Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




ADÃO E EVA: Renunciando ao paraíso

por Thynus, em 18.09.13

Sair de casa é uma experiência tão arquetípica quanto a da família. Para nos
tornarmos nós mesmos, temos que nos separar psicologicamente da matriz de onde
viemos. E para isso talvez tenhamos também de nos separar de nossos pais e
nossa casa, para podermos descobrir nossas próprias ideias, sentimentos,
crenças, valores, talentos e necessidades. Sair de casa não implica que a vida
familiar seja “ruim”. Os que temem essa jornada para a vida talvez sejam mais
propensos a ter sofrido problemas familiares do que os que partem para o mundo
com confiança e esperança. É doloroso deixar aqueles a quem amamos, e essa
dor pode piorar quando os que amamos não querem nos deixar partir; mas há
também alegria na descoberta de que somos capazes de tomar nossas próprias
decisões e assumir a responsabilidade por nossa vida.

A moça deslumbrante, pura fatalidade, tem um nome — “Pandora” — ao mesmo
tempo esclarecedor e muito enganador. Significa em grego: aquela que tem todos os
dons — porque, diz Hesíodo, “todos que tinham sua casa no Olimpo lhe concederam
um dom” —, a menos que signifique, como acham alguns, “aquela que foi dada aos
homens por todos os deuses”. Pouco importa, aliás. Fato é que as duas leituras são
boas: Pandora aparentemente tem todas as virtudes possíveis e imagináveis, pelo
menos em termos de sedução (ou de moral, coisa que, como você sabe, é algo bem
diferente). Além disso, foi de fato enviada aos homens pelo conjunto dos olímpicos,
que os querem punir.

(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos) 

 

(Pandora) ergue uma estranha “jarra” (que na mitologia logo se
chamará “caixa de Pandora”) dentro da qual Zeus se dera o trabalho de colocar todos
os males, todas as desgraças e todos os sofrimentos que devem se abater sobre a
humanidade. Apenas a esperança fica presa no fundo do funesto recipiente! E isso pode
ser interpretado de duas maneiras. Pode-se primeiro achar que os humanos não
poderão sequer se agarrar a alguma esperança, visto que ela não saiu da caixa. Pode-se
também entender, o que me parece mais adequado, que a eles resta a esperança, o que
está longe de ser uma vantagem concedida por Zeus. De fato, não se engane: a
esperança, para os gregos, não é um bom presente. É inclusive uma desgraça, uma
tensão negativa, pois esperar é continuar carente, é desejar o que não se tem e,
consequentemente, estar de certa maneira insatisfeito e infeliz. Quem espera se curar é
porque está doente, quem espera ser rico é porque é pobre, de forma que a esperança é
mais um mal do que um bem.

(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)

 

... o nascimento a partir
da união sexual do homem com a mulher vai tornar os mortais realmente mortais. Você
se lembra de que, na idade de ouro, eles não morriam por inteiro ou, melhor dizendo,
morriam o menos possível; desapareciam de forma gradual, durante o sono, sem
aflição nem sofrimento e sem nunca pensar na morte. Além disso, depois de
desaparecerem, permaneciam de certa maneira em vida, pois se tornavam daemons,
anjos da guarda encarregados de distribuir aos homens as riquezas, de acordo com o
mérito de cada um. Com o surgimento de Pandora, os mortais se tornam totalmente
mortais, e isso, por um motivo de real profundidade: é que o tempo, tal como o
conhecemos, com sua sequência de males — velhice, doenças, morte —, realmente nasce. 

(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)

 

Como na Bíblia, a saída da idade de ouro vem acompanhada por
uma funesta calamidade: o trabalho. Dali em diante, de fato, será preciso que os
homens ganhem seu pão com o suor do rosto, e isso por pelo menos duas razões. A
primeira, eu já disse: Zeus “tudo escondeu”, ele enterrou no chão os frutos que servem
de alimento ao homem, principalmente os cereais com os quais se fabrica o pão, de
forma que ele vai precisar se esforçar para se alimentar. Mas há também a encantadora
Pandora e, com ela, diz a Teogonia, da qual cito um pequeno trecho, “a raça e as tribos
das mulheres, grande flagelo para os mortais”:
Elas moram com os homens e da pobreza maldita não querem a companhia (mais
claramente, não aguentam a pobreza): precisam mais do que o bastante. É como
nas colmeias, em que as abelhas engordam os zangões e tudo se passa
desfavoravelmente para elas; o dia inteiro, até o pôr do sol, trabalham e fazem
seus favos de cera branca, enquanto eles permanecem no fundo da colmeia. É a
fadiga do outro que eles armazenam em suas panças.

Não é muito feminista, concordo, mas a época de Hesíodo não é a nossa. De
qualquer forma, está terminada aquela bela idade de ouro em que os homens podiam
todo dia rejubilar-se com os deuses e se alimentar com toda inocência, sem nunca se
sacrificar às necessidades da dura labuta. Mas o pior, se podemos assim dizer, é que a
mulher, evidentemente, não é um mal absoluto.

