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Nos cemitérios, a interrogação

por Thynus, em 09.09.13

 

Quando alguém está concentrado e absorto num cemitério perante a campa de um familiar, de um amigo, está a olhar para onde?, e o que é que vê realmente?
Há talvez algumas imagens entrecortadas que lhe passam de modo fugaz pela mente. Mas, quando olha, verdadeiramente absorto, de cabeça curvada, embora eventualmente com os olhos muito abertos para ver, o que realmente lhe aparece é simplesmente e só um abismo sem fundo e sem fim, um vazio ilimitadamente aberto... Ver não vê nada.
Mas olhar e ver um abismo sem fundo e sem fim e um vazio ilimitadamente aberto, isto é, não ver nada, é o que propriamente se chama ver o Mistério.
Quando se vai ao cemitério visitar a campa de um familiar, de um amigo, presta-se uma homenagem, faz-se uma romagem de saudade... É isso mesmo: de saudade, no sentido mais radical da palavra, já dito na própria etimologia: a saudade refere-se a uma ausência sem nome e sem fim, que nos faz sentir a solidão que nos dói no mais íntimo de nós... Se a etimologia for saltitem dare então trata-se de uma saudação, com o desejo de que quem partiu e anda longe esteja e passe bem. Aí, no recolhimento mais intenso, pode erguer-se, sem palavras, apenas uma súplica, um soluço, como forma de tentar balbuciar o Mistério indizível...
A morte é o mistério pura e simplesmente... Perante ela e tudo o que se lhe refere, é como se caíssemos num precipício, onde se estilhaça a capacidade de pensar... Ninguém sabe o que é morrer. Que instante é esse o da morte, mediante o qual se deixa de pertencer ao mundo e ao tempo?
Mesmo que assistamos à morte de alguém é de fora que o fazemos... Ninguém sabe o que é estar morto. Diante do cadáver do pai, da mãe, do filho, do amigo, do marido, da mulher, não tem sentido dizer: o meu pai está aqui morto, a minha mãe está aqui morta, o meu amigo está aqui morto, o meu marido está aqui morto, a minha mulher está aqui morta... De facto, eles não estão ali... Também é por pura ilusão de linguagem que dizemos que levamos o pai ou a mãe ou o filho ou o amigo ou a mulher ou o marido à sua última morada... Como não podemos dizer, quando vamos ao cemitério, que os vamos visitar... Nos cemitérios, com excepção dos vivos que lá vão, não há ninguém.
Pergunta-se então: Por que é que é um crime nefando em todas as culturas e sociedades a violação de um cemitério, se lá não há ninguém? Afinal o que é que está nos cemitérios?
Nos cemitérios, o que há é uma incontível e inapagável interrogação: o que é o homem, o que é ser homem? O que há nos cemitérios é a afirmação de que, seja como for, a antropologia não é redutível a um simples capítulo da zoologia...
Afinal, para onde foram os mortos? Não será que, como acontece nas guerras, andam perdidos, mas um dia havemos de encontrá-los e encontrar-nos? Para onde vão os mortos? Para o nada? Mas, como perguntava o filósofo Bernhard Welte, que nada é esse: o nada vazio e nulo ou o nada enquanto véu que oculta a realidade verdadeira, como quando entramos num espaço de breu e dizemos: aqui, não vejo nada, o que não significa que lá não haja nada, pois pode até acontecer que lá se encontre o tesouro maior?... Para onde vão os mortos? Para a noite total ou, pelo contrário, para a luz plena, de tal modo luz que para nós é noite, como quando, olhando para o sol de frente, ficamos cegos pelo excesso de luz?

(Anselmo Borges - Janela do (In)Visível)

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publicado às 20:32



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