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1. O Mi e o Ma

por Thynus, em 16.09.13

 

O que está embaixo é igual ao que está em cima, e o
que está em cima é igual ao que está embaixo, para
realizar o milagre de uma só coisa

(A Tábua de Esmeralda)
Na concepção dos antigos, uma das idéias mais claras e universalmente presentes é a de que o Universo compõe-se de dois aspectos que se complementam: um, o aspecto concreto, físico, tal como podemos observar através dos nossos sentidos; o outro, invisível, transcendente, celestial, impalpável, pertencente a um plano mais sutil, além da nossa capacidade de percepção comum. Até este ponto, tudo nos parece familiar, uma vez que estamos acostumados a dividir o mundo em seus aspectos espiritual e material, assim como dividimos o homem em alma e corpo. Contudo, há aqui uma grande diferença a ressaltar: ao contrário da nossa concepção dualista judeu-cristã, esses dois mundos não são separados entre si, constituindo-se ao invés disso em dois aspectos de uma realidade única, como as duas faces de uma moeda. Mais ainda, consiste o mundo físico em simples reflexo distorcido do mundo espiritual, sendo por isso mesmo ilusório e efêmero como uma imagem refletida nas águas em movimento.
A idéia pode parecer estranha para o homem ocidental, acostumado a considerar como real somente aquilo que possa identificar pelos sentidos; esse problema é tão sério que se chega a considerar como real apenas aquilo que possa ser tocado, pesado, ou medido. Tal concepção representa exatamente o contrário da dominante no mundo antigo; justamente esse mundo que aprendemos a considerar como real é aquilo que os hindus chamavam Maha-Ya, a Grande Ilusão - para eles, o mundo verdadeiro é aquele que não pode ser visto ou tocado, que transcende os nossos sentidos.
Alguém poderia objetar aqui, desde uma posição "científica", que essa visão das coisas é por demais infantil, derivada da ignorância dos antigos quanto à explicação dos fenômenos do Universo. Na verdade, esta última posição que se constitui em anticientífica, pois desde o advento da física quântica, no início deste século, os cientistas chegaram à surpreendente conclusão de que o mundo observável é ilusório, dependendo de um observador para se constituir como uma realidade. Desde então caiu a concepção newtoniana, esta sim francamente inocente, de um Universo previsível e bem-comportado, cedendo lugar a uma visão tão atormentadora do mesmo que levou Niels Bohr a declarar: "Quem não se sentiu chocado com a teoria quântica, não pode tê-la compreendido".
Erwin Schrödinger, outro expoente da física moderna, resmungou: "Não a aprecio, e lamento ter estado ligado a ela". Werner Weinsenberg certa vez contou: "Recordo as discussões com Bohr que se estendiam por horas a fio, até altas horas da noite, e terminavam quase em desespero; e, quando no fim da discussão, eu saía sozinho para um passeio no parque vizinho, repetia para mim, uma e outra vez, a pergunta: Será a natureza tão absurda quanto parece nestes experimentos atômicos?"
Albert Einstein, por sua vez, além de não compreender a nova teoria, recusou-se a aceitar todas as suas conseqüências, preferindo supor que as equações da mecânica quântica permitiriam simplesmente descrever o comportamento das partículas subatômicas, negando suas implicações ao nível da experiência cotidiana. Certa vez, desolado, exclamou: "Todas as minhas tentativas para adaptar os fundamentos teóricos da Física a esse (novo) conhecimento fracassaram completamente. Era como se o chão tivesse sido retirado de baixo de meus pés, e não houvesse em qualquer outro lugar uma base sólida sobre a qual pudesse construir algo". Mais do que isso, em 1935 Einstein chegou a tentar, pateticamente, com a ajuda de seus colaboradores Rosen e Podolsky, refutar a teoria quântica, apoiando-se na idéia de que ela contradiz o senso comum. O grande gênio conseguiu esquecer, por um momento, de que sua própria teoria da relatividade contradizia igualmente, e não com menos impacto, o senso comum. Sem dúvida alguma, tratavam-se de descobertas absolutamente desconcertantes, mesmo para as mentes privilegiadas que as efetuaram.
