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A lenda do cinto de castidade é parte de um mito maior sobre todos os costumes sexuais da Idade Média cristã. À primeira vista, o sexo medieval é assunto tão interessante quanto o programa espacial português ou a arte contemporânea matogrossense. A Igreja exigia abstinência nos domingos, nos dias santos, na Quaresma e durante a menstruação. Somando outras restrições, sobrava menos da metade do ano para o entretenimento conjugal. Os senhores feudais negavam a maioria dos divórcios e, na Inglaterra, mulheres foram multadas por fazer sexo antes do casamento. Tudo isso para fazer valer o sexto mandamento da Bíblia, aquele que pede aos cristãos evitar a fornicação. “Fornicar” inclui praticar incesto, requisitar prostitutas, sexo fora do casamento e masturbação.
Essas eram as regras, mas, na Idade Média, havia uma boa distância entre a norma e a realidade. Na verdade, nunca o mandamento de não pecar contra a castidade foi tão desobedecido quanto nesse período essencialmente católico. Diante de algumas cenas de alcova da época, é difícil evitar a impressão de que os medievais tinham menos pudores e paranoias que atualmente. Veja por itens:

SEXO ANTES DO CASAMENTO
Assim como hoje, casais de camponeses medievais decidiam morar juntos e só oficializavam a relação quando a menstruação teimava em não aparecer. Registros de paróquias inglesas do século 15 mostram que entre 10% e 30% das noivas casavam grávidas. “Em muitas comunidades medievais, o sexo era uma costumeira, e quase rotineira, preparação ao casamento”, diz a historiadora Ruth Mazo Karras. Em muitas dessas famílias, filhos legítimos e bastardos viviam juntos. Era muito comum, em testamentos medievais e do começo da Idade Moderna, o marido pedir à esposa que cuidasse bem de seus filhos bastardos.

NUDEZ
Numa época em que o individualismo valia pouco, não havia tanta privacidade em ações que hoje consideramos íntimas, como fazer sexo, tomar banho ou ficar nu diante dos outros. Pijamas eram raridade – fora dos conventos e monastérios, as pessoas dormiam peladas. O receio de tirar a roupa despertava a “suspeita de que a pessoa pudesse ter algum defeito corporal” (Norbert Elias, O Processo Civilizador, Zahar, 2011, página 160). Como descreveu o sociólogo Norbert Elias, a vergonha e a intimidade são sentimentos que cresceram com o individualismo e as regras de etiqueta da corte a partir do século 16. Na Idade Média, as pessoas tinham um comportamento mais ingênuo ou infantil. Um relato do século 12 mostra
uma cena que lembra uma comunidade hippie:
É muito frequente ver o pai, nada mais usando que calções, acompanhado da esposa e dos filhos nus, correr pelas ruas de sua casa para os banhos. Quantas vezes vi mocinhas de 10, 12, 14, 16 e 18 anos nuas, exceto por uma curta bata, muitas vezes rasgada, e um traje de banho esmolambado, na frente e atrás [...] correndo de suas casas ao meio-dia pelas longas ruas em direção ao banho. (Norbert Elias)
Eis outro mito: o de que as pessoas na Idade Média não tomavam banho. Seguindo a tradição romana, havia em Paris, no começo do século 13, 32 estabelecimentos de banhos públicos. “O banho era, na verdade, um local onde homens e mulheres conversavam, comiam e brincavam em alegre companhia”, diz o historiador Jean Gimpel (Jean Gimpel, A Revolução Industrial da Idade Média, Zahar, 1977, página 84).
INCESTO
Essa desinibição tinha consequências não tão divertidas. Dormir também não era um ato tão íntimo e privado como hoje. As casas, principalmente a dos camponeses, não tinham divisões e quartos separados. As crianças dormiam na mesma cama, facilitando a realização das primeiras relações entre irmãos, meios-irmãos e primos. Nos primeiros séculos da Idade Média, a Igreja considerava pecado até mesmo as relações entre pessoas com menos de sete graus de parentesco, mas pouca gente perdia tempo contando. Entre os nobres, havia mais uma razão para as relações incestuosas: ter parentes como noivos era uma tática para manter propriedades na mesma família.

