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O cardeal ergueu o olhar, surpreendido.
- Sabe - continuou Stickler a falar -, o Vaticano é um Estado em ponto pequeno com um governo e
com partidos que se combatem uns aos outros e que formam coligações uns com os outros, e há
poderosos e menos poderosos, há os comodistas e os menos comodistas, há simpáticos e antipáticos,
mas, sobretudo há uns que são perigosos e outros que são inofensivos. Seria um grande erro
pensar que no Vaticano reina a piedade. Servi três papas e sei muito bem do que estou a falar. Da devoção à loucura pecaminosa não é mais do que um pequeno passo, e tem-se a tendência para
esquecer muito facilmente que a Cúria é constituída por pessoas, e não por santos.
— Que tem Bellini a ver com tudo isso? — perguntou Jellinek de chofre.
O monsenhor manteve-se calado durante um momento e depois disse:
— Tenho confiança em si, senhorcardeal. Tenho de confiar em si, pela simples razão de que parecemos ter os mesmos inimigos. Bellini é a cabeça de um grupo que defende que João Paulo
não foi vítima de uma morte natural e que, contra todas as ordens recebidas pela secretaria cardinalícia de Estado, continua a averiguar sobre o caso. A encomenda que
recebeu com os objetos do Papa deve ter sido pensada como uma ameaça de morte, para que
deixasse cair as suas investigações. Podemos, no entanto, interpretá-la também como uma prova de que na morte do último Papa houve qualquer coisa de anormal.
- Conhece os nomes dos que participaram nessa conjura? Qualpoderia ser o interesse desses homens
em eliminar o Papa?
Monsenhor Stickler retirou o seu rei do tabuleiro, como sinal de que considerava o jogo terminado,
depois olhou o cardeal nos olhos e disse:
- Tenho de pedir-lhe que mantenha absoluto silêncio sobre o que lhe vou dizer, eminência, mas
como nos encontramos no mesmo barco vou revelar-lhe o que sei.
- Cascone? — perguntou Jellinek.
O monsenhor fez um gesto afirmativo com a cabeça e prosseguiu:
- O documento que desapareceu tão misteriosamente depois da morte de João Paulo continha instruções muito detalhadas sobre uma reestruturação da Cúria. Havia diversos cargos que deveriam
ser ocupados por gente nova, outros supostamente eliminados. No topo das mudanças estavam
três nomes: o do Cardeal Secretário de Estado, Giuliano Cascone, o do diretor do Istituto
per le Opere di Religione, Phil Canisius e o de Frantisek Kolletzki, vice-secretário da Sagrada Congregação para a Educação Católica. Permita-me que o diga deste modo: Se João Paulo não
tivesse falecido na noite seguinte, hoje em dia estes três senhores não estariam nos seus cargos.
- Mas é possível destituir tão facilmente um Cardeal Secretário de Estado do seu cargo?
- Não existe lei nem regra que o proíba, apesar de não acontecer há séculos.
- Confesso que sempre pensei que Cascone e Canisius fossem rivais.
— E são. De certa forma são ambos rivais e são estranhos um ao outro. Cascone é um homem
extremamente culto, habituado a celebrar com muito orgulho o seu
estatuto; Canisius é de origem humilde, vem de uma família de lavradores e até hoje continua a
ser um lavrador. Vem dos arredores de Chicago e sempre quis ser alguém, mas nunca conseguiu
alcançar um cargo mais alto do que o de bispo na Cúria; mesmo a dignidade episcopal já significa
uma lisonja para ele. Quando Canisius se encarregou do IOR, esta instituição era bastante insignificante, mas ele conseguiu transformá-la, com algum talento, num instituto financeiro de
renome, sempre com o intuito de ter um papel importante na alta finança. Canisius tem um instinto
para o dinheiro, venderia a tiara do Papa a um americano, se o deixassem. Os seus negócios financeiros tornaram Canisius um homem muito poderoso no seio da Cúria — naturalmente para grande desgosto do Cardeal Secretário de Estado que personifica ele próprio o poder mundano do Vaticano. Acho que no fundo estes dois se detestam mutuamente, no entanto, perseguem um interesse
comum, que é guardar o segredo. Está a perceber?
— Estou. E Bellini é, portanto, inimigo de Cascone, Kolletzki e Canisius?
— Não o é declaradamente, eminência. Bellini foi somente o primeiro na Cúria que ousou
duvidar da morte natural de João Paulo e que o disse abertamente. É por isso que Cascone, Kolletzki e Canisius tentam evitar o cardeal Bellini. Mas sobretudo evitam-me a mim. Pois suspeitam que conheço o conteúdo do documento e que saiba que os cargos destes homens estavam em perigo. Acho que para estes três o fato de Sua Santidade me ter novamente escolhido como ajudante de câmara significou uma desgraça enorme.
— E Sua Santidade sabe da história?
— Tenho a obrigação de manter silêncio, eminência, inclusivamente perante si.
— Não tem de responder, monsenhor, mas posso imaginá-lo.
(A CONSPIRAÇÃO SISTINA - PHILIPP VANDENBERG)

