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Exposição no Facebook

por Thynus, em 12.09.13

 

 

Em 2007, Leisa Reichelt, especialista em tecnologia que vive em Londres, cunhou em seu blog a expressão “intimidade ambiental” para descrever a dinâmica do Facebook e de outros novos serviços que permitem que os indivíduos falem livremente sobre si próprios para grupos de amigos ou seguidores. Ela definiu esse comportamento como “ser capaz de se manter em contato com pessoas com um nível de regularidade e de intimidade que você normalmente não teria porque tempo e espaço conspiram para tornar isso impossível”. A expressão foi adotada no mundo inteiro por aqueles que estudam as redes sociais. Em um artigo muito discutido, publicado em 2008 na New York Times Magazine, Clive Thompson detalhou sua própria experiência com o Facebook e o Twitter. Ele explorou as implicações sociais da intimidade ambiental e argumentou a favor de suas virtudes. “Essa nova abertura (...) traz de volta a dinâmica da vida em cidades pequenas, onde todo mundo sabe o que você faz”, escreveu Thompson, em tom aprovador.
A realidade é que nada no Facebook é de fato confidencial. A política de privacidade da empresa é categórica a esse respeito. Qualquer um de seus dados pessoais “pode tornar-se acessível ao público”, diz o texto. “Não podemos garantir, e não garantimos, que o conteúdo de usuário que você postar no site não será visto por pessoas não autorizadas.” Na verdade, essa linguagem destina-se principalmente a defender o Facebook de potenciais processos judiciais. Com certeza a empresa se esforça para garantir a proteção do que se pretende que seja confidencial, mas muitas pessoas não entendem os controles, em geral complicados, do Facebook ou não sabem como usá-los para proteger suas próprias informações. E muitas vezes, isso leva a mal-entendidos e constrangimentos.
Quando as pessoas expõem seu comportamento real no Facebook, aumenta a probabilidade de que algo precipitado ou estúpido que façam se torne “público”. Um jovem funcionário americano de um banco anglo-irlandês pediu ao chefe que o liberasse numa sexta-feira para resolver um inesperado problema de família. Então, alguém postou no Facebook uma foto dele em uma festa naquela mesma tarde, empunhando uma varinha de condão e usando um saiote de bailarina. Todos no escritório, inclusive o chefe, descobriram a mentira. Um político em Vancouver, no Canadá, desistiu de concorrer a um cargo depois que um jornal publicou uma foto no Facebook mostrando duas pessoas que se divertiam puxando a cueca dele. É notório o constrangimento público pelo qual Jon Favreau, redator dos discursos de Barack Obama, passou quando um blog publicou uma foto dele numa festa com as mãos nos seios de uma figura de papelão de Hillary Clinton em tamanho real. A foto havia sido postada no Facebook por um de seus amigos. E o que é divulgado no Facebook pode fazer mais do que apenas envergonhar. Uma pesquisa feita em 2009 com empregadores nos Estados Unidos descobriu que 35% das empresas haviam rejeitado candidatos por causa de informações que encontraram em redes sociais. A razão número um de as pessoas não terem sido contratadas: postar “fotografias ou informações provocantes ou inapropriadas”. Cada vez mais, as faculdades americanas também estão consultando o Facebook e o My Space antes de decidir sobre admissões.
Talvez o presidente Obama estivesse pensando no incidente com Favreau quando falou a um grupo de estudantes do ensino médio no estado da Virgínia, em setembro de 2009. “Quero que todo mundo aqui tenha cuidado com o que posta no Facebook”, disse ele, “porque, nessa era de YouTube, o que quer que você faça será acessado depois, em algum momento de sua vida. E quando você é jovem, comete erros e faz algumas coisas estúpidas.” A adesão ao Facebook está se tornando comum entre crianças cada vez mais novas – hoje, o serviço é utilizado por muitas crianças de 11 anos e até menos, apesar de o Facebook estabelecer que os usuários devem ter pelo menos 13 anos.
No entanto, você não precisa ser jovem para cometer erros no site. Inúmeros incidentes com o Facebook expuseram o comportamento inadequado de pessoas em posições de responsabilidade. Um carcereiro de Leicester, na Inglaterra, foi despedido depois que seus colegas perceberam que ele estava adicionando prisioneiros como amigos. Um oficial de justiça do tribunal da Filadélfia foi suspenso e transferido quando uma jurada informou, na sala de audiências dele, que ele havia pedido para ser seu amigo no Facebook. Jurados também já cometeram erros. Diversos veredictos em várias partes dos Estados Unidos foram contestados por réus condenados quando eles souberam que jurados supostamente obrigados a ficar incomunicáveis haviam postado comentários no Facebook enquanto o julgamento estava em andamento.
