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etologia

por Thynus, em 04.10.13

 

Konrad Lorenz e Niko Tinbergen são normalmente encarados como os fundadores da moderna etologia, a abordagem biológica do estudo do comportamento. Por suas realizações pioneiras, eles dividiram o Prêmio Nobel com Karl von Frisch em 1973. Lorenz e Tinbergen trataram o comportamento do mesmo modo que qualquer outro aspecto de um animal, no sentido de que os padrões de comportamento em geral têm uma regularidade e uma consistência que se relacionam com necessidades óbvias do animal. Além disso, o comportamento de uma espécie geralmente difere de forma marcante do de outra. Essa percepção foi um passo crucial para fazer com que o estudo do comportamento entrasse na síntese darwiniana que estava sendo forjada nos anos 30. Uma vez que seu pensamento estava impregnado da teoria darwiniana da evolução, os etologistas especularam repetidas vezes sobre a relevância, em termos de adaptação, das diferenças entre as espécies.
O interesse pela função biológica levou a muitos estudos excelentes de animais em condições naturais. Um animal em cativeiro geralmente se encontra demasiado constrangido por seu ambiente artificial para fornecer uma compreensão completa das funções da grande variedade de atividades que a maior parte dos animais é capaz de executar. Os estudos, em condições naturais, de animais e cada vez mais de seres humanos têm sido um aspecto importante da etologia e desempenhado papel de destaque no desenvolvimento de métodos característicos e eficazes de observação e mensuração do comportamento. Mesmo assim, seria um engano descrever os etólogos como não-experimentais e preocupados meramente com a descrição.
Tinbergen foi um mestre em elegantes experiências de campo e a excelente tradição que ele firmou continua até os dias de hoje. Gravações em fita de predadores ou congêneres (tais como filhotes ou companheiros/as potenciais) são tocadas para animais livres a fim de descobrir como estes reagem. Da mesma forma, foram usados bonecos e imitações de diferentes formatos para medir a reação a uma forma ou cor em particular, tais como as bicadas que filhotes de gaivotas dão em diferentes objetos mais ou menos parecidos com os bicos de seus pais. Esses e muitos outros exemplos demonstram que até mesmo o campo predominante da etologia implica muito mais que a mera observação passiva. Além disso, muitos etólogos têm dedicado a maior parte de suas vidas profissionais a estudos de laboratório do controle e desenvolvimento do comportamento. Na verdade, algumas das descobertas etológicas mais impressionantes, tais como o imprinting em pássaros, foram feitas em condições artificiais e influenciaram de modo marcante a forma como o comportamento vem sendo interpretado.
Quando observada em pássaros em cativeiro, a elaborada seqüência envolvida na construção de um ninho não é facilmente explicada em termos de uma série de ações aprendidas, cada qual desencadeada por um estímulo particular do meio ambiente. Não obstante, a disposição a considerar qual poderia ser um padrão de comportamento particular no ambiente natural sempre foi característica dessa matéria. Quando essa abordagem era associada a comparações entre animais, a fácil suposição de que todos os animais resolvem o mesmo problema da mesma forma foi rapidamente revelada como falsa. A abordagem comparativa continua a ser uma característica importante da etologia em geral.
Tinbergen destacou quatro problemas amplos, porém isolados, levantados pelo estudo biológico do comportamento. A questão de como um padrão de comportamento é controlado tem a ver com os fatores internos e externos que regulam sua ocorrência, e com o modo como funcionam os processos básicos. O estudo do desenvolvimento do comportamento ocupa-se das influências genéticas e ambientais sobre a montagem de um padrão de comportamento no período de vida do indivíduo e com o modo como funcionam os processos de desenvolvimento. O problema da função comportamental diz respeito ao modo como o padrão de comportamento ajuda a manter o animal vivo e a propagar seus genes na geração seguinte. Finalmente, os estudos evolucionistas do comportamento dizem respeito à história ancestral e aos modos pelos quais um padrão de comportamento evoluiu. Essas quatro áreas de pesquisa são distintas. No entanto a posição etológica é a de que não devem ser severamente divorciadas umas das outras. Ao colocar uma questão em particular num contexto conceitual mais amplo, alcança-se maior compreensão, qualquer que possa ter sido a questão central. A abordagem funcional, com toda a certeza, tem ajudado os que se interessam pelo estudo do mecanismo, e o estudo do desenvolvimento e da integração de comportamento tem proporcionado importantes percepções das pressões e coerções que vêm funcionando no decorrer da evolução.
Certos conceitos e teorias fundamentais estiveram ligados em certo momento à etologia. Já não formam uma parte tão central do pensamento etológico, embora tenham sido importantes em seu desenvolvimento. Dois conceitos básicos foram o “estímulo do sinal” e o “padrão fixo de ação”. A idéia de estímulo do sinal, tal como o peito vermelho de um tordo norte-americano desencadeando um ataque por parte de um oponente, foi produtiva por levar à análise dos caracteres de estímulo que incitam seletivamente fragmentos particulares de comportamento. Os padrões fixos de ação (ou padrões modais de ação, como talvez seja sua melhor descrição) proporcionaram unidades úteis para a descrição e a comparação entre espécies. Caracteres comportamentais têm sido usados na taxonomia, e a preocupação zoológica com a evolução levou a tentativas de se formularem princípios para a derivação e a ritualização de movimentos que servem como sinais.
