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Perguntas ingénuas

por Thynus, em 02.10.13

 

 

 

Há perguntas ingénuas, que parecem raiar pelo ridículo. São, no entanto, das mais interessantes.
Por exemplo: Onde começa um ser humano? Começar, não apenas no sentido cronológico, mas quase diria topográfico...
Em que instante começou um ser humano? Aliás, a pergunta do início é similar à do fim: Que instante é esse em que um ser humano deixa, pela morte, de pertencer a este mundo e ao tempo?
No tal sentido quase topográfico, a pergunta poderia assumir a seguinte formulação: O que é que um ser humano vê, quando olha, não os olhos, mas o olhar de alguém? Hegel diria que vê a noite do mundo, o abismo pura e simplesmente. Quando dois olhares se olham no olhar contemplam o abismo do mundo e o seu mistério.
A pergunta pode explicitar-se, perguntando: O que é que está por detrás e no íntimo e no fundo do que se vê? O que é o invisível do visível?, ou então: O que é que o visível torna visível?, melhor: O que é que o visível, precisamente ao mostrar, esconde? O que é que está na raiz do que vem à luz, do que se manifesta?
É bem possível que a pintura de Miró seja a tentativa de responder precisamente a esta questão: mostrar a raiz oculta do que surge, exactamente nesse ponto instantâneo de luz e ocultação, nesse ponto de transição da escuridão para a luz...
Onde é que radica qualquer pergunta digna desse nome senão aí onde habita o imostrável, mas precisamente para mostrá-lo enquanto imostrável?

O que é que um rosto mostra senão alguém que está a vir à janela de si próprio, ocultando-se?
Afinal, o que vem à luz acende-se na noite...
E as nossas palavras, onde é que se acendem também senão precisamente na noite do Silêncio?
Mas há o Silêncio morto e vazio, e o Silêncio habitado, que fala. E ouvir o Silêncio que fala não é o que propriamente se deveria chamar oração?
Quando se não ouve o Silêncio que fala, as nossas tempestades de palavras não passam de verborreia e barulho caótico, ensurdecedor. De facto, quem não bebe na fonte do Silêncio que fala, o que é que diz, quando fala?
Não será precisamente porque já não há tempo para ouvir o Silêncio que os pais pouco ou nada têm a dizer aos filhos, que a palavra dos professores anda gasta e murcha, que os padres proferem palavras engasgadas e mortas, que a vida pública se vai tornando pura poluição sonora?
Onde estão os poetas? Onde estão os místicos?

(Anselmo Borges - Janela do (In)Visível)

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publicado às 22:02



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