Mesmo as pessoas cujo trabalho é justamente manter segredos ficam desnorteadas com o estímulo à transparência do Facebook. Depois de o Reino Unido anunciar, em meados de 2009, que Sir John Sawers seria o próximo chefe da agência de espionagem britânica – o Serviço Secreto de Inteligência (o antigo MI6) –, o jornal Daily Mail descobriu uma preciosa coleção, acessível ao público, de fotos de família que tinham sido postadas pela mulher de Sawer no Facebook. Elas incluíam imagens de férias, amigos, família e detalhes que poderiam revelar onde Sawers morava e como passava o tempo.
A transparência do Facebook pode abalar relações íntimas. Muitos ainda não se acostumaram a ver e saber tanto sobre seus parceiros ou parceiras. Se o seu namorado aparece em fotos com outra garota, pode não significar nada, mas... O pior é quando alguém descobre que não é mais parte de um casal ao ver uma mudança num perfil do Facebook. O resultado pode até mesmo ser trágico: supostamente, um inglês matou a esposa, de quem havia se separado fazia pouco tempo, depois que viu seu status de relacionamento no Facebook ser modificado de “casada” para “solteira”.
As fotos, em particular, podem revelar, como no caso de Sir Sawers, com quem você passa seu tempo, o que faz com essas pessoas e aonde vai. Os estudantes universitários e do ensino médio normalmente abrem a própria vida no Facebook. Travam diálogos pessoais com seus amigos no mural, apesar de qualquer pessoa com acesso ao perfil poder vê-los. Em geral essas informações ficam visíveis para qualquer pessoa na rede de sua escola ou faculdade.
Alguns poucos dissidentes dessa jovem geração acham pouco saudável a obsessão com a construção da própria imagem no Facebook. Shaun Dolan, um jovem de 25 anos que trabalha como assistente em uma empresa de mídia em Nova York, tomou a decisão deliberada de ficar fora do Facebook. “A minha geração é insuportavelmente narcisista”, disse ele num e-mail que me enviou. “Quando saio com meus amigos, há sempre uma câmera presente com o único objetivo de tirar fotos para serem postadas no Facebook. É como se a noite não acontecesse a menos que haja prova disso no Facebook. As pessoas monitoram obsessivamente sua própria página para ver em que fotos elas foram marcadas ou qual a imagem que melhor as representa para seus amigos.”
Alguns chamam esse comportamento de exibicionismo, ou, como diz Brent Schlender, meu antigo colega na Fortune, que se trata de uma busca pela “fama digital”. No Facebook, acompanhamos as minúcias da vida de nossos amigos do mesmo modo que milhões acompanham a vida de Britney Spears na revista People. Andy Warhol disse a memorável frase: “Todo mundo terá seus 15 minutos de fama”, mas no Facebook o que conta não é quanto dura sua fama, mas quão ampla ela é. Pode ser apenas entre um círculo de amigos ou colegas de escola. O teórico da internet David Weinberger diz que “na web todo mundo é famoso para 15 pessoas”.
Muitos jovens parecem não saber quando a autoexposição excessiva passa a ser temerária. Uma funcionária de 20 anos da Petland Discount em Akron, Ohio, postou uma foto de si mesma no Facebook segurando dois coelhos que acabara de afogar. Ativistas dos direitos dos animais ficaram indignados, e ela foi presa e acusada de crueldade. Os adolescentes costumam postar fotos em que eles e outras pessoas estão usando drogas ou bebendo, quando não têm idade legal para isso. Em uma escola do ensino médio de Amherst, Massachusetts, um aluno fez várias fotos de garotos populares bebendo e, possivelmente, fumando maconha, depois as enviou, em bloco, para o diretor da escola e outras pessoas da comunidade. Em outra escola, o diretor entrou no Facebook e suspendeu todos os atletas que apareciam em fotos numa festa segurando garrafas de cerveja. (Aqueles com copos de plástico vermelho na mão foram poupados.)
As interações com os adolescentes por meio do Facebook são motivo quase universal de preocupação para os adultos, pois as duas gerações têm atitudes radicalmente distintas em relação ao que seja um nível adequado de exposição pessoal. Uma executiva de São Francisco foi convidada a ser amiga do filho adolescente de seu sócio. Durante uma viagem de verão à Europa, ele foi a Amsterdã e contou a todos os amigos no Facebook os detalhes das variedades de maconha que estava fumando. Minha amiga ficou num dilema: devia contar ao sócio ou isso seria trair a confiança que o adolescente depositava nela? Uma usuária do Facebook de 60 anos viu o sobrinho xingando de modo violento em sua página e sabia que a escola que ele frequentava, bastante rigorosa, poderia expulsá-lo por isso. Preferiu falar com ele diretamente em vez de contar aos pais. Como a maioria dos adolescentes ainda não adiciona os pais como amigos, algumas famílias têm instituído uma regra: para ter um computador e usar o Facebook, os pais devem ter acesso ao perfil dos filhos. E eles com frequência se afligem com o que encontram lá.

(David Kirkpatrick - o efeito facebook)

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publicado às 17:36



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