O motivo que levou o senso comum a continuar a pensar dentro da lógica hoje obsoleta é o de que, embora essas novas descobertas tenham se iniciado há décadas, a nossa cultura ainda não conseguiu absorvê-la filosoficamente. De forma instintiva e inconsciente, para se defender de uma realidade insuportável, continuou-se a pensar como antes. Por outro lado, sem a Física quântica seríamos incapazes de construir a maior parte dos engenhos que temos desenvolvido ultimamente, desde centrais nucleares a simples aparelhos de televisão. Esta é uma triste ironia; embora consigamos aproveitar tecnologicamente a nova teoria, negamos de forma cínica e irresponsável as suas conseqüências filosóficas.
De qualquer forma, não é minha intenção defender idéias que há muito não necessitam ser defendidas, e sim tentar lançar suspeitas sobre os muitos preconceitos quanto à concepção do Universo feita pelos antigos. No mais, interessa-nos aqui tentar penetrar na forma de pensamento destes últimos com o fito de compreendermos um pouco melhor a sua produção mítico-religiosa. Fora de qualquer dúvida, a idéia de que o Universo é composto de dois planos complementares entre si é fundamental para podermos penetrar no Universo mítico, razão pela qual resolvi começar por esse tema.
Os nomes desses dois mundos variam entre os diversos povos, mas a essência da concepção é a mesma. Na tradição zervanita dos persas, todas as coisas têm um duplo aspecto: o mênôk, invisível, e o gêtîk, captável pelos sentidos. Assim, fica provido o Universo de uma dupla face: a terra em que vivemos é mero reflexo de uma terra celestial; o mesmo ocorre com o mar, o céu ou a montanha; o sol que estamos acostumados a ver é simples manifestação de um outro sol, oculto "sob" o sol aparente. As cidades construídas pelos antigos constituíam-se em réplicas de cidades já existentes no plano celestial, da mesma forma que os templos, os palácios ou até uma simples residência materializavam algo previamente existente. Encontramos a mesma idéia entre os hebreus, egípcios, babilônios, hindus, e até mesmo entre os índios da América pré-colombiana. Na obra O Mito do Eterno Retorno, Mircea Eliade apresenta vários exemplos ilustrativos, dos quais extraí uma pequena amostra:
"Segundo as crenças dos mesopotâmios, o rio Tigre tem o seu modelo na estrela Anunit e o Eufrates na estrela da Andorinha. Um texto sumério refere o 'lugar das formas e dos deuses', onde se encontram 'os deuses dos rebanhos e dos cereais'. Também para os povos altaicos as montanhas têm um protótipo ideal no céu. Os nomes dos lugares e os nomes (antiga divisão administrativa do Egito) egípcios eram atribuídos de acordo com os 'campos celestes': primeiro conheciam-se os 'campos celestes', que depois eram identificados na geografia terrestre...
"Uma Jerusalém celeste foi criada por Deus antes da cidade de Jerusalém ter sido construída pela mão do homem: é a ela que o profeta se refere, no Apocalipse sírio de Baruch, II, 2, 2-7: 'Pensas que é essa a cidade da qual disse: Das palmas das minhas mãos te construí? A cidade em que viveis não é a que foi revelada em Mim, a que ficou pronta desde o momento em que me decidia criar o Paraíso e que mostrei a Adão o seu pecado...
