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Até que se acabe o tempo

por Thynus, em 19.08.13

 

 
A flor não nasce no ar, antes precisa de nascer o pé e antes dele a raiz, que não acontece se não houver semente. A enorme sequóia, de quarenta metros de altura, é em tudo igual, gerada de semente minúscula, que enterrada dá raiz, caule, folhas e cresce, cresce, afrontando o céu, lá bem alto, como que querendo tocar as nuvens, lamber a chuva antes de tudo e de toda a gente.

O canto do rouxinol, todos os seus trinados, que envergonham o compositor mais dotado, nunca seria ouvido se antes, não existissem macho e fêmea, se não se tivessem amado, se não gerasse o ovo, se não tivesse construído o ninho, se não encontrassem o beiral, a torre da igreja ou o tronco daquela árvore.

Os deuses que veneramos, a quem pedimos tanta coisa, a quem suplicamos, a quem culpamos das nossas desditas, a quem agradecemos as alegrias e os sonhos realizados, não existiriam nas nossas mentes se não houvessem homens que os imaginaram, que os criaram, que escreveram as suas leis, que encenaram os seus milagres, que os adoraram, que arrastaram as multidões com promessas de melhores dias, criando enigmas com o que não entendem, arranjando quem culpar para afastar os ódios.

Tudo, mesmo tudo, acontece com uma cadência, com um ritmo, obedecendo a uma certa ordem para que se cumpra, para que seja possível, para que se gere o necessário, sem se alterar o seu calendário, provocando estas cadeias, estes factos ou não factos.

Nesta cadência, neste ritmo, nesta ordem, existem intervalos, esperas, consumidas sempre da mesma maneira, para que nasça, para que cresça, para que viva, para que definhe, para que morra. Tudo atravessa este caminho, tudo segue o mesmo destino, tudo começa e acaba igual, e repete-se, e repete-se, enquanto dura, enquanto existe.

Cada ciclo que se completa pode ser medido, calculado do princípio ao fim, uma vez, e mais outra, porque também isso aprendemos a fazer, a avaliar, a tentar alterar, porque precisamos sentir-nos superiores, na nossa ânsia de tudo sabermos, de matar todos os mistérios, de adorar e criar tantos mitos sobre o que não conseguimos explicar, recusando-nos a aceitar que exista quem viva melhor que nós, num outro qualquer lugar.

Para que tudo se cumpra, tem que ser assim. Por isso o homem inventou o tempo, na ilusão de que se não existisse, tudo se baralharia, a natureza desistiria de marcar os ritmos, como saberíamos se não seriamos homens antes mesmo de nascer?

Então nasceu o tempo!

E o homem fez o tempo à sua semelhança, imperfeito, incapaz, estupidamente inexorável. Fez um tempo que não espera por nós, que marca um compasso que nunca abandona, seja a valsa que se ouve, um “paso doble”, ou o quente tango. O tempo corre e não volta, só tem um sentido, anda em frente, não pára, não descansa, ignorando que deveria ser lento e “largo” quando nascemos, deveria parar quando amamos, aguentar a felicidade no infinito e correr num segundo quando morremos.

Eu não gosto do tempo. Eu não conto o tempo. Eu vivo sem tempo. Faço tudo isto, mas sei que o meu tempo está a contar, que já vivi muito tempo, que já corri contra o tempo, que já desperdicei muito tempo, que já não me resta muito tempo, que já aproveitei bem o tempo.
Sei que amei cada qual a seu tempo, que chorei por algum tempo, que sofri por muito tempo, que dormi o mínimo tempo, que estudei quando não tinha tempo, que escrevi a maior parte do tempo, que pintei nos intervalos do tempo.

Tudo isto fiz sem o medir, sem o calcular, sem querer saber se o estava a desperdiçar, porque sou imaturo, porque não cresci, porque a loucura não me deixa parar, porque o amor é para se viver e a vida para se admirar.

Por isso não quero saber se AMAR-TE é por muito tempo, se QUERER-TE é perder tempo, se DESEJAR-TE está fora do tempo, se ADORAR-TE não tem tempo, se RECORDAR-TE é recuar no tempo.

Nada disto me importa. Não quero saber do tempo, não o inventei, não o vivo, não o temo, não me intrometo, não o afronto. IGNORO-O.

Por isso continuo a AMAR-TE, por isso te ADORO, por isso te DIGO, e a cada dia o REPITO, sem