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GUERRA CONTRA O SALEIRO

por Thynus, em 03.12.12

A palavra “salvação” vem de “sal”. A palavra “salário”, também. Isso nos remete ao duplo significado do sal em nossas vidas, em primeiro lugar ao significado simbólico. Em muitas culturas o sal é visto como um antídoto contra os maus espíritos (tanto que derramar sal dá azar). Jesus chamou seus discípulos de “Sal da Terra”. Os índios pueblo têm uma divindade conhecida co
mo a Mãe do Sal.
Essa veneração corresponde a uma necessidade orgânica; nosso corpo precisa de sal, uma lembrança biológica de que a vida se originou no oceano. O historiador Marc Bloch diz que a civilização começou em regiões situadas próximo a desertos por causa dos depósitos naturais de sal ali encontrados. Daí o segundo significado do sal, o significado econômico. Os gregos trocavam escravos por sal e vice-versa. Os romanos pagavam os soldados em sal (o “salário); daí vem a expressão “Fulano não vale o seu sal”. Na Idade Média, enormnes caravanas atravessavam o deserto do Saara com a sua carga de sal.
Os governos logo aprenderam a tirar proveito desse comércio, criando impostos sobre o sal. Na França, esse imposto, a gabelle, foi umas das causas desencadeantes da Revolução Francesa. Na Inglaterra, por causa de um imposto semelhante, havia um mercado negro do sal. Na Índia dominada pelos britânicos, Mahatma Ghandi liderou um original movimento de protesto: uma enorme multidão foi até o mar com a finalidade de trazer sal (não taxado).
Hoje em dia, o problema não é a falta de sal, é a abundância. O sal ficou relativamente barato; é usado em excesso. E isso tem consequências para a saúde.Todo o mundo sabe que existe uma associação entre sal e hipertensão arterial. Uma dieta rica em sal aumenta a pressão tanto em animais quanto em pessoas. Há pessoas que têm uma “sensibilidade” maior ao sal: obesos, idosos, negros.
E não se trata só de hipertensão; existe também o risco de doença cardíaca. Como acontece no caso do tabaco e do álcool (que, no entanto, não são componentes naturais do organismo, ao contrário), existe uma campanha da indústria para contestar os efeitos prejudiciais do sal. Nos Estados Unidos, o Salt Institute mantém uma longa polémica com os institutos nacionais de saúde daquele país, alegando que tais efeitos ainda não foram devidamente comprovados. Um dos trabalhos feitos nesse sentido teve autoria do pesquisador David MacCarron, acusado pelo Center for Science in the Public Interest de ser financiado pelo Salt Institute e pela indústria de salgadinhos.
Divergências à parte, parece haver um consenso de que é preciso diminuir o consumo de sal. Em primeiro lugar, por uma dieta adequada, a DASH (Dietary Approaches to Stop Hypertension): muita fruta, muitos vegetais, pouca gordura. Depois, é preciso evitar salgadinhos e temperos salgados. No preparo do alimento, o sal só deve ser adicionado no fim do cozimento. O saleiro tem de ser banido da mesa e colocado bem longe.
Atenção: não se virem para olhá-lo. Lembrem-se do que, na Bíblia, aconteceu com a mulher de Lot, que resolveu mirar Sodoma: virou uma estátua. De sal, claro.
(Moacyr Scliar – O Olhar Médico)

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publicado às 14:45



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