"Encontramos esta mesma teoria na Índia: todas as cidades reais indianas, mesmo modernas, são construídas pelo modelo mítico da cidade celeste, onde habitava, na Idade do Ouro (in illo tempore), o Soberano Universal... É assim, por exemplo, que o palácio-fortaleza de Sihagiri, no Ceilão, é construído segundo o modelo da cidade celeste de Alakamanda, e é 'de um acesso difícil para os seres humanos' (Mahâvastu, 39, 2). A própria cidade ideal de Platão tem também um arquétipo celeste (Rep., 592 b; cf. ibid, 500 e). As 'formas' platônicas não são astrais; contudo, a sua região mítica situa-se em planos supraterrestres (Fedra, 247, 250).
"Portanto, o mundo que nos rodeia, no qual se sente a presença e a obra do homem - as montanhas que transpõe, as regiões povoadas e cultivadas, os rios navegáveis, as cidades, os santuários - têm um arquétipo extraterrestre, concebido quer como um 'plano', como uma 'forma', quer pura e simplesmente como uma 'réplica' que existe a um nível cósmico superior" (O Mito do Eterno Retorno, Ed. Mercuryo, p.20.).
A tradição judaica também tem a sua contribuição a dar: lemos no Gênesis I que Deus separou a luz das trevas, assim como separa (distingue) "as águas que estão por cima do firmamento" das "águas que estão abaixo do firmamento", respectivamente chamadas de Mi e Ma. Anick de Souzenelle escreve:
"Simbolicamente, podemos dizer que o Mi é o mundo da unidade arquetípica não manifestada, e o Ma, o da multiplicidade manifestada nos seus diferentes níveis de realidade. A raiz Mi encontrará no grego a sua correspondência na raiz Mu (é o nome da letra M e pronuncia-se mi), que preside à formação das palavras ilustrando o mundo dos arquétipos, tais como muein (miein), 'fechar a boca', 'calar-se', e mueein (mieein), 'ser iniciado'. Toda iniciação é uma introdução ao caminho que liga o mundo manifestado ao mundo de seus arquétipos; ela é feita no silêncio. O mito (muqos) é a história que explica a vida dos arquétipos. As palavras murmúrio, mudo, mistério derivam da mesma raiz.
"A raiz Ma é a raiz-mãe de todas as palavras que significam manifestação (tais como matéria, maternal, matriz, mão, etc.). Cada elemento do 'Ma' é a expiração do seu correspondente 'Mi'. Este repercute continuamente sobre aquele que carrega não apenas a sua imagem, mas sua potência. Nesse sentido, o 'Ma', em cada um de seus elementos, é símbolo do 'Mi'. O símbolo (Syn-bolein: 'lançar junto, unir') une o 'Ma' ao 'Mi'. O Dia-bolein ('lançar através, separar') separa os dois mundos (O grego dia-bolein origina a palavra diabo, assim como o hebraico shatan (obstáculo) origina Satã. O Diabo é a divindade que "separa" o Mi do Ma, trazendo com isso a ilusão do mundo manifesto que aprisiona o homem. Mas esta é a conseqüência lógica do ato criador: a transformação de Satã em vilão é uma idéia posterior, proporcionado pelo dualismo maniqueísta presente na civilização ocidental.), e deixa vagando ao léu o do 'Ma', privado da sua exata referência e da sua exata potência" (O Simbolismo do Corpo Humano - Ed.Pensamento, p.16/7.).
Estas últimas palavras da autora nos dão ensejo para apontar algo essencial acerca da mentalidade dos antigos: visto que o mundo físico, o Ma, é mero reflexo do Mi e por isso ilusório, caberá ao homem restabelecer essa ligação perdida para que possa encontrar seu lugar no Universo. Tal proposta se alcança através da religião (do latim religare), que "religa" o homem à sua essência divina através da iniciação; o alicerce desse trabalho é o mito, que confere as chaves dos mistérios do mundo transcendental. O mito, dramatizado através do ritual, torna possível a religião, que por sua vez proporcionará o reencontro com a verdade primordial através da iniciação.
