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O DESTRONAMENTO DO DEUS-PAI

por Thynus, em 18.09.13

 

Da tocaia o filho alcançou com a mão esquerda, com
a destra pegou a prodigiosa foice longa e dentada. E
do pai o pênis ceifou com ímpeto e lançou-o a esmo
para trás

Hesíodo

 

 

As últimas considerações abrem caminho para uma nova perspectiva da cena primordial. Agora não se trata mais de um deus lutando contra um adversário qualquer, mas contra seu próprio pai.
Na Mitologia Grega, Cronos (Saturno) devorava todos os filhos que nasciam; ele, que havia castrado e destronado o próprio pai, temia agora sofrer o mesmo destino (Não devemos esquecer que a atribuição dos gestos divinos a razões emocionais consiste numa deformação inevitável, decorrente da tentativa de se expressar aquilo que em última instância é indefinível).
A perseguição movida pelo pai ao deus recém-nascido pertence à mitologia universal. Esse arquétipo, se reproduzido nos mitos referentes a entes humanos, mostra os reis que intentam perder o próprio filho - como é o caso de Édipo - por receio de uma profecia nefasta, que versa sobre sua morte ou destronamento. Muitas vezes, o pai perseguidor é representado por figuras deslocadas, como é o caso de Acrísio e Polidectes em relação a Perseu, Minos em relação a Teseu, Euristeu a Héracles, Pélias e Eetes a Jasão, Kansa a Krishna, o Faraó a Moisés e Herodes a Jesus. Não se trata de uma luta entre o Bem e o Mal, como invariavelmente sugere a forma concreta do mito, mas sim do confronto entre a ordem vigente e a que lhe sucederá. A identificação da ordem anterior com o Caos é compreensível: para toda nova ordem, a anterior sempre representa a desordem, mesmo porque já terá sofrido todos os desgastes próprios da duração. As profecias que versam sobre o destronamento ou morte do pai pelo próprio filho ou, numa forma deslocada, neto, enteado ou sobrinho, indicam o caráter arquetípico da lenda do herói, que reproduz (para se utilizar a fonte grega) o drama ocorrido entre Urano e Cronos, ou se assim se preferir, entre Cronos e Zeus.

A mutilação de Urano por Saturno, de Giorgio Vasari e Cristofano Gherardi.

Por outro lado, a perseguição paterna não acena com a morte física, mas simbólica, e se constitui num elemento imprescindível para a iniciação do novo monarca, seja ele humano ou divino na aparência formal do mito. A atitude ameaçadora do pai, quando vencido pelo herói, é substituída pela bênção e a transmissão de seus poderes ao sucessor; podemos observar essa mudança na atitude paterna por exemplo na luta de Jacó contra o anjo (Deus), quando este último, ao ser "derrotado", abençoa seu oponente conferindo-lhe um nome iniciático. O mesmo se dá com relação a toda classe de trabalhos que o rei, representante da figura paterna para o herói, impõe a este último, aparentemente para neles fazê-lo perecer: esses trabalhos constituem-se em tarefas iniciatórias, onde na verdade quem irá morrer será o eu profano do postulante.
Pelas propriedades do mecanismo de deslocamento, conforme vimos no primeiro capítulo, a figura paterna pode desmembrar-se em múltiplos personagens, que vêm a cumprir funções diferenciadas no processo iniciático. Para citarmos um exemplo concreto, na lenda de Jasão teremos em Eson (o pai biológico), Pélias (o tio usurpador do trono), e no rei Eetes (o sogro) sucessivos deslocamentos da figura paterna do herói.
Essa classe de mitos embasa os rituais em que o pai oferece o filho aos deuses por ocasião de sua iniciação, numa redução simbólica do sacrifício propriamente dito. Do ponto de visto místico, esse pai é representado pelo mestre ou hierofante, que dirige a graduação de seu discípulo.
De tudo o que acabamos de dizer, podemos depreender o quanto a ameaça que paira sobre o pai, assim como a tentativa de eliminação do filho, constituem-se numa maravilhosa simbologia, cuja leitura concreta só consegue tornar extremamente mesquinho um mito de alcance insuspeitado para a mentalidade moderna. Essa "perseguição" visa eliminar não o filho, mas ao aspecto inferior de seu eu; o pai na verdade anela a própria derrota, que lhe permitirá, através da bênção ritual, transmitir a seu filho muito amado a missão que lhe caberá na vida, e libertá-lo das amarras proporcionadas pela vida profana, introduzindo-o no caminho tortuoso dos mistérios divinos.

(António Farjani - A Linguagem dos Deuses)

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publicado às 23:23



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