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A DIVINDADE SOBRE AS ÁGUAS

por Thynus, em 17.09.13

 

 

No princípio, Deus criou o céu e a terra. Ora, a terra
estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, e o
Espírito de Deus pairava sobre as águas

Gênesis 1:1,2


Que o oceano primordial em nada se relaciona com o mar de água salgada ao qual estamos acostumados,  até mesmo os teólogos o sabem. O hebraico tehom, encontrado também na literatura ugarítica, não significa propriamente "mar", designando o oceano de água doce situado debaixo da terra, do qual brotam as fontes (Gên.7,11; 8,2; 49,25; Dt. 33,13; Ez. 31,4; Sl. 135,6; Jó 28,14; 38,16). O tehom, portanto, relaciona-se com a matéria-prima caótica com a qual a divindade molda o Universo, e subjaz ao mundo manifesto assim como o lençol de água subterrânea sustenta o solo em que pisamos. Tanto quanto as fontes surgem do chão, o caos pode irromper em determinados momentos no plano do fenômeno (Já estabelecemos anteriormente a ligação entre o mar primordial e o dragão que nele habita. Essa “serpente de muitas cabeças” de que falam os mitos e escritos sagrados associa-se a estes múltiplos pontos de irrupção do Tehom).
A cena mostrada aqui já não apresenta um casal, mas uma única figura divina que o mito aponta como feminina, porque passiva, conferindo-lhe a condição de "virgem". Essa divindade feminina, vagando sobre as ondas de um oceano primordial, é largamente difundida na mitologia universal, cujos exemplos borbulham: ela é a deusa Neith, Nepte, Nuk ou Nut dos egípcios, também conhecida como Naus, a nau celestial. Chama-se Aditi nos Vedas, Akâza nos Purânas, Nerfe para os etruscos, Bythos para os gnósticos, Anaita entre os assírios, Eurínome dos pelasgos, Ilmatar dos finlandeses, Iemanjá para os africanos, e Hagia Sophia para a religião grega ortodoxa. Na Mitologia Grega, podemos divisar sua  figura em Halia, Ino-Leucótea, e na famosa Afrodite Anadiômena, surgida da espuma do mar; entre os romanos, ela é conhecida como Matuta. Por toda parte, seus apelativos variam entre Virgem Imaculada, Virgem do Mar, Senhora dos Navegantes, Senhora do Sicômoro, Virgem Mãe de Deus, etc. que foram sobejamente aproveitados para referir-se à mãe de Jesus, nesse caso mais especificamente chamada Senhora da Conceição (Concepção).
Essa divindade cósmica constitui-se no protótipo de todas as deusas-mães, cujo modelo reproduz-se nas mães dos heróis. A virgindade a elas atribuída não se fundamenta na moral comum, e sim no mistério da partenogênese ocorrido no momento primordial; "virgem", na linguagem simbólica, equivale a "imanifesto", e portanto, a virgem dar à luz significa manifestar o imanifestado, e se refere a Deus engendrando a si mesmo.
O momento da concepção da Virgem cósmica está associado a um processo de movimento, um giro, uma dança efetuada pela divindade postada acima das águas. Na Índia, a dança de Shiva-Nataraja simboliza a manifestação; na China, a dança de Yu, o Grande, limita a expansão das águas primordiais; entre os pelasgos, é a deusa Eurínome que, com sua dança sobre o oceano primevo, dá origem a todas as coisas e seres vivos. O Antigo Testamento refere-se a ela em muitas ocasiões, como nos Provérbios 8:23s: "Desde a eternidade fui estabelecida, desde o princípio, antes da origem da Terra...quando se enchiam as fontes do abismo, quando se punha um limite ao mar..." ou no Eclesiástico 24:5s: "Só eu rodeei a abóbada celeste, eu percorri a profundeza dos abismos, as ondas do mar, a terra inteira, imperei sobre todos os povos e nações" (Interessante observar que o nome sumério de Eurínome é Iahu (Pomba\Eminente), de onde os hebreus tiraram Iavé ou Javé, e os gregos Jove (outro nomede Zeus).

Nascimento de Vênus (Afrodite), de Botticelli

 As ninfas das fontes, as náiades, e as deusas vistas no banho também representam essa divindade primordial. Prestando-se atenção a todos os mitos que apresentam essa figura feminina à beira das águas, veremos que ela freqüentemente aparece como uma figura terrível, que leva os homens à morte e à perdição, tais como as Sereias ou a Esfinge. O mar sobre o qual elas caminham ou as fontes nas quais se banham são os mesmos elementos que ocultam o dragão primordial, daí muito comumente eles serem apresentados conjuntamente, como por exemplo a princesa Andrômeda e o monstro marinho, na Mitologia Grega.
O dragão que guarda a virgem sagrada deverá ser derrotado pelo herói que deseje a ela se unir, e esta cena formidável abriga mais mistérios do que se possa imaginar, como por exemplo o de que a virgem é cúmplice do dragão que supostamente a detém, e que seus lamentos podem esconder uma armadilha mortal. É ela, e mais ninguém, que com sua voz irresistível atrai os marinheiros para a perdição, ou que transforma em animais os temerários que ousem adentrar seus domínios; é ela a mulher indômita que sai triunfante da tenda do homem que acaba de decapitar ou extrair a força de seu corpo; é aquela que urde a trama contra o esposo que compartilha seu leito, afiando a terrível foice com que o filho castrará o próprio pai. Não obstante, sem a menor sombra de dúvida, seremos obrigados no momento a passar ao largo do rochedo encantado das sereias, com os ouvidos tampados para ignorarmos seu perigoso canto, pois nosso objetivo no momento encontra-se muito distante dessas praias por demais traiçoeiras onde a virgem celestial revela seus terríveis encantos. Haveremos de encontrá-la num futuro breve, quando, assim espero, já disponhamos da resposta adequada para seus enigmas sutis, de maneira que possamos evitar o funesto destino daqueles que se paralisam diante de seu olhar penetrante e fatal.

(António Farjani - A Linguagem dos Deuses)  

Senhora da Conceição

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publicado às 16:21



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