O homem, como ente pertencente ao Ma, tem como seu protótipo a própria divindade no plano do Mi. A iniciação, por conseguinte, visa identificar o homem a esse modelo divino, onde Homem e Deus serão uma só coisa, um único ser. Embora esta concepção nos lembre a cristã, na qual o homem é feito à imagem e semelhança de Deus, há uma diferença decisiva entre elas: o homem não é um pecador, um condenado desde o princípio que depende unicamente da misericórdia divina, e sim uma peça de vital importância no Universo, pois se constitui num verdadeiro co-participante da Criação. Os gregos chamavam essa classe de homens demiurgos, ou seja, pequenas divindades que participam da obra criadora; cada pessoa cumpriria sua parte nesse trabalho grandioso, pois as suas atividades constituíam-se em reproduções arquetípicas do gesto criador. O agricultor, quando semeava, imitava o Céu ao fecundar a Terra desde tempos imemoriais; o caçador, ao abater sua presa, repetia o deus que matava o monstro primordial, símbolo do Caos existente antes da Criação; o pedreiro, ao erguer um templo ou casa, reproduzia a criação da Terra, pelo divino construtor; o médico, ao curar seu paciente, não eliminava uma doença, mas sim restituía àquele doente a pureza inerente a todas as coisas criadas, uma vez que a doença é sinal de uma desarmonia do indivíduo com o Cosmo. Os alienados, por sua vez, eram os idiotés, que viam seu trabalho como mero meio de sobrevivência, com objetivos unicamente pessoais, sem conseguir captar o seu sentido maior. Dessa forma, acabavam tristemente alijados da grande obra cósmica, a criação do Universo.
Quanta diferença da visão judeu-cristã, que atribui ao homem uma condição de observador passivo e alienado da obra criadora, cabendo-lhe como única virtude a obediência a leis que sequer pode compreender! Uma das seqüelas deste pensamento vicioso consiste no darwinismo social, professado pelas sociedades ocidentais. Baseadas numa distorção da teoria evolucionista de Darwin, as pessoas são induzidas a crer que o mundo é uma gigantesca arena de gladiadores, ou uma selva hostil, na qual "somente os mais aptos sobrevivem". Nosso semelhante, conseqüentemente, é considerado um competidor a quem devemos derrotar, do que dependerá a nossa realização pessoal, gerando conceitos estapafúrdios como "vencedor", "perdedor", ou "chegar lá". Por outro lado, o status de "rei da criação" dá ao homem o direito de dispor do mundo que o cerca de forma perversa, passando da antiga posição de criador ao papel de mero predador da natureza.
A partir do que foi dito acima sobre o demiurgo, podemos perceber a pouca importância do tempo formal para os antigos. A idéia de um mundo criado em determinado dia, num passado distante, é uma idéia relativamente moderna. A concepção de um tempo linear, que corre num ritmo inexorável também é apanágio nosso. O plano do Mi, assim como o mundo do inconsciente, desconhece passado, presente e futuro; o tempo implica em nascimento e morte, transformação, evolução, degeneração, todos estes atributos exclusivos do Ma, ou seja, do ilusório mundo manifesto. Para o homem antigo, tudo o que é verdadeiro pertence ao Mi, e portanto não nasce, nem morre, nem poderá transformar-se. Daí depreendemos que, ao contrário da concepção atualmente difundida, Deus não criou o mundo em determinada data, e sim agora. É agora que Deus assenta as bases do Universo, por isso cabe ao homem, como um "pequeno deus", auxiliá-lo nessa tarefa, e assim se fundir com a divindade maior. Não se trata de que Deus precise de nós, mas de ser ou não ser participante desse processo, de estar ou não em harmonia com esse drama primordial, de representar ou não a divindade sobre a Terra. Tampouco convém discutir se o mundo seria ou não criado sem o nosso concurso - essa especulação consistiria em mais uma inutilidade pseudoracional, tal como discutir o sexo dos anjos; o iniciado, ao cupar o lugar do demiurgo, renuncia à sua própria identidade, tornando-se a imagem de Deus refletida nos domínios do Ma.

(António Farjani - A Linguagem dos Deuses) 

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publicado às 16:35



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