das criaturas pode comportar. Enquanto sentimento que se dirige preferencialmente aos espíritos, o amor é deleitação com a felicidade do outro: amar é sentir prazer no prazer do outro, um modo de intensificação do afecto.
Experiência de alteridade, o amor é o vínculo da sociedade entre os homens e destes com Deus, sendo o mediador da união das vontades num mesmo querer, segundo uma definição clássica do amor, retomada no Discurso de Metafísica («O conhecimento geral da grande verdade, segundo a qual Deus age sempre da maneira mais perfeita e mais desejável possível, é, na minha opinião, o fundamento do amor que devemos a Deus sobre todas as coisas, pois quem ama procura a sua satisfação na felicidade ou perfeição do objecto amado e das suas acções. Idem velle et idem nolle vera amitia est (A verdadeira amizade consiste em querer o mesmo e não querer o mesmo)», Discurso de Metafísica, art. 4). Na sua dimensão mais profunda, o amor é desejo do desejo do outro, acrescentando à simpatia natural uma nova dimensão que faz dela a base de uma comunidade moral, expressa numa ordem de com-sentimento e de com-paixão.
Numa Europa atravessada por divisões e conflitos entre as diversas confissões cristãs, Leibniz assume o cristianismo como uma religião interior, que aprofunda a sociedade íntima com Deus, inerente ao ser humano enquanto tal: «nós temos uma sociedade íntima com Deus» (Tentamina quaedam ad novum codicem legum condendum, A VI, IV, C, p. 2867). Na sua essência, a Igreja é uma comunidade moral cujo selo é a caridade e a benevolência para com o outro, nomeadamente aquele que, por nascimento e educação, vive numa confissão distinta da romana. O espírito sectário, o hábito da excomunhão, o afrontamento e exclusão do outro são a marca da «política humana» («V. A. deve estar reconhecida à boa vontade da Sra. Brinon, que lhe abre o paraíso, se ouvirmos o seu conselho. Ela supõe que Roma é a única via de acesso ao paraíso. Mas ligar as graças divinas a este tipo de condições que a política humana inventou é ter ideias muito estranhas a respeito de Deus», Carta à Princesa Sofia, Julho de 1697, A, I, XVI, p. 37), não do verdadeiro zelo pelas coisas divinas. O Papa e restantes dignitários eclesiásticos não têm o poder para excluir da verdadeira Igreja católica aquele que age em consciência, movido pelo amor. A união entre os cristãos está votada ao fracasso enquanto for entendida mais como uma tarefa política, dependente de condicionalismos vários, do que um empreendimento moral e a promoção de uma cultura de paz.

(José Manuel Santos, Pedro M.S. Alves, Joaquim Paulo Serra - Filosofias da Comunicação)

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