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Coitadas das Mulheres!

por Thynus, em 23.08.13
A noção de ideologia veio mostrar que as teorias e os sistemas filosóficos ou
científicos, aparentemente rigorosos e verdadeiros, escondiam a realidade social,
econômica e política, e que a razão, em lugar de ser a busca e o conhecimento da
verdade, poderia ser um poderoso instrumento de dissimulação da realidade, a
serviço da exploração e da dominação dos homens sobre seus semelhantes. A
razão seria um instrumento da falsificação da realidade e de produção de ilusões
pelas quais uma parte do gênero humano se deixa oprimir pela outra.
(Marilena Chaui - Convite à Filosofia)
 
Quem domina o sexo de uma pessoa, domina a pessoa inteira
 
As mulheres sempre foram um grande problema na vida dos "machos": ou salvam, ou destroem. A história nos mostra que não há meio-termo. Ora, tratando-se de ideologia do poder e do poder que é exclusivamente dos machos, é evidente que a "fêmea" devia sempre estar rebaixada e enjaulada.
É por isso que por milhares de anos ela teve que ficar dentro de casa, longe da escola e das repartições públicas. Foi depois da II Guerra Mundial que o feminismo surgiu. Surgiu? Só em alguns países e parcialmente. O instinto do macho não confia na mulher. Mesmo quando diz que a ama, sabe-se que é um amor interessado, ou é pura atração sexual.
E com os eclesiásticos deu-se a mesma coisa — diferentemente, muito diferentemente, do Mestre Jesus. Aliás, pelo que eu sei, só dois homens aceitaram as mulheres ao seu lado professando-lhes respeito, afeto e estima: o faraó Akhenaton, que fez questão que Nefertite sempre estivesse ao seu lado, sobretudo na pequena escola de filosofia que ele fundou; e Jesus Cristo, que fez questão de ser acompanhado nas Suas viagens apostólicas por um pequeno grupo de mulheres que o ajudava.
Jesus era grande amigo de Marta e de Maria, em cuja casa costumava descansar, e de muitas outras que são apenas lembradas.
Mas os "vigários" de Cristo se tivessem tido autoridade suficiente teriam feito das mulheres outras tantas dependentes.
E o primeiro que escreveu quanto é perigoso a mulher, dentro da ideologia do poder, foi o bispo Clemente romano, que lá pelo ano de 95 d.C, nos deixou escrito: "Nós eclesiásticos não vivemos com mulheres e nada temos a ver com elas; não comemos e não bebemos com elas e não dormimos lá onde elas dormem". (Cap. I); "aliás, não pode haver nem mesmo uma mulher, lá onde nós passamos a noite; seja ela pagã ou cristã" (cap. II).
Não se trata só de subentender que a mulher é um perigo, sempre; trata-se de afirmar um estilo de vida superior que deve ser típico de qualquer chefe de cristãos: por acaso, não devem os cristãos formar um exército disciplinado e obediente aos seus chefes -como o exército romano?
Ora, os chefes dos cristãos são os "presbíteros" (anciãos) e o presbiterado ê um "status superior uma posição hierárquica superior, pois são eles que mandam. Assim Clemente romano.
Mais tarde encontramos o bispo de Roma, Sotero (166-175), que tendo entendido muito bem a ideologia do poder, apercebeu-se que este poder estava sendo ameaçado justamente lá onde estava o seu centro: o altar.
Eis, então, que escreve: "Fomos informados que há entre nós mulheres consagradas a Deus que têm tocado nos vasos sagrados e nas vestes sagradas. Ora, tal conduta merece desaprovação e censura. Portanto, ordenamos que essas mulheres acabem de agir assim e que vós impeçais que essa praga se propague por todas as províncias". (I. Raming; "Der Auss-chluss der Fran vom priestlichen Amt"; 1973; pág. 9).
Já pensou o leitor? As freiras começam acariciando as sagradas vestes sacerdotais... E acabam no altar! Ora, a história das religiões nos ensina que o altar sempre foi o lugar exclusivo dos machos desde que os homens se entenderam como gente! (W. Schmidt; "Die Mythologie der austronesischen Voíker"; Vien; 1909; introdução. Ver também: M. Eliades: "Histoire des croyances et des Idées religienses"; Payot; Paris; 1976; todo o I volume).
Agora o que mais choca nesta carta de Sotero (que alguns historiadores dizem que parece mais tardia) é o fato de dizer que.este abuso é "praga". As mulheres que vestem de carne humana uma alma, formando assim um ser humano, não podem mexer nas vestes litúrgicas... É muita incompreensão eclesiástica!
