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etnometodologia

por Thynus, em 04.10.13

 

Este campo da sociologia investiga o funcionamento do conhecimento produzido pelo senso comum e do raciocínio prático em contextos sociais. Em contraste com as perspectivas que encaram o comportamento humano em termos de fatores causais externos ou de motivações internalizadas, a etnometodologia enfatiza o caráter ativo, racional e cognitivo da conduta humana. Seu fundador e principal teórico, Harold Garfinkel, afirmou que uma teoria da ação e da organização sociais estaria incompleta sem uma análise do modo como os agentes sociais compartilham o conhecimento e o raciocínio produzidos pelo senso comum na condução de seus assuntos comuns. Pois sem tal análise seria impossível demonstrar como os membros do mundo social se comprometem com linhas de ação realistas e pactuadas. Sua inovação crucial foi estabelecer uma explicação das propriedades do conhecimento produzido pelo senso comum, das compreensões compartilhadas e da ação social ordinária que pode ser desenvolvida em um programa coerente de pesquisa empírica.
A etnometodologia desenvolveu-se nos anos 60 a partir dos textos fenomenológicos de Alfred Schutz (1962-66), o qual afirmava que o conhecimento produzido pelo senso comum é fragmentado e incompleto, articulado de uma forma tipificada, aproximada e corrigível, e que as compreensões partilhadas entre pessoas são realizações contingentes baseadas nesse conhecimento. Utilizando uma série de procedimentos semi-experimentais (conhecidos como “experiências de ruptura”) para criar desvios básicos a partir de expectativas sociais tidas como certas, Garfinkel (1967) foi capaz de demonstrar o alcance dessas idéias. Os desvios experimentais criaram profunda confusão e indignação moral nos objetos da experiência. Indicaram que as compreensões partilhadas, as ações sociais e, em última análise, as instituições sociais são sustentadas por um complexo corpo de suposições, admissões tácitas e métodos de inferência — em suma, um conjunto de métodos, ou metodologia — que informa a produção de objetos e ações culturalmente significativos, e também a compreensão destes. São esses métodos de raciocínio do senso comum e suas propriedades que constituem o objeto de pesquisa da etnometodologia.
Os métodos de raciocínio do senso comum são fundamentalmente adaptados ao reconhecimento e à compreensão de eventos-em-contexto. Na análise de Garfinkel, as compreensões comuns são o produto de um processo circular no qual um evento e seu pano de fundo são dinamicamente ajustados um ao outro para formar uma Gestalt coerente. Garfinkel descreveu esse processo, seguindo Karl Mannheim, como “o método documental de interpretação”, e afirmou que ele é um aspecto ubíquo do reconhecimento de todos os objetos e eventos, desde os aspectos mais mundanos da existência cotidiana até as mais recônditas realizações artísticas ou científicas. Nesse processo, reúnem-se as ligações entre um evento e seu pano de fundo físico e social usando-se uma série variada de suposições e procedimentos inferenciais. O método documental incorpora a propriedade da reflexividade: mudanças na compreensão do contexto de um evento provocarão alguma mudança ou elaboração da apreensão do evento central e vice-versa. Quando empregado num contexto temporalmente dinâmico, que é uma característica de todas as situações de ação e interação social, ele forma a base para compreensões de ações e eventos, entre os participantes, compartilhadas e atualizadas.
A inerente contextualidade do método documental está associada a outras propriedades do raciocínio e da ação práticos. Uma proposição fundamental da etnometodologia é que todos os objetos e produtos do raciocínio prático — conceitos, descrições, ações e assim por diante — têm propriedades de indexação. Isso significa que o sentido desses objetos é elaborado e particularizado pelos contextos em que eles aparecem. Embora essa propriedade seja um obstáculo reconhecido para a análise formal da linguagem e da ação (e seja assim tratada na literatura sobre lógica, da qual deriva a noção de “indexação”), não é um obstáculo à condução da ação prática. De fato, os agentes sociais planejam regularmente sua conduta de forma a utilizar contextos locais para elaborar e particularizar o sentido daquilo que dizem e de suas ações.
