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 A concepção gadameriana da compreensão é fortemente marcada pela análise heideggeriana da estrutura de antecipação da compreensão, de acordo com a qual nós compreendemos o mundo e os outros à luz do nosso horizonte ou contexto histórico, social e cultural. Segundo Heidegger, não há interpretação sem pressupostos, porque toda a interpretação é determinada por um determinado contexto prático, por uma certa grelha conceptual e ainda pela adopção de uma determinada perspectiva dentro do nosso horizonte de inteligibilidade. Esta pré-compreensão nunca pode ser dispensada ou abolida, mas apenas elaborada ou desenvolvida. Deste modo, a noção tradicional de círculo hermenêutico, que remetia para a dependência mútua do sentido das partes e do sentido do todo ao nível da compreensão de um texto, é reinterpretada como o movimento circular entre a pré-compreensão de um intérprete e o interpretandum.
Gadamer subscreve a reinterpretação heideggeriana do círculo hermenêutico, dedicando especial atenção ao domínio da interpretação dos textos:
«Quem quer compreender um texto executa sempre um projectar.
A pessoa em questão antecipa um sentido para o todo mal
um primeiro sentido se mostra no texto. E, por seu turno, este
primeiro sentido mostra-se apenas porque já se lê o texto com a
expectativa de um determinado sentido. É na elaboração de um
tal projecto antecipador, constantemente revisto, é certo, a partir
da penetração posterior no sentido, que consiste a compreensão
do que lá está»
(Hans-Georg Gadamer, Wahrheit und Methode, Tübingen, J. C. B. Mohr, 1999, p. 271.Esta obra, o magnum opus de Gadamer, será doravante citada como WM. Existem traduções de Wahrheit und Methode em inglês (Truth and Method, New York, Continuum, 2003), francês (Vérité et méthode, Paris, Seuil, 1996), espanhol (Verdad y método, Salamanca, Ed. Sígueme, 1998), italiano (Verità e método, Milão, Bompiani, 2001) e em português do Brasil (Verdade e Método, Petrópolis, Vozes, 1998).
O círculo hermenêutico significa, assim, que «a compreensão do texto permanece duradouramente determinada pelo movimento antecipador da pré-compreensão» (Ibidem, p. 298), daí decorrendo que «se compreende de modo diferente, se se compreende efectivamente» (Ibidem, p. 302). Com efeito, se a interpretação depende de um horizonte de compreensão e se tal horizonte difere de intérprete para intérprete, então dois intérpretes diferentes deverão compreender de modo diferente o mesmo texto.
Na obra de Gadamer, a reflexão sobre o círculo hermenêutico assume a forma de uma reabilitação do preconceito: «os preconceitos [Vorurteile] do indivíduo são, muito mais do que os seus juízos [Urteile], a constituição histórica do seu ser» (Ibidem, p. 281. Note-se que Gadamer vê nesta passagem uma formulação possível da noção de círculo hermenêutico (Cf. IDEM, Wahrheit und Methode: Ergänzungen – Register, p. 224). Com efeito, em oposição ao «preconceito contra o preconceito» (WM, p. 275) característico do Iluminismo, Gadamer alerta para o facto de os preconceitos serem condições da compreensão e, por conseguinte, da comunicação. Eles não devem ser entendidos como juízos errados, mas tão-só como juízos prévios que podem ser confirmados ou refutados no decurso da nossa experiência do mundo:
«Os preconceitos não são necessariamente injustificados e erróneos,
de modo que dissimulassem a verdade. Na verdade, a historicidade
da nossa existência implica que os preconceitos constituem,
no sentido etimológico do termo, as linhas de orientação
prévia que tornam possível a nossa experiência. Eles são predisposições
da nossa abertura ao mundo, condições que permitem
que tenhamos experiências e que aquilo que encontramos nos
diga algo» (IDEM, Wahrheit und Methode: Ergänzungen – Register, p. 224)..
Enquanto fonte de inteligibilidade, os preconceitos não podem ser suprimidos; uma tal supressão, longe de conduzir a um conhecimento objectivo, inviabilizaria o próprio conhecimento. A impossibilidade de erradicar os preconceitos não tem, todavia, como consequência uma capitulação perante o poder dos preconceitos. Uma vez reconhecida a importância epistemológica e ontológica dos preconceitos, torna-se necessário distinguir entre preconceitos adequados e inadequados, iluminadores e obscurantes. Os dois pontos estão estreitamente ligados; quanto menos consciência se tiver do papel desempenhado pelos preconceitos no nosso pensamento, tanto menor é a capacidade de corrigi-los (Cf. WM, p. 366: «Quem está convencido de que não tem preconceitos, porque se apoia na objectividade dos seus procedimentos e nega o seu próprio condicionamento histórico, sofre o poder dos preconceitos, que o dominam de forma descontrolada, como uma vis a tergo»). Mas como controlar a acção dos preconceitos? Como veremos, os preconceitos são controlados por aquilo que eles tornam possível: a compreensão e a comunicação.

(José Manuel Santos, Pedro M.S. Alves, Joaquim Paulo Serra - Filosofias da Comunicação)

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