O bispo Sisto H (25 7-258) pede que o homem que é revestido de poder não deve ser levado por nenhuma emoção no trato com as mulheres e até com sua esposa: "aquele que ama apaixonadamente a sua esposa é adúltero". Mas o pior é que Sto. Tomás de Aquino repete a mesma idiotice na "Summa Theologica" (n/11; pg. 54; a. 8).
Mais tarde, o bispo de Roma Leão Magno (440-461) na carta 14°, c. 4, exige que diáconos e subdiáconos que por acaso tivessem uma esposa, vivessem com ela como se ela não existisse. O que é isto? Ele explica na carta l67°, n°3:"para que transformem seu casamento carnal em casamento espiritual; devem possuir suas esposas como se as não possuíssem, de modo que o amor conjugal seja preservado, mas o ato conjugal seja interrompido".
Que besteira é essa? Leão Magno explica no sermão 22°, 3: “todo ato conjugal é pecado”. Gregório Magno retomará esta idéia escrevendo ao bispo Agostinho da Inglaterra. (Cfr.: "Responsum Gregorii").
A conseqüência é lógica - o grito dos bispos de Roma: "Oh vós todos que compartilhais da ideologia do poder eclesiástico, afastai essas mulheres para que não roubem o nosso poder!”
É por isso que o bispo de Roma Gelásio [422-496] considerava o serviço das mulheres no altar como um grande perigo para o sacerdote. Escrevia ele: “Conforme descobrimos, para a nossa raiva, os sacerdotes são tão idiotas que até deixam que as mulheres sirvam no santo altar de modo que aquilo que somente o homem pode fazer, agora, ouço dizer que também as mulheres têm o direito de fazer”.
Em 658 o sínodo de Nates retomou e reforçou as palavras do papa Gelásio, proibindo terminantemente a mulher no altar.
Pouco mais tarde, temos o papa Gregório Magno (590-604) que confirmou Gelásio.
Mulher menstruada sempre foi e ainda é na maioria dos lugares deste planeta o grande problema de qualquer cultura. Os primeiros cristãos proibiam que as mulheres menstruadas recebessem a Eucaristia.
O patriarca Dionísio de Alexandria, por exemplo, no ano de 260, dizia que seria um despropósito dar a santa hóstia a uma mulher menstruada.
Em Roma e em outros lugares, era a mesma coisa, "porque a menstruação decorre do pecado" (décima resposta ao bispo Agostinho da Inglaterra, de Gregório Magno).
O mesmo Gregório Magno nos "Diálogos" (IV, 11) exige que uma vez ordenados "os padres guardem suas esposas como se fossem irmãs e se acautelassem com elas como se fossem inimigas".
Gregório certa vez escreveu uma carta (Ep. 60a) aos bispos de seu patriarcado para que afastassem de sua convivência não só as parentas, mas também suas mães: "Os eclesiásticos não devem permitir que nem mesmo a mãe, a irmã, ou a tia, vivam em casa com eles porque já tem acontecido atos de incestos".
Mas não era o incesto que preocupava numa época em que eram raríssimos os eclesiásticos que não tinham amantes! O que preocupava era o fato de um possível domínio da mulher sobre o sacerdote.
O primeiro passo da ideologia do poder eclesiástico é dominar a mulher para que ela não domine o homem. O segundo passo é dominar o sexo, pois, dominando o sexo domina-se tanto a mulher como o homem; ou seja, o casal. (Sem contar que quem domina o sexo de uma pessoa, domina a pessoa toda!!!).
No célebre "Responsum Gregpri rii ".Gregório Magno trata com extensão sobre o tempo o modo e as circunstâncias do ato sexual entre marido e mulher (note-se bem: casados legalmente!) e afirma de vez: "O prazer sexual nunca ocorre sem pecado".
Observe-se que esta sentença durou até pouco tempo atrás quando, no século passado, Santo Afonso de Ligório afirmava, num primeiro tempo, que o ato sexual com a esposa menstruada era pecado mortal e, anos mais tarde, que era, pelo menos, um pecado venial.
O tema do pecado, seja mortal ou venial, está sempre ligado ao chamado "poder das chaves", pois só o sacerdote tem o poder de perdoar. (Com efeito, estas "chaves" estão no bolso dos eclesiásticos!).
Mulher, sexo, pecado, inferno serviram muito bem para construir e sustentar a ideologia do poder eclesiástico dos bispos de Roma: uma ideologia que será muito difícil mudar...
Veja João Paulo II proibindo definitivamente o sacerdócio das mulheres... Como se o fato religioso fosse subordinado ao fator biológico! São exigências da ideologia do poder eclesiástico.

(Carlo Bússola - A História dos Papas. A verdade sobre a origem da Igreja Romana)

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publicado às 21:19



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