PROSTITUIÇÃO
Assim como hoje, a prostituição era comum e às vezes reprimida, às vezes tolerada. A partir do século 14, algumas cidades europeias não só legalizaram a venda de sexo como organizaram o negócio. Bordéis dirigidos pelo governo municipal apareceram em toda a Europa Continental. Supervisores estipulavam os locais e as horas de prostituição e cobravam impostos das mulheres e dos cafetões. O mais famoso desses bordéis, o Casteletto, criado em Veneza por volta de 1350, atraía turistas sexuais de toda a Europa. Essa tolerância com a prostituição tem uma raiz teológica. Dois dos principais alicerces do pensamento cristão, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino defenderam que a Igreja deveria parar de se incomodar com os prostíbulos porque eles seriam essenciais à ordem pública. “Se proibirem a prostituição, o mundo será convulsionado pela luxúria” (Melissa Hope Ditmore, página 299), escreveu Santo Agostinho ainda no fim do Império Romano. São Tomás de Aquino, em sua obra-prima, a Suma Teológica, do século 13, tem um raciocínio parecido. Ele concorda que a prostituição é um pecado capital, mas acha melhor deixar esse tipo de vício para o julgamento divino, pois a lei humana não deve controlar a intimidade do homem (Vincent M. Dever, “Aquinas on the practice of prostitution”, Essays in Medieval Studies, volume 13)
Donos de bordéis, ao lado de banqueiros, foram por muito tempo proibidos de entrar em igrejas. A mulher desses profissionais só poderia frequentar a casa de Deus se admitisse, em público, que execrava a profissão do marido.
De acordo com um relato de 1509, havia em Veneza 11 mil prostitutas, o que correspondia a 10% da população da cidade. O número é certamente um exagero, mas mostra a percepção da época quanto à popularidade da profissão (Melissa Hope Ditmore, Encyclopedia of Prostitution and Sex Work: A-N, volume 1, Greenwood, 2006, página 515).

