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A TEOMAQUIA

por Thynus, em 06.09.13

 

Como caíste do céu, luzeiro brilhante, filho da
Aurora, e foste arrojado à terra, vencedor das
nações!

Isaías, l4:12

 

 

Mudando novamente nosso ângulo de visão quanto à cena primordial, veremos não mais um deus lutando contra um dragão, e sim uma verdadeira guerra entre os deuses e seus rivais. A simbologia é a mesma, tanto na guerra de Javé contra as hostes de Lúcifer, quanto na de Zeus contra os Titãs e os Gigantes. Desse modo, as forças do Caos, antes representadas por um animal, aparecem agora sob a forma de um exército rebelde à ordem divina que se impõe.
Do ponto de vista mítico-religioso, toda guerra repete simbolicamente esse confronto primordial, onde o conquistador enxerga no exército autóctone uma imagem das hostes "infernais". Muitas vezes a população autóctone é representada por um dragão (ou por homens com cauda de serpente), morto pelo herói conquistador, como ocorre com Cadmo ao conquistar a Beócia.
Os mitos que versam sobre guerras heróicas, tais como as narradas na Ilíada e no Bhagavad Gita, referem-se também a este arquétipo. O fragor da batalha e o entrechocar das armas reproduzem a fúria dos elementos na massa caótica, e assim como do caos nasce a ordem, depois da guerra surge uma nova instituição, como uma repetição ritual da cosmogonia. Dentro da dimensão do fenômeno, constituem-se as tormentas em símbolos dessa batalha celestial; por isso, os deuses das tempestades são apresentados também como guerreiros. As tempestades trazem a fertilidade à terra, da mesma forma que o caos se constitui no fator fertilizador do Universo. A relação entre essa "batalha" dos elementos e a fertilidade explica a dupla face dos deuses guerreiros, que também abrigam uma vocação agrária; é o que acontece por exemplo com o deus romano Marte, que antes de se constituir em deus das guerras era um deus da fertilidade da terra, ou com a grega Palas-Atena. Tais mudanças nas características de uma divindade ao longo dos tempos não se constitui num processo casual, e sim na alternância entre aspectos simbolicamente interligados que permanecem ora latentes, ora manifestos.
Os rituais agrários freqüentemente juntam esses dois aspectos do símbolo, quando se efetuam danças guerreiras nas quais seus participantes entrechocam armas e escudos. Dentro da Mitologia Grega, esses rituais repetem a dança dos Curetes, gênios da natureza que protegeram Zeus da perseguição de Cronos. Reza o mito que, ao cantar e bater suas armas, os Curetes abafavam o choro do deus-menino para que não fosse ouvido do céu por seu terrível genitor. A simbologia é belíssima, que não cabe aqui expandir: basta que vejamos a algazarra feita nos rituais agrários como uma forma de ocultar às forças destrutivas da natureza o som do desabrochar das sementes, pequenos símbolos do novo deus que irá renovar o ciclo da vida na Terra.

(António Farjani - A Linguagem dos Deuses)

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publicado às 03:39



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