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Um Deus impassível?

por Thynus, em 16.09.13

 

 

Ele foi Auschwitz. Ele foi o Goulag. Ele foi o Camboja. Ele foi o Ruanda. Ele foi Angola. Ele foi o Kosovo. Ele foi Timor Lorosae. Ele..., ele...
A tantos homens e mulheres aos quais foi prometida a liberdade, e eles desafiaram o medo!... Depois, precipitaram-nos no inferno... Dispersaram-nos, deportaram-nos, fuzilaram-nos, massacraram-nos. O terror, o saque, a fuga sem destino, à deriva, o matadouro, o genocídio. Eles gritaram, clamaram, já não havia lágrimas..., atulhados no puro horror, na cegueira sanguinária das trevas, no abismo sem fundo do abandono...
Onde está o homem? Quanto vale um homem?
Perante tanta iniquidade e tanto vómito, assalta-nos a vergonha de se ser homem.
As palavras dignidade, indignidade, direito, justiça, injustiça, vergonha, bondade, nojo, civilização, selvajaria, honra, ternura, compaixão... ainda fazem parte das línguas dos humanos ou foram definitivamente varridas dos dicionários?
"Senhora, tem piedade, tem piedade de nós! Senhora, tem piedade do povo de Timor Leste! Senhora, tem piedade de mim! Eu não falo, murmuro."
Mas, aparentemente, também Deus se mantém mudo.
Será que Deus não tem vergonha? A própria Bíblia a um dado momento, perante o crescendo da maldade humana, reconhece que Deus se arrependeu de ter criado o homem. Arrepender-se também quer dizer ter pena e vergonha.
Nietzsche pergunta se a causa da morte de Deus não foi a compaixão: "Sabes como ele morreu?", perguntou Zaratustra ao Papa. "É verdade o que se diz, que o sufocou a compaixão?... Que, ao ver como o homem estava pendurado na Cruz, não suportou que o amor pelo ser humano se tornasse o seu inferno e, por fim, a sua morte?"
Perante o sofrimento dos inocentes, Ivan Karamazov apressa-se a devolver o seu bilhete de entrada na futura harmonia do universo. Em A Peste, Albert Camus coloca o médico Rieux a dizer ao jesuíta Paneloux: "Não, padre. Eu estou disposto a recusar até à morte amar uma criação onde as crianças são torturadas".
Face à crueldade hedionda e à mesquinhez bárbara e reles dos humanos e à massa incrível da história do sofrimento, sobretudo dos inocentes, para muitos está decidido: Não há Deus!
Mas, aqui, recomeçam as perguntas: Donde vem a nossa indignação? Qual é a fonte da nossa revolta, da nossa rebelião? Por que é que não nos resignamos?
Afinal, criminoso, selvático, horrendo, infame, brutal, insuportável, arripiante, intolerável..., ainda são valorações morais. Indignar-se com Deus, rebelar-se, protestar contra ele, ainda é por exigência moral.
Estamos atenazados: somos seres morais, exigindo o Bem infinito, e comportamo-nos ignominiosamente.
Afinal, como escreveu o teólogo Johann Baptist Metz, "a pergunta a Deus é a piedade da teologia", e, assim, também sabemos que um Deus impassível não seria Deus, mas um monstro. Na cruz de Cristo, Deus revelou-se como aquele que sofre connosco e por nós. Um Deus indiferente à dor só poderia conduzir os humanos à indiferença.

(Anselmo Borges - Janela do (In)Visível)

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publicado às 06:52



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