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Será que o homem é por natureza religioso?
Evidentemente, responder a esta questão é extremamente complexo, pois, à partida, é necessário perguntar se o homem tem uma natureza, o que implicaria algo de estável e fixo. Ora, neste sentido, o homem não tem natureza, pois não aparece feito; pelo contrário, tem de fazer-se a si mesmo, no mundo, com os outros. A natureza do homem é histórica.
Mas, embora seja histórico, o homem possui umas constantes enquanto capacidades a desenvolver, que permitem não só distingui-lo dos animais como constituem também uma realidade transcultural, que faz com que todos os homens, independentemente da cultura e do tempo histórico que lhes é dado viver, formem uma só humanidade. Pergunta-se então se a religião é uma dessas constantes, ao menos enquanto questão.
Podem ser apresentados alguns sinais que apontam no sentido de um vínculo entre ser homem e a religião.
Em primeiro lugar, quando se considera a história da evolução, parece haver consenso no que se refere à apresentação da sepultura como sinal distintivo decisivo na passagem do animal ao homem. O homem é animal sepultante. Ora, não há dúvida de que os rituais funerários sempre estiveram ligados à religião.
Depois, quando se pensa concretamente nas culturas antigas, parece igualmente consensual que elas se compreendiam a si mesmas como tendo o seu fundamento numa raiz de tipo religioso, de tal modo que a antropologia não deixa de sublinhar o vínculo entre o culto e a cultura no seu todo.
Mas não poderá sobretudo ignorar-se que o homem é um corpo que espera. O bebé que vem ao mundo está animado por aquilo que Erik Erikson chamou basic trust, isto é, uma confiança de base, confiança radical, originária, que começa por concentrar-se na mãe, mas que se dirige ao mundo. Se essa confiança for substancialmente frustrada, os estragos no desenvolvimento da criança enquanto processo de se ir aos poucos erguendo até poder dizer "eu" de modo expansivo e integrado podem ser irreparáveis. Por outro lado, como observa o teólogo W. Pannenberg, nem a mãe nem o mundo podem corresponder adequadamente a essa confiança radical ilimitada, que, por isso mesmo, só em Deus, portanto para lá da família, da sociedade e do mundo, poderá encontrar o seu apoio e segurança.
Neste contexto, afirmar Deus não é então também um modo de expressar a confiança no Sentido último, como sugeriu o filósofo L. Wittgenstein?
De facto, como dizia recentemente Marion Graefin Doenhoff, co-editora do conhecido semanário alemão Die Zeit, "o fixar-se exclusivamente no aquém, que corta o homem das suas fontes metafísicas, e o positivismo total, que se ocupa apenas com a superfície das coisas - não podem dar aos homens um sentido duradouro e estável, e, por isso, levam à frustração".
O que aí fica dito não prova, evidentemente, a existência de Deus. Significa apenas que o homem se não compreende cabalmente sem colocar a questão de Deus. Como escreveu o filósofo Theodor Adorno, da Escola de Frankfurt, "o pensamento que se não decapita desemboca na Transcendência".

(Anselmo Borges - Janela do (In)Visível) 

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publicado às 06:45



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