 (Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)

 

abordamos um dos temas mais profundos da mitologia: se a ordem
cósmica fosse perfeita, caracterizada por um equilíbrio imutável e sem falhas, o
tempo simplesmente pararia, isto é, a vida, o movimento, a história, e não haveria,
inclusive para os deuses, nada mais a se ver nem fazer, ficando claro que o caos
primordial e as forças que ele não para de engendrar de vez em quando não podem
nem devem jamais desaparecer totalmente. E a humanidade, com todos os seus
vícios e, principalmente, com a sucessão infinita de gerações que isso implica, desde
o envio de Pandora e da morte “de verdade” para os homens, é indispensável à vida.
Magnífico paradoxo que se pode formular da seguinte maneira: não há vida sem
morte, não há história sem sucessão de gerações, não há ordem sem desordem, não
há cosmos sem um mínimo de caos.

 (Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)

 

 

A história bíblica de Adão e Eva é uma história de separação e perda. Podemos tomá-la como literalmente verdadeira; podemos entendê-la como um paradigma moral; ou podemos ver nela uma alegoria da separação original da mãe por ocasião do nascimento. Ela é verdadeira em muitos planos, mas uma das coisas mais importantes que tem a nos ensinar é que não podemos permanecer eternamente no paraíso e devemos assumir o ônus da vida terrena. A expulsão do Jardim do Éden é a quintessência da narrativa da saída de casa.
 
No Oriente, no Éden, Deus fez um jardim e o encheu com muitas espécies de seres vivos. Em seu centro havia duas árvores: a Árvore da Vida e a Árvore do Conhecimento. E Deus fez Adão e o pôs no Jardim, dizendo-lhe que poderia comer dos frutos que lhe aprouvessem, exceto o fruto da Árvore do Conhecimento. E Deus enviou a Adão todos os animais, e ele lhes deu nome; e então Ele o fez cair em sono profundo. Enquanto ele dormia, Deus retirou uma de suas costelas e a usou para fazer Eva, para que Adão não ficasse só. E Adão e Eva andavam nus e felizes pelo Jardim do Éden, em paz com Deus.
Mas a Serpente, a mais ladina de todas as criaturas, questionou Eva, perguntando se ela podia comer qualquer fruto que desejasse. — Sim, respondeu Eva, podemos comer de qualquer fruto, exceto o da Árvore do Conhecimento. Se comermos deste, morreremos.
— Ao contrário, retrucou a Serpente. Se comerdes da Árvore do Conhecimento, descobrireis a diferença entre o bem e o mal e sereis iguais a Deus. Foi por isso que Ele vos proibiu seu fruto.
Eva fitou cobiçosamente a Árvore, intensamente tentada pelo fruto suculento que a tornaria sábia. Por fim, não aguentou mais, pegou um pedaço do fruto e o comeu. Em seguida, entregou outro pedaço a Adão, que o comeu. E, olhando um para o outro, eles se aperceberam de sua nudez e das diferenças entre seus corpos de homem e de mulher, e sentiram vergonha. Apanharam às pressas algumas folhas de figueira e as usaram para se cobrir.
Na fria brisa do anoitecer, ouviram a voz de Deus que entrava no Jardim e se esconderam, para que Ele não os visse. Mas Deus chamou por Adão, perguntando-lhe onde estava e por que se escondia. Adão respondeu ter ouvido a voz de Deus e sentido medo. E Deus lhe disse:
— Se estás com medo, deves ter comido do fruto que te proibi comer.
Adão apontou prontamente para Eva e disse:
— Foi a Mulher quem me deu o fruto.
— Sim, respondeu Eva, mas foi a Serpente que me tentou e me enganou.
Assim, Deus maldisse a Serpente e expulsou Adão e Eva do Jardim, dizendo:
— Agora que conheceis o bem e o mal, deveis deixar o Éden. Se ficásseis, comeríeis também da Árvore da Vida, e então viveríeis para sempre.
E Deus os lançou no mundo e os amaldiçoou, dizendo que, daquele momento em diante, Adão teria que viver do suor de seu rosto, e Eva teria que sofrer as dores do parto. E a leste do Éden, Deus fez postar-se um Querubim com uma espada flamejante, para guardar a entrada do Jardim e a Árvore da Vida.
 