Assim, exploram as propriedades de indexação da ação e do raciocínio prático. Inversamente, porém, essas particularidades não podem sustentar-se fora de contexto. Existe uma adequação inerentemente aproximada entre eventos particulares e suas representações mais gerais em descrições e em formulações matemáticas, e essa adequação só pode ser avançada através de uma série de atividades interpretativas aproximadoras, que Garfinkel chama de “práticas ad hoc”. Essas práticas são, portanto, cruciais para o processo pelo qual os agentes sociais sustentam a coerência, a normalidade e a sensatez de suas circunstâncias e atividades cotidianas.
O programa etnometodológico de pesquisa baseia-se nessas observações essenciais. Sua dinâmica fundamental tem origem no ponto de vista de que as compreensões compartilhadas de todos os aspectos do mundo social se apóiam em um corpo altamente complexo de métodos tácitos de raciocínio que são socialmente partilhados e que têm caráter de procedimento. Tal como esses métodos de raciocínio são utilizados para reconhecer objetos, eventos e pessoas, e para compreender descrições de todos estes, também são igualmente usados para produzir aspectos do mundo social que são reconhecíveis e descritíveis ou, para usar a palavra de Garfinkel, responsáveis. O fato de o mesmo conjunto de procedimentos de raciocínio ser empregado tanto para reconhecer eventos sociais quanto para produzi-los é a base elementar sobre a qual os membros de uma cultura podem vir a habitar um mundo social fundamentalmente compartilhado.
A teorização fundamental de Garfinkel tem sido empregada num corpo diferente de\estudos sociológicos empíricos. Entre estes, foi importante uma série de investigações\da construção simbólica e prática de mundos sociais particulares e circunscritos\(Wieder, 1974), bem como do raciocínio básico pelo qual se obtém e se sustenta o\senso conjunto das pessoas de uma realidade compartilhada (Pollner, 1987). Outros estudos têm-se voltado para o tema da adequação aproximada entre descrições e\eventos do mundo real. De destaque nesse contexto têm sido as investigações sobre a\criação organizacional dos dados estatísticos nos quais muitos estudos sociológicos se\apóiam. Nesse caso, tem-se afirmado — particularmente em relação a estatísticas\sobre crime, transgressão, suicídio e assim por diante — que o raciocínio prático das equipes de organizações construiu pressupostos teóricos sobre as causas desses\fenômenos tão mergulhados em dados estatísticos que os resultados são inúteis para a\pesquisa sociológica (Cicourel, 1968; Atkinson, 1978). Outros produtos significativos do programa etnometodológico têm abrangido estudos de interação social (mais\destacadamente a análise conversacional [ver CONVERSACIONAL, ANÁLISE]) e iniciativas\importantes na sociologia da ciência (Lynch, 1985).
No decorrer do seu desenvolvimento, a etnometodologia tem-se alternado entre tendências “construtivas” e “desconstrutivas”. Nesse processo, criaram-se novos campos de pesquisa na sociologia e em disciplinas correlatas e surgiram novas perspectivas sobre áreas tradicionais de problemas. Além, contudo, das áreas específicas nas quais a etnometodologia tem sido uma importante fonte de inovação, está claro que ela também vem exercendo um impacto importante e contínuo tanto sobre a teoria sociológica básica quanto sobre os modos pelos quais se abordam muitos tipos de problemas de pesquisa empírica. Essa influência ampliou-se para os campos adjacentes da PSICOLOGIA SOCIAL, da LINGÜÍSTICA e da INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL . Em todas essas direções, a influência da etnometodologia é uma força dinâmica no pensamento social contemporâneo.

(William Outhwaite & Tom Bottomore - "Dicionário do pensamento social do século XX")

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