 

Segundo Yallop, o assassinato de João Paulo I foi decidido devido à sua determinação de purgar o problemático Banco do Vaticano e limpar a Igreja de seus laços com a P2. “O homem que foi rapidamente rotulado de ‘Papa Sorriso’,” escreveu Yallop, “pretendia arrancar o sorriso de muitos rostos no dia seguinte."

O papa Leão I (440-461) afirmou que “não importava quão imoral ou inepto fosse um papa, desde que fosse considerado legítimo sucessor de são Pedro”. Não há uma lista oficial de papas, mas o Annuario Pontificio, publicado todos os anos pelo Vaticano, contém uma lista geralmente considerada a mais autorizada. Bento XVI é citado como o 265º papa de Roma.
O número 263, João Paulo I, foi nomeado em 26 de agosto de 1978. Primeiro pontífice a escolher dois nomes (em homenagem a seus predecessores, João XXIII e Paulo VI), nasceu Albino Luciani em 17 de outubro de 1912, em Forno di Canale (atual Canale d´Agordo), Itália. Ao contrário de seus predecessores, nunca ocupou um alto cargo no governo interno ou no corpo diplomático do Vaticano. Apesar de proeminente na Itália, era praticamente desconhecido no restante do mundo.
Ordenado em 7 de julho de 1935, “estudou na Universidade Gregoriana de Roma depois de um breve período como vigário na paróquia de sua infância. Depois de ser indicado para um cargo de vice-diretor no seminário de Belluno, em 1937, passou vários anos ensinando; nesse período tornou-se vigário-geral para o bispo de Belluno. No final de 1958, o papa João XXIII nomeou Luciani como bispo de Vittorio Veneto, e após um início lento no Concílio Vaticano II (1962–1965) logo se tornou voz ativa em questões doutrinárias”. Nomeado arcebispo de Veneza (1969) e cardeal em 1973, rejeitou muitos dos aspectos de maior opulência do catolicismo e encorajou as igrejas mais ricas a dar para as mais pobres.
Após sua eleição ao papado pelo Colégio de Cardeais, a revista Time afirmou: “Os cardeais sabiam o que queriam: um homem caloroso e humilde. Sentado a uma mesa diante do altar da Capela Sistina, o cardeal solenemente entoou o nome escrito em cada cédula. ‘Luciani… Luciani… Luciani’. Ao lado dele sentaram-se outros dois cardeaisescrutinadores, que retiravam as cédulas cuidadosamente de um cálice de prata, desdobravam-nas e as passavam para seu colega. Foi a quarta e última votação do incrível conclave de um dia que deu ao mundo católico seu 263º papa”.
Tendo conseguido penetrar “o muro de segredos que se ergue em torno desses conclaves, e os votos de silêncio proferidos pelos cardeais ao entrarem e se isolarem do mundo exterior, os repórteres da revista Time, Jordan Bonfante e Roland Flamini, reuniram dados para reconstituir boa parte da história do processo transcorrido na Capela Sistina. Ficou claro que a eleição de Luciani não foi um acidente, mas resultado de um consenso que evoluiu a partir de três acordos alcançados em um longo período pré-conclave após a morte do papa Paulo VI em 6 de agosto de 1978.
“Provavelmente, metade dos 111 cardeais eleitores estavam indecisos ao iniciar-se o conclave. A maioria estava convencida de que o papa teria que ser italiano. (…)
“O segundo consenso, ao qual resistiram alguns membros da cúria até o final, era que a Igreja, independentemente de seus problemas políticos e administrativos, precisava de um papa pastoral. ‘Uma coisa é interpretar a fé e outra é transmiti-la às pessoas nas paróquias’, disse um alto prelado da cúria. ‘Isso é algo que os bispos — qualquer que seja sua teologia — entendem melhor do que os membros da cúria em suas escrivaninhas’.”
Outro cardeal disse: “Acho que antes do conclave todos nós concordávamos particularmente que precisávamos voltar a um homem humilde, pastoral, apesar de não termos consultado uns aos outros. E então, quando entramos, ficou claro para nós que era isso o que queríamos”.
Um dos participantes disse que havia um consenso para que o novo papa “não fosse óbvio nem controverso”.
Enquanto a votação não produzia nenhuma liderança óbvia entre os candidatos, Luciani era um homem “não ativamente detestado por ninguém, e ativamente querido por todos os que realmente o conheciam”.
“Ao meio-dia”, escreveram os repórteres da Time, “os dois conjuntos de cédulas, presos em uma grande agulha como se fosse um kebab, foram atirados ao forno da capela junto com uma mistura química enviando fumaça escura como sinal negativo para a multidão que aguardava na praça de São Pedro. Mas o sistema de exaustão acima do forno estava quebrado e a fumaça preta se espalhou pela capela, obscurecendo parcialmente os famosos afrescos de Michelangelo. Os cardeais ficaram tossindo por cerca de quinze minutos, cobrindo a boca e esfregando os olhos, até as janelas serem abertas para limpar o ar.
“Quando pararam para o almoço, enquanto os cardeais caminhavam até o Hall Pontifício na ala dos aposentos de Bórgia, travaram-se intensas discussões. Na terceira eleição, às 16h30 (…) Luciani tomou a dianteira, quase obtendo a maioria.”
“Nesse momento”, Luciani explicou depois com um sorriso que lhe valeria o apelido de “Papa Sorriso”, a situação “começou a ficar perigosa para mim”.
“Os cardeais Willebrands, dos Países Baixos, e Ribeiro, de Portugal, sentados ao seu lado, inclinaram-se em sua direção. Um sussurrou: ‘Coragem. Se o Senhor dá o fardo, dá também a força para carregá-lo’. E sussurrou o outro: ‘O mundo todo ora pelo novo papa’.”
Na quarta votação, “nenhum outro nome foi lido além do de Luciani. Houve algumas cédulas em branco (…) Mas cerca de noventa votos foram para Luciani”. Os aplausos ecoaram na capela. “A porta da capela foi aberta e oito auxiliares do conclave entraram para acompanhar Jean Cardinal Villot, o camerlengo da Igreja, até o aturdido Luciani, que ainda estava sentado em seu lugar sob um afresco do batismo de Cristo. O camerlengo, o rosto todo sorrisos, fez a pergunta ritual: ‘Você aceita sua eleição canônica como Supremo Pontífice?’.
“Luciani respondeu primeiro: ‘Que Deus os perdoe pelo que fizeram em relação a mim’. Depois deu seu consentimento: ‘Accepto’.”
As cédulas queimadas e palha quimicamente tratada enviaram uma fumaça branca pela chaminé, sinalizando para a multidão na praça de São Pedro que a Igreja tinha um novo papa. Ele seria “Ioannes Paulus”. A multidão foi informada do nome do novo papa: João Paulo.
“Depois de cantarem o ‘Te Deum’ de agradecimento, o pontífice foi escoltado até a sacristia para colocar suas vestes papais temporárias. Reapareceu de batina branca com uma capa nos ombros e uma longa faixa branca. Sorridente, ocupou o trono que havia sido erguido diante do altar e os cardeais contentes se aproximaram um a um para abraçá-lo e beijar o anel papal.”
“Roma viu João Paulo pela primeira vez no dia seguinte, quando 200 mil pessoas ocuparam a praça de São Pedro para a bênção semanal do meio-dia de domingo. João Paulo falou por sete minutos. (…) Vamos ‘nos entender uns aos outros’, ele disse para a multidão. ‘Não tenho a sabedoria do coração do papa João, nem o preparo e a cultura do papa Paulo. No entanto, agora estou no lugar deles e devo tentar ajudar a Igreja. Espero que me ajudem com suas orações.’ (…)
“O novo papa, João Paulo, mostrou um pouco do seu estilo pessoal nos planos para as cerimônias de posse ao ar livre no dia 3 de setembro. Por recomendação sua, não foi chamada de ‘coroação’ ou ‘entronização’, mas de ‘missa solene para marcar o início de seu ministério como Sumo Pontífice’. João Paulo pediu para não ser carregado na liteira, como era costume, e preferiu caminhar em procissão. O mais significativo, porém, foi o fato de não querer ser coroado com a tiara papal na forma de colmeia. Em vez disso, um pálio, a estola de lã branca simbolizando seu título de patriarca do Ocidente, seria colocado sobre seus ombros. (…)
“Em seu discurso inaugural aos cardeais, João Paulo jurou continuar a obra do Concílio Vaticano II, convocado pelo papa João XXIII em 1962 e concluído por Paulo VI em 1965. Iria ‘priorizar’ a revisão das leis do direito canônico, ele disse. Percebeu-se imediatamente que João Paulo pretendia dar ‘um novo estilo ao papado, mais simples e menos formal do que muitos no Vaticano estavam habituados’. Seu primeiro discurso para o mundo, proferido na sacada da basílica de São Pedro, foi direto e pessoal. (…) Ele pediu que os católicos tivessem ‘misericórdia com o pobre novo papa que não esperava chegar a esse posto’. Ele fez uma brincadeira dizendo que precisaria pegar o pesado livro do ano do Vaticano, o Annuario Pontificio, para estudar o funcionamento da cúria.”
“O novo papa não fez segredo do fato de que se sentia intimidado pela estrutura da Igreja que deveria governar. (…) Em eventos públicos, procurou fazer ligações com os católicos comuns adotando uma maneira de pregar como se estivesse contando uma história e conferindo ao Vaticano uma atmosfera de paróquia. Explicou o conceito de livre-arbítrio com uma metáfora sobre a boa manutenção de um carro. Falou com simpatia daqueles que não conseguiam acreditar em Deus. Brincou, comparando o casamento a uma gaiola dourada. ‘Aqueles que estão de fora morrem de vontade de entrar’, ele disse, ‘enquanto os que estão dentro morrem de vontade de sair’.”
Ele chocou muitos católicos ao dizer que Deus “é um pai, mas é ainda mais uma mãe”, pela maneira como Ele ama a humanidade. Citou o profeta Isaías, do Velho Testamento: “Pode uma mãe esquecer seu filho? Porém, mesmo que isso acontecesse, Deus jamais esqueceria seu povo”.
Alguns comentaristas da Igreja viram seu “pontificado como uma época de graça e alegria”, chamando-o de “Papa Sorriso”. “Outros analistas disseram que a tarefa estava acima das possibilidades do papa João Paulo, um homem que foi esmagado pelo peso da sua nova posição.” Os veteranos e tradicionalistas do Vaticano temiam que João Paulo fosse muito liberal e que pretendesse revolucionar as doutrinas da Igreja, incluindo a revisão de leis sobre a contracepção.
O cardeal Ratzinger via nele “grande bondade, simplicidade, humanidade e coragem”.
Ruth Bertels escreveu um artigo dizendo que na noite de 28 de setembro de 1978, quando João Paulo “sentou para comer na sala de jantar do terceiro andar do Palácio Apostólico, seus dois secretários, padre Diego Lorenzi, que trabalhara com ele em Veneza por mais de dois anos, e o padre John Magee, que fora indicado logo após a eleição papal, estavam presentes. As freiras haviam preparado um jantar simples composto de sopa, vitela, vagens frescas e uma salada. Os três comeram enquanto assistiam ao noticiário na televisão”. O papa parecia estar bem-humorado e com boa saúde.
“No andar de baixo, as luzes ainda estavam acesas no Banco do Vaticano, onde seu chefe, o bispo Paul Marcinkus, recebera recentemente um relatório sobre o papa, o Banco do Vaticano e os métodos de administração, incluindo a recente aquisição da Banca Cattolica.” As informações estavam nas mãos de várias dioceses, mas a maior parte ficou com o Banco do Vaticano.
“Naquela noite, o cardeal Jean Villot, secretário de Estado do Vaticano, também estava trabalhando até aquela hora, estudando as mudanças que o papa lhe transmitira uma hora antes. Villot defendeu e argumentou, mas o papa se manteve inflexível. As mudanças deveriam ser feitas.”
Em Buenos Aires, o banqueiro Roberto Calvi e dois sócios, Licio Gelli e Umberto Ortolani, sabiam que “o Banco da Itália vinha investigando secretamente o banco de Calvi em Milão desde abril, levado por uma campanha pública contra Calvi, iniciada em 1977, dando detalhes de atividades criminosas. (…)
“Em Nova Iorque, o banqueiro siciliano Michele Sindona vinha lutando contra os esforços do governo italiano para extraditá-lo para Milão para que enfrentasse as acusações envolvendo um desvio fraudulento de 225 milhões de dólares. Um juiz federal decidira pela extradição em maio. Em liberdade depois de pagar uma fiança de 3 milhões de dólares, Sindona exigira que o governo dos Estados Unidos provasse a existência de evidências fundamentadas que justificassem a extradição. A audiência estava marcada para novembro.”
Em Chicago, o cardeal John Cody, chefe de uma arquidiocese “de 2,5 milhões, quase 3 mil padres, 450 paróquias e uma receita anual que ele se recusava a revelar”, sabia que numerosas organizações haviam solicitado a Roma sua remoção.
O papa foi para a cama. A noite encobriu o Vaticano. Na madrugada do dia 29 de setembro de 1978, a governanta do papa bateu na porta do quarto, como sempre fazia, exatamente às 4h30. Como não ouviu resposta, afastou-se. “Voltou quinze minutos depois e percebeu que não havia movimento.” Ao entrar no quarto, “encontrou-o sentado na cama, ainda segurando os papéis da noite anterior”. Morto.
“Na mesinha de cabeceira, um vidro aberto de Effortil, seu remédio para pressão baixa.” A camareira, abalada e aos prantos, informou imediatamente o camareiro papal, o cardeal Villot. Villot chegou ao quarto do papa às 5 horas e pegou os papéis importantes, o vidro de Effortil e vários objetos pessoais que estavam sujos de vômito. Nenhum desses objetos foi visto novamente.
“O Vaticano afirmou que o médico da casa havia apontado um infarto do miocárdio como causa da morte. Embora a lei italiana determine um período de vinte e quatro horas até que o corpo possa ser embalsamado, o cardeal Villot tomou providências para que o corpo de Albino Luciani estivesse preparado para o funeral doze horas após a sua morte. Ainda que o Vaticano tenha se recusado a permitir uma autópsia com base na (…) lei canônica, a imprensa italiana verificou que uma autópsia havia sido feita” no papa Pio VIII em 1830.
A primeira informação pública dizia que “o Santo Padre foi encontrado morto pela irmã Vincenzia e não pelo seu secretário. (…) Um relato informava que estava morto no banheiro, outro dizia que estava junto à sua escrivaninha no quarto”. Havia discrepâncias também sobre a hora da morte, embora a estimativa oficial fosse a de que ele havia morrido às 23 horas do dia 28 de setembro.
“Outro relatório dizia que João Paulo havia se queixado durante o dia de um malestar, mas não chamou um médico. Dizia que ele sentira uma dor e tossira bastante naquela tarde.” Foi relatado que “após o jantar ele correu pelo corredor para atender uma chamada telefônica às 21h15”.
Isso teria provocado um ataque cardíaco fatal? Ou teria sido envenenado?
Alguns dos que acreditavam que ele havia sido assassinado afirmaram que o motivo era o medo de que o líder espiritual dos católicos romanos estivesse iniciando uma revolução. Ele queria dar à Igreja uma nova direção, considerada indesejável e perigosa por muitos dos membros do alto escalão.
Em 1984, no livro intitulado Em nome de Deus — uma investigação em torno do assassinato de João Paulo I, o autor britânico David Yallop sustentou que o assassinato do pontífice foi ordenado por um ou mais de seus suspeitos; “todos eles tinham muito a temer caso o papado de João Paulo I continuasse”. Entre os que tinham razões para preocupar-se estavam vários membros de uma loja maçônica italiana clandestina chamada Propaganda Due, ou P2. Fundada em 1877, em Turim, como “Propaganda Massônica”, tinha entre seus membros políticos e funcionários de governo de toda a Itália. “O nome foi mudado para Propaganda Due após a Segunda Guerra Mundial, quando o Grande Oriente numerou suas lojas.” Embora a Igreja tenha proibido os católicos de se filiarem à Maçonaria, a P2 estendeu seu alcance na Santa Sé com a “Grande Loja do Vaticano”. Em setembro de 1978, havia entre seus membros cardeais, bispos, muitos prelados do alto escalão e leigos.
O grão-mestre era Licio Gelli. Financista, foi o “oficial de ligação” de Mussolini com os nazistas e organizador de uma rota de fuga para a Argentina evitando que fossem presos como criminosos de guerra; aliado do ditador argentino Juan Perón, no pós-Segunda Guerra Mundial foi informante da inteligência norte-americana e dos comunistas italianos; também atuou para o estabelecimento de um governo de direita na Itália.
Segundo Yallop, o assassinato de João Paulo foi decidido devido à sua determinação de purgar o problemático Banco do Vaticano e limpar a Igreja de seus laços com a P2.
“O homem que foi rapidamente rotulado de ‘Papa Sorriso’,” escreveu Yallop, “pretendia arrancar o sorriso de muitos rostos no dia seguinte.”
Yallop citou Villot, que havia descoberto que seria substituído no cargo de secretário de Estado do Vaticano e que estava consternado porque João Paulo pensava em afrouxar a proibição da Igreja sobre o controle artificial da natalidade; Marcinkus, chefe do Banco do Vaticano, que teria marcada sua remoção imediata; Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano, que enfrentaria a ruína se as suas trapaças com os fundos do Vaticano fossem descobertas; Sindona, que sabia de suposta lavagem de dinheiro da máfia feita pelo Banco do Vaticano; Gelli; e o cardeal John Cody, de Chicago, que teria sido avisado de que seria convidado a demitir-se.
Segundo Yallop, o papa foi envenenado, provavelmente por alguém que adulterou um vidro do remédio para pressão baixa, chamado Effortil, que João Paulo mantinha em sua mesa de cabeceira. Yallop escreveu que as inconsistências nos informes do Vaticano a respeito da morte papal e da falta de uma autópsia indicavam um acobertamento.
“Era perfeitamente claro”, ele escreveu, “que em 28 de setembro de 1978, esses seis homens — Marcinkus, Villot, Calvi, Sindona, Cody e Gelli — tinham muito a temer se o papado de João Paulo I continuasse. É igualmente claro que todos eles ganhariam de várias maneiras se o papa João Paulo I morresse de repente.”
Os teóricos da conspiração rapidamente encontraram uma previsão do assassinato de João Paulo nos escritos do profeta Nostradamus:

  • Aquele que foi eleito papa será ridicularizado por seus eleitores,
  • Essa pessoa prudente e empreendedora será subitamente reduzida ao silêncio,
  • Decidem matá-lo por causa de sua grande bondade e moderação.
  • Tomados pelo medo, o levarão à morte durante a noite.

Tudo o que se podia dizer com certeza era que João Paulo havia sido papa por trinta e três dias.

 

(H. Paul Jeffers - Mistérios sombrios do Vaticano)

 

 

CERTIFICATO DI MORTE
Certifico che Sua Santita GIOVANNI PAOLO I. ALBINO LUCIANI, nato in Forno di Canale ( Belluno) íl 17 ottobre 1912, è deceduto nel Palazzo Apostolico Vaticano íl 28 settembre 1978 alle ore 23 per "morte improvvisa - da infarto míocardíco acuto".
“Il decesso è stato constatato alle ore 6.00 del giorno 29 settembre 1978.
Città del Vaticano , 29 settembre 1978.
(Dott. Renato Buzzonetti)
Visto il Direttore dei Servizi Sanitari
(Prof. Mario Fontana )

Certidão de óbito de João Paulo I
(Eric Frattini - A santa aliança, cinco séculos de espionagem do Vaticano)

Antes de adormecer, João Paulo I tinha o costume de ler um pouco na cama e para isso mandou colocar uma pequena lâmpada na mesa situada ao lado. A escolta de agentes da Santa Aliança que seguiam o papa foi retirada por ordem de um superior não identificado, conforme informou na manhã seguinte o padre Giovanni DaNicola ao cardeal Benelli.
O Sumo Pontífice morria de "morte natural" ou "assassinado" entre as nove e meia da noite de 28 de Setembro e as quatro e meia da madrugada do dia 29.

Existem duas versões sobre quem descobriu o cadáver. A oficial, ou seja, a do Vaticano, é a de que o primeiro a entrar no quarto do papa morto foi o secretário John Magee. A extra-oficial e verdadeira é a de que a primeira pessoa a entrar no quarto por ele não responder à sua chamada foi soror Vincenza Taffarell e ali descobriu o corpo do papa João Paulo I.

As 5.40, como todas as manhãs, soror Vincenza bateu à porta com os dedos para acordar o Santo Padre. Chamou nervosamente, sem obter uma resposta. Ao entrar, encontrou a luz acesa na mesinha e o corpo de João Paulo I imóvel. Estava morto. Saiu rapidamente do quarto e a pesada máquina vaticana foi logo posta em movimento. A ajudante do papa avisou o padre John Magee e este avisou o cardeal secretário de Estado, Jean Villot, e o decano do Sacro Colégio Cardinalício, o cardeal Cario Confalonieri. Villot avisou o médico do papa, Renato Buzzonetti. No interior do quarto a confusão era total. O diagnóstico do médico papal foi certificar a morte de João Paulo I ocorrida por volta das onze e meia da noite de 28 de Setembro por um enfarte agudo do miocárdio. Às sete e meia da manhã, a agência noticiosa ANSA dava a notícia da morte do Sumo Pontífice.
A comissão cardinalícia criada para investigar a morte de João Paulo I, dirigida pelos cardeais Silvio Oddi e António Samore, acabou por concluir que se tratou de uma "morte natural por enfarte", mas muitas perguntas ficaram sem resposta quando o papa João Paulo II ordenou a classificação de "Segredo Pontifício" para o processo de inquérito. Ainda hoje esse relatório permanece, como muitos outros, num obscuro recanto do Arquivo Secreto do Vaticano.
Por que se disse que o papa sofria do coração quando o seu médico de toda a vida, doutor António Da Ros, recusou tal afirmação? Por que não foi avisado o doutor Da Ros se o seu secretário John Magee disse que o papa se tinha queixado várias vezes durante o dia de que lhe doía o peito? Por que se disse que o papa apenas tomava vitaminas, quando realmente e por prescrição do doutor Buzzonetti lhe tinham sido receitadas injecções para estimular a glândula que segrega a adrenalina? Por que não se disse que foram receitadas a João Paulo I injecções para minorar o problema da baixa pressão sanguínea? Por que é que a cafeteira de café que todas as manhãs soror Vincenza lhe levava estava intacta quando se descobriu o corpo do papa e desapareceu pouco depois sem deixar o menor rasto? Porquê e quem ordenou a retirada da vigilância ao papa João Paulo I dos agentes da Santa Aliança? Por que é que quando Hans Roggan, oficial da Guarda Suíça, comunicou a Paul Marcinkus a morte do Sumo Pontífice ele não mostrou nenhuma estranheza, segundo o testemunho do próprio Roggan? Por que é que se disse que não se tinha feito nenhuma autópsia ao cadáver do papa, quando na verdade se fizeram três? Por que é que se não tornaram públicos os resultados de nenhuma das três autópsias? Por que foi ordenado à Santa Aliança que não abrisse qualquer inquérito por parte dos serviços secretos papais? Sim, todas estas perguntas e muitas outras ficariam sem resposta.

 (Eric Frattini, o.c.)

 

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