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Camillo Cibin – o fim de uma era

por Thynus, em 23.09.13

Alguns dias depois de retornar da Polônia, no dia 3 de junho de 2006, foi o fim no Vaticano, da era de serviço de uma das pessoas mais estranhas do mundo. Após trabalhar por 58 anos como guarda-costas do sumo pontífice, Camillo Cibin se aposentou. A vida inteira de Cibin foi vinculada à velocidade do papa. Quando o papa dirigia rapidamente, então Camillo Civin conseguia relaxar e seguir em um dos carros de escolta que ia ao lado ou atrás do carro do papa. Mas se o papa dirigia devagar, andava no papa-móvel somente em uma velocidade de passeio ou se ele ia a pé, então Camillo Cibin ficava o tempo todo ao lado do chefe da Igreja Católica. Acho que a confirmação em 2005 de manter o Cibin em seu cargo foi muito peculiar, porque a mensagem silenciosa de Bento XVI era uma que dizia “a minha vida está nas mãos de Deus”. Nenhum sumo pontífice que pensasse seriamente em ter que depender de ajuda terrestre, no caso de um atentado, deixaria a sua vida nas mãos de um guarda-costas de 79 anos. Profissionais de segurança que precisavam falar com o guarda-costas de Sua Santidade antes de uma viagem papal não conseguiam acreditar que o papa Bento XVI havia decidido manter no cargo um homem que mal seria capaz de defendê-lo em caso de ataque. Um guarda-costas de uma empresa de segurança normal já estaria aproveitando a sua aposentadoria há pelo menos quatorze anos. Além disso, nos seus últimos anos de trabalho, nenhum outro guarda-costas manteve um cargo tão importante por tanto tempo até a aposentadoria: o cargo de proteger um chefe de Estado. Mas no Vaticano é assim. Camillo Cibin esteve presente por vinte anos da minha vida, assim como o Sol ou a chuva. Ele sempre estava lá. Eu recordei muitos momentos, que confundo na minha memória. Mas era exatamente assim que eu me lembrava dele: Camillo Cibin participou de todas as 104 viagens internacionais do papa João Paulo II e das duas viagens internacionais do papa Bento XVI, até a sua aposentadoria. O Vaticano concedeu-lhe uma honra que apenas os principais cardeais da Cúria conseguiam: ele podia escolher não se aposentar ao completar 75 anos de idade. Assim como o cardeal Ratzinger, Cibin foi confirmado no seu cargo por João Paulo II apesar de ter excedido a idade limite. Mas o prazo final foi alguns dias antes dele completar oitenta anos. Não consigo me lembrar se Cibin alguma vez ficou doente. Sempre que o chefe da Igreja Católica aparecia, via-se também Camillo Cibin com sua fisionomia séria. E todos tinham a impressão de que Cibin queria se punir com as centenas de quilômetros que andou ao longo das décadas ao lado do papamóvel por não ter prestado atenção por alguns segundos. Ele não foi capaz de evitar a tentativa de assassinato do papa João Paulo II no dia 13 de maio de 1981. Mas foi Camillo Cibin quem capturou Mehmet Ali Agca, autor do atentado, enquanto ele tentava fugir pela praça São Pedro. Cibin prestou mais atenção um ano mais tarde, quando o papa João Paulo II viajou para Fátima para agradecer a Virgem Maria por ter salvado a sua vida. No dia 13 de maio de 1982 ele arrancou uma baioneta das mãos do padre Juan Fernandes Kohn. Cibin e o bispo Paul Marcinkus imobilizaram o autor do atentado. O padre pertencia à Fraternidade Sacerdotal São Pio X e ele queria acertar o ombro ferido do papa João Paulo II. Não era função de Cibin proteger o papa de atentados a bomba, a função dele era proteger o sumo pontífice de atentados diante dele. Eu vi centenas de vezes como Cibin afastava as mãos de homens e mulheres que tentavam tocar no papa ou no papa-móvel. Cibin, um lutador de caratê robusto, salvou centenas de vidas de pessoas que tentavam se jogar na frente ou embaixo do papa-móvel. Ele os levantava como se fossem feitos de pena e os jogava de volta para trás da grade de segurança. Por décadas ele não teve que lidar com atentados, e sim com uma quantidade absurda de fanáticos que queriam tocar no chefe da Igreja. Cibin temia mais que tudo os religiosos e os padres que pulavam as grades porque diziam que por serem sacerdotes, tinham o direito de tocar o papa e entregar uma mensagem ou dar algum conselho. Somente uma vez eu vi Camillo Cibin verdadeiramente em pânico. Foi no dia 23 de maio de 2002 em Baku. O papa João Paulo II decidiu visitar todas as 120 igrejas católicas no Azerbaijão. Durante uma devoção, em Baku, o papa se aproximou do pódio. Naquela época, Karol Wojtyla mal conseguia andar. Teria sido muito fácil derrubá-lo e machucá-lo de verdade. Nesse dia, na primeira fila estavam, como sempre, pessoas deficientes e, como sempre, havia uma fileira de cadeiras de roda e ao lado havia grupos de pessoas com muletas. De repente, um homem que estava se apoiando em duas muletas, jogou uma delas e por milagre ela não acertou Karol Wojtyla. Ele realmente queria pular sobre o papa. Cibin o agarrou em plano ar e se jogou contra o homem. Parecia uma cena de um jogo de futebol americano. Mas o medo estava estampado no rosto de Cibin. Quase foi tarde demais, tudo porque ele nem se preocupou em prestar atenção aos deficientes. Se ele os tivesse observado por alguns segundos, ele teria percebido que ali no meio havia um terrorista se passando por deficiente. Mas por sorte deu tudo certo naquele dia, em Baku. Os membros da Cúria queriam parabenizá-lo por ter evitado o pior, mas o velho espadachim não queria saber disso. Cibin nunca foi popular no Vaticano. Ele era uma das pessoas mais quietas que já conheci. Por décadas, havia boatos na gendarmeria do Vaticano, divisão da qual ele era o chefe, sobre ele nunca responder a uma pergunta, nem mesmo quando perguntavam que horas eram. Com Camillo Cibin encerrou-se uma era. Ele serviu seis papas, Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II e por fim Bento XVI. Domenico Giani ficou com o cargo de seu ex-chefe. Giani, ex-funcionário da alfândega, tornou-se adjunto de Cibin em 1999. Por fora, Giani é um guarda-costas severo em um carro Volkswagen Phaeton blindado, um presente da Alemanha. Mas na verdade ele possui uma visão da paz que é corajosa e também romântica. Ele é um dos inventores do projeto Rondini (andorinhas) em Arezzo. Ali, crianças, filhas de inimigos mortais, moram em uma mesma casa e estudam em italiano. Jovens russos moram com tchecos, palestinos com israelitas. A esperança do projeto Rondini é que esses estudantes façam amizades com os inimigos dos seus antepassados, e quando voltarem para o seu país natal após a conclusão dos seus estudos eles estarão com mente aberta, e assim o projeto Rondini espera aos poucos ajudar a fazer do mundo um lugar mais pacífico. Mas Domenico Giani só fala sobre esse sonho quando ele não está em serviço.

 

(Andreas Englisch - "O homem que não queria ser papa"

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publicado às 21:00



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