COMENTÁRIO: O nome “Adão” significa “terra”, enquanto “Eva” significa “vida”. Assim, sabemos de cara a que se refere essa narrativa de fato: ao processo pelo qual entramos no mundo terreno e vivemos nossa vida mortal. Como castigo por sua desobediência, Adão e Eva terão que suportar os dois fardos que todos os adultos enfrentam, num ou noutro nível: trabalharem para se sustentar e tornarem-se pais.
Num certo nível, essa história descreve a primeira perda que temos de enfrentar — a separação do ventre materno no começo da vida. No útero, a vida é agradável e sem tensões ou pressões. Não há necessidade de roupas, pois não há calor nem frio extremos, e não há nenhuma experiência de fome ou sede. A vida é tranquila, sem solidão, conflito ou sofrimento. Vem então o choque do nascimento. Assim como Adão e Eva são atirados para fora do Éden sem nenhuma cerimônia, ao nascer, o bebê prova pela primeira vez a solidão e a dor física.
Mas o nascimento não se limita apenas à saída do bebê do ventre materno. Também “nascemos” ao começar a perceber que somos seres independentes, dotados de ideias, sentimentos, sonhos e metas diferentes dos de nossos pais. A família em si é uma espécie de Éden, no qual a criança pode se refestelar no amor e proteção dos pais, sem o ônus de enfrentar os desafios do mundo e sem a dor da solidão, do conflito e da luta da vida adulta. Pensamos o que nos dizem para pensar, sentimos o que nos é solicitado sentir e agimos, sem questionamento, de acordo com normas e valores que nos são dados. Tudo fica em paz na família, até que a criança, chegando à puberdade e ao limiar da idade adulta, busca seu próprio conhecimento do mundo — o fruto proibido que nos tornará semelhantes a Deus. Em outras palavras, ao provarmos as experiências da vida e descobrirmos nossa força física, afetiva e mental, adquirimos o direito de tomar decisões e assumir responsabilidades, assim nos igualando a nossos pais. Temos de encontrar nosso caminho — e é possível que nos sintamos amedrontados e envergonhados. E muitos pais — como o Deus do conto bíblico — sentem isso como um desafio terrível e um desrespeito direto a sua autoridade. O jovem é expulso da unidade do psiquismo familiar e jogado no mundo duro e frio da individualidade independente, sem nunca mais poder reingressar no mundo mágico e amoroso em que filho e pais são um só.
Os sentimentos sexuais e a experiência sexual são processos de iniciação importantes, através dos quais provamos o fruto e descobrimos nossas naturezas individuais. Mas essa narrativa não descreve apenas o sexo. O conhecimento do bem e do mal tem a ver, na verdade, com fazer escolhas de acordo com os valores individuais. No fundo, todas as nossas escolhas, inclusive as sexuais, refletem quem somos como indivíduos únicos. Com essa descoberta, entretanto, vem a dor da separação, pois é inevitável que encontremos áreas de conflito até mesmo com aqueles a quem mais amamos.
Cedo ou tarde, teremos de questionar os pressupostos de nossos pais, tomar nossas próprias decisões e assumir as consequências delas. Essas escolhas podem implicar um direcionamento específico da vocação, a decisão de ir ou não para a universidade, um certo relacionamento que queremos manter, apesar das advertências de nossos pais, ou a expressão de ideias e sentimentos que provocam conflitos na família. Sejam quais forem as escolhas, em algum momento temos de arriscar a experiência da separação psicológica e da solidão da vida fora do Éden.
Nosso despontar para a idade adulta pode implicar muitos sentimentos de perda, isolamento, vergonha e culpa. Talvez seja essa uma das razões por que tantos estudantes sofrem de depressões, colapsos nervosos e ideias suicidas quando se aproxima o momento de fazer os exames vestibulares: é chegado o momento de partir para o mundo, e a dor de deixar para trás a infância e a inocência pode ser extrema, em alguns casos. Para o jovem que se encontra nesse limiar, muita coisa depende de como, na condição de pais, reagimos à pressão da Serpente em nossos filhos. Quando encaramos sua necessidade de experimentar a vida como um pecado contra nossa autoridade e nossa visão de mundo, aumentamos o fardo de sofrimento que eles carregam e instilamos neles um sentimento de culpa e de exclusão. Sejam quais forem nossos códigos morais e sexuais pessoais, temos de reconhecer que nossos filho precisam encontrar — e encontrarão — um modo de desenvolver os deles. Tudo o que nos cabe fazer é dar o melhor exemplo possível e oferecer, sem avareza, amor, apoio e compreensão. E, se reconhecermos que também a Serpente foi criada por Deus, e que sua intervenção para que se prove o fruto é o que dá a todos os jovens o impulso para seguirem seu potencial e assumirem o lugar que lhes é de direito na vida, talvez possamos ser menos desapiedados do que o Deus do Gênesis. Com isso ajudaremos nossos filhos a reconhecer que a união e a paz podem ser encontradas, em última instância, no nível interno, afetivo e espiritual, mesmo fora dos muros do Éden.

(Liz Greene, Juliet Sharman-Burke - Uma Viagem através dos Mitos)
 
HYPERLINKS:
* PROMETEU E OS PRIMEIROS HOMENS
* Evas e Pandoras: o feminino revisitado
* O mito grego da criação do homem
* A reabertura da caixa de Pandora!
* O mito grego da criação do homem
* 1. O Mi e o Ma
* O criacionismo e o evolucionismo
* Animais humanos e os outros
* Relato bíblico sobre a origem humana

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:59



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D