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Os cintos de castidade estão para a Idade Média assim como a loira do banheiro e as balas com cocaína estão para os anos 80. São pura lenda urbana, mas de um tipo que durou séculos e pegou até grandes historiadores.
– Mas eu já vi fotos de cintos de castidade e até observei um deles num museu da Europa!
Pois saiba, caro leitor, que todos os cintos de castidade, muitos ainda em exposição, são “relíquias medievais” feitas séculos depois do fim da Idade Média. O Museu Britânico exibiu por 150 anos um cinto de chapas de ferro que todos pensavam ter vindo do século 12. Em 1996, o material foi retirado da vitrine: segundo um curador, era uma falsificação fabricada provavelmente no século 19.31 No Museu de Cluny, localizado no centro de Paris, o cinto em exposição seria mais recente – teria pertencido a Catarina de Médici, do século 16, e tinha as chapas de ferro cobertas por um arco de veludo. Também nos anos 90, foi retirado do catálogo: era fraude.
A lenda mais comum reza que os cavaleiros medievais, ao sair para as Cruzadas contra os árabes, passavam a chave na esposa para prevenir visitas indesejadas. Caso o marido não voltasse, a solução era pedir ajuda a um ferreiro (em inglês, blacksmith), o que explicaria a profusão do sobrenome Smith na Inglaterra. A piada é boa, mas a história não confere.
Até o século 15, quase duzentos anos depois da última grande Cruzada, não existe nenhum registro inequívoco de que o cinto de castidade foi alguma vez usado. Sequer há alguma referência sobre ele. Cintos que simbolizavam a castidade eram, esses sim, usados por padres e freiras – mas sobre a roupa e um pouco longe das partes íntimas. Já aquela horrenda carapaça de ferro com cadeado em forma de quadril feminino, ninguém sabe de onde veio. Não se fala dela nem mesmo nos livros medievais mais eróticos. O Decamerão, de 1353, e a História de Dois Amantes, de 1444, dois clássicos da literatura de sacanagem medieval, não têm nada, nada de cinto de castidade. E olha que esses livros davam tantos detalhes que, em estados americanos, eles foram proibidos até o século 20.
A lenda do cinto de castidade foi reempacotada em 1931, com um livro do britânico Eric Dingwall. Esse antropólogo se apoiou em duas obras literárias medievais para defender a existência dos acessórios. Na primeira, um poema do francês Guillaume de Machaut, do século 14, uma mulher dá ao amante uma chave, “a chave do meu tesouro”, diz ela. O rapaz, em retribuição a ela, dá um anel, símbolo de sua fidelidade. Era a chave de um cinto de castidade ou apenas a chave de seu coração, um presente poético? Provavelmente a última (Linda Migl Keyser, “The medieval chastity belt unbuckled”, em Stephen J. Harris e Bryon L.Grigsby, Misconceptions about the Middle Ages, Routhledge, 2008, página 255).
Só em 1405 é que aparece o primeiro registro conclusivo de cinto de castidade. O Bellifortis, primeiro manual ilustrado sobre equipamentos bélicos, exibe um desenho do acessório e informa que ele era usado em Florença na defesa pessoal das mulheres: elas o utilizavam durante invasões de exércitos estrangeiros para evitar estupros. Não seria, então, um ícone da opressão machista, mas uma defesa contra ela.
Ainda hoje existem cintos com essa finalidade, em regiões de alta frequência de estupros na África do Sul.
Um século depois, começam a brotar diversos relatos sobre o uso do cinto de castidade em sátiras e histórias cômicas. Em As Damas Galantes, de Pierre de Brantôme, em Pantagruel, de François Rabelais, o marido que apela para o cinto de castidade é retratado como um esquisitão. Apesar do ciúme doentio e da precaução, acaba traído pela esposa do mesmo jeito. Esse padrão sugere que o costume de usar cintos de castidade não era comum – sequer era visto com seriedade. Como diz a historiadora Linda Migl Keyser, “alguns estudiosos têm sugerido que os cintos são uma espécie de lenda urbana do passado, invenção dos sátiros da Renascença e tema de escritores burlescos” (Linda Migl Keyser, página 257).
Em vez do cinto de castidade, é mais sensato acreditar que as mulheres medievais usavam um vistoso consolo enquanto o marido viajava. Se a interpretação puritana da Bíblia toma o prazer solitário como um pecado capital, diversos manuais medievais de medicina diziam o oposto: não fazia bem à saúde das mulheres ficar tempo demais sem orgasmo, por isso era importante que se masturbassem com as mãos ou usando objetos. Um compêndio escrito por Arnaud de Villeneuve, alquimista e médico da Faculdade de Medicina de Montpellier no século 13, conta, como um bom exemplo a ser seguido, o caso de mulheres de mercadores italianos que se divertiam com um pênis de madeira enquanto o marido estava fora. Assim evitavam o risco de arranjar um amante e engravidar. “Acreditava-se que virgens ou viúvas, mulheres que não tinham um parceiro sexual legítimo, poderiam adoecer por causa da falta de orgasmo”, diz a historiadora Ruth Mazo Karras (Ruth Mazo Karras, Sexuality in Medieval Europe: Doing Unto Others, Routledge Taylor & Francis Group, 2012, página 3571). Parece a revista Nova, mas é pura Idade Média.
Médicos medievais acreditavam que as mulheres também produziam sêmen, tão necessário à fecundação quanto o esperma. O prazer feminino, portanto, era visto como necessário à procriação.

(Leandro Narloch - Guia politicamente incorreto da História do Mundo)

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publicado às 21:33



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