Tanto o conceito de estímulo do sinal, ou desencadeador, quanto o padrão fixo de ação desempenharam papéis importantes nas primeiras tentativas etológicas de desenvolver modelos de sistemas de comportamento. O modelo do reservatório (lavatory cistern) de Lorenz era um fluxograma em mais de um sentido e forneceu a toda uma geração de etólogos um meio de integrar seu pensamento sobre a causalidade múltipla do comportamento a partir tanto de dentro quanto de fora. No entanto esse modelo era seriamente enganoso e, em alguns sistemas de comportamento, especialmente a agressão, o desempenho do comportamento torna a repetição mais provável, e não menos, como prevê o modelo. Outro modelo de sistemas saiu-se bem melhor na prova do tempo. Foi desenvolvido por Tinbergen e dizia respeito à organização hierárquica do comportamento. Aqui porém, mais uma vez, seu papel mais importante não foi tanto o poder de previsão quanto ajudar os etólogos a reunir indícios que de outra forma poderiam parecer desconectados.
Uma preocupação etológica clássica foi com o caráter inato de grande parte do comportamento, e esse tema esteve fortemente ligado ao desenvolvimento de uma teoria do instinto. No entanto até mesmo os fundadores dessa temática não negaram a importância do aprendizado. Ao contrário, deram destaque a processos de desenvolvimento, tal como o imprinting, o qual especifica o que um animal trata como mãe ou companheiro/a, e o aprendizado do canto, que especifica o modo como um pássaro macho canta um dialeto diferente do de outro macho da sua própria espécie. Ainda assim, Lorenz encarava o comportamento adulto como implicando a intercalação de elementos “aprendidos” e “instintivos” distintos e discerníveis. Poucas pessoas ainda compartilham desse ponto de vista e o trabalho dos etólogos orientados para o desenvolvimento tem sido importante por ilustrar como os processos de desenvolvimento implicam uma interação entre fatores internos e externos. Depois das primeiras e fracassadas tentativas de classificar o comportamento em termos de instintos, a atenção concentrou-se cada vez mais nas faculdades ou propriedades de comportamento que unem as categorias funcionais convencionais, tais como alimentação, namoro, cuidado com os filhotes e assim por diante. Conseqüentemente, atribui-se uma ênfase cada vez maior aos mecanismos comuns de percepção, armazenamento de informação e controle de output. À medida que isso ocorre, os interesses de muitos etólogos estão coincidindo em medida cada vez maior com as preocupações tradicionais da PSICOLOGIA.
O trabalho moderno também destruiu outra crença dos etólogos clássicos, a de que todos os membros da mesma espécie e da mesma idade e sexo hão de se comportar do mesmo modo. Já se foi o tempo em que uma pessoa em trabalho de campo podia supor com confiança que uma boa descrição de uma espécie, obtida em um habitat, podia ser generalizada para a mesma espécie em outro conjunto de condições ambientais. As variações de comportamento dentro de uma espécie podem, é claro, refletir a penetração e difusão dos processos de aprendizado. No entanto alguns modos alternativos de comportamento são provavelmente mais desencadeados do que aprendidos pelas condições ambientais predominantes. No caso do babuíno “gelada”, por exemplo, muitos machos adultos são bem maiores que as fêmeas e, uma vez que assumem um grupo de fêmeas, defendem-nas das atenções de outros machos. Outros machos, por sua vez, são do mesmo tamanho das fêmeas e conseguem surrupiar uma cópula quando um macho grande não está olhando. O benefício compensatório para os machos pequenos é que eles têm vidas reprodutivas bem mais longas do que os machos grandes. Parece provável que qualquer macho pode seguir qualquer um desses dois caminhos, e o caminho particular em que cada um deles se desenvolve depende das circunstâncias. Exemplos como esse estão levando a um crescente interesse por táticas alternativas, sua relevância funcional e a natureza dos princípios de desenvolvimento nelas implícitos.
A etologia moderna reúne tantas disciplinas diferentes que desafia uma definição simples em termos de um problema comum ou de uma literatura comum. Ela se sobrepõe extensamente aos campos conhecidos como ecologia comportamental e SOCIOBIOLOGIA. Além disso, os que hoje em dia se dizem etólogos vão ser encontrados trabalhando ao lado de neurobiólogos, psicólogos, antropólogos e psiquiatras sociais e desenvolvimentistas, entre muitos outros. Os etólogos estão acostumados a pensar de maneiras que refletem sua experiência com sistemas de livre funcionamento que ao mesmo tempo influenciam muitas coisas à sua volta e por elas são influenciados. Essas habilidades permitiram-lhes compreender a dinâmica dos processos comportamentais e são valorizadas pelos que com eles colaboram. Houve época em que a etologia parecia prestes a sucumbir a suas disciplinas irmãs. No entanto ela ressurgiu como matéria importante que continuará a desempenhar um papel integrador igualmente significativo no impulso de compreender para que servem os padrões de comportamento, como evoluíram e como são controlados.


(William Outhwaite & Tom Bottomore - "Dicionário do pensamento social do século XX")

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