CRIANÇAS
As crianças participavam dessa falta de pudor. Não se escondia delas o que se fazia nos bordéis, e os pais falavam abertamente com os filhos sobre proezas sexuais. Essa desinibição sobreviveu no início da Idade Moderna. Relatos e diários do fim do século 16 mostram que as babás da corte francesa faziam coisas que hoje seriam um escândalo gravado com câmera escondida pelo Jornal Nacional. É o caso do diário do médico do rei Henrique IV, que descreve o dia a dia do príncipe Luís a partir de seu primeiro ano de vida. “Ele dá gargalhadas quando sua ama lhe sacode o pênis com a ponta dos dedos”, diz o médico. Um ano depois, a criança mostra o pênis para todos que aparecem na sala, avisa sempre que o órgão está ereto e imagina brincadeiras:
Ao se levantar de manhã, o príncipe não quis nem por nada vestir a camisa e disse: camisa não, primeiro quero dar a todo o mundo um pouco de leite do meu pênis; as pessoas estenderam a mão e ele fingiu quetirava leite, fazendo pss... pss...; deu leite a todos e só então deixou que lhe pusessem a camisa (Philippe Ariès, História Social da Criança e da Família, 2a edição, LTC, 1981, páginas 126).
PALAVRÕES
Nos séculos 12 e 13, o uso de sobrenomes ainda não estava estabelecido, por isso marias e josés se diferenciavam por apelidos e nomes compostos. Apesar de a fornicação ser proibida também para homens, muitos deles não só desprezavam o mandamento como exibiam suas proezas nos apelidos. Alguns aparecem em documentos oficiais da época. Exemplos: John Balloc (“testículos”, derivado do inglês medieval), Assbollock (“testículos de jumento”), Daubedame (do francês medieval, “sedutor de damas”), Levelaunce (“lança erguida”), Grantamur (“grande amor”), Wytepintell (“pênis branco”), Silverpintil (“pênis de prata”) ou Luvelady (“amadamas” (Ruth Mazo Karras, página 4056).
Os sobrenomes surgiram de qualidades físicas (como Klein, que vem de “pequeno” e Jung, “jovem”); de profissões, como Ferreira, Machado, Fisher (“pescador” em inglês), Schumacher (do alemão “sapateiro”); do lugar de origem (da Costa, de Lisboa, Setúbal, Braga); e de plantas (Silva, Oliveira, Pereira).
No inglês medieval, pintel significava “pênis” – daí vieram palavras modernas como pintle,“pino que serve de eixo”. Não se sabe se o termo português “pinto”, com o mesmo significado, tem a mesma raiz etimológica ou se é apenas uma coincidência (Caetano Galindo, tradutor e professor de linguística da Universidade Federal do Paraná, entrevista concedida por e-mail em 10 de maio de 2013).
Também era assim com o nome de ruas. Em Paris, a Beaubourg, hoje uma avenida movimentada do centro da cidade, se chamava rue Trousse-Nonain (“Rua da Freira Trepadora”). Bordéis parisienses costumavam dar nome ao logradouro em que estavam instalados, por isso há nos mapas antigos de Paris endereços do tipo rue Petit et du Gros-Cul (“Rua da Pequena e Grande Bunda”), Gratte-cul (“Coçador de bunda”), Poil-au-Com (“Boceta cabeluda”). Séculos depois, esses nomes foram trocados para formas mais pudicas, mas muitos deles mantiveram a fonética original. A rua Pute-y-Muse (“Onde a prostituta circula”), por exemplo, se tornou rue du Petit Musc (Andrew Hussey, A História Secreta de Paris, Amarilys, 2011, página 214. Agradeço a verificação da tradução ao amigo Pierre-Emmanuel Beau).
As pessoas pecavam tanto e eram tão grosseiras numa época tão religiosa porque, na concepção de mundo medieval, o homem é, em essência, imperfeito e condenado. Pureza e perfeição eram coisas de santos, não de homens. “Só quem conhece a Idade Média pelo cinema acredita que os mecanismos de controle daquela época eram maiores”, diz o filósofo Luiz Felipe Pondé. O rigor de conduta ganhou força só no século 16, quando a Reforma Protestante fez da pureza cotidiana um ideal – adotado também pelos católicos a partir de sua reação, a Contrarreforma. Na década de 1540, moradores de Genebra, sob a influência de Calvino, já denunciavam quem faltava aos cultos e iam até a casa de adúlteros e malcomportados para adverti-los do pecado. Surgiu ali o costume moderno de encaminhar às autoridades civis aqueles que teimavam em desviar-se do “caminho correto” (Jacques Barzun, página 58). Por influência dessas novas ideias, a partir de 1539 autoridades de saúde pública de Veneza proibiram a entrada das prostitutas vindas de outras cidades. No mesmo século virou costume dormir de pijamas. O declínio da tolerância medieval teve outra consequência: a partir do século 15, se tornaram frequentes as fogueiras contra bruxas e hereges – um fenômeno que, pura ironia, ficaria para a história como marcas da Idade Média.
Com o Iluminismo, no século 18, predominou a ideia de que um sistema racional e científico poderia aprimorar a natureza humana e quem sabe levar o homem à perfeição. Foi Rousseau, filósofo nascido na Genebra calvinista, quem cunhou o termo “perfectibilidade”. Surgiu assim uma justificativa a mais à cultura da disciplina e ordenamento dos desejos. No século 19, a moda do camisolão “assinala uma época em que a vergonha e o embaraço no tocante à exposição do corpo eram tão intensos e internalizados que as formas corporais tinham que ser inteiramente cobertas, mesmo que o indivíduo estivesse sozinho ou no círculo familiar mais íntimo” (Norbert Elias, página 162). O cerco à masturbação foi crescendo a tal ponto que, no começo do século 20, foram criados cintos de castidade para evitar que rapazes americanos se masturbassem. Em 1860, quando o Barão de Haussmann criou o sistema de bulevares racionais e modernos em Paris, os nomes vulgares das ruas foram trocados por outros que não ofendiam a nova ideia de decência. Mas os bordéis que existiam ali permaneceram – pouca gente discordava de São Tomás de Aquino e de Santo Agostinho quanto à importância dessas casas.

(Leandro Narloch - Guia politicamente incorreto da História do Mundo)

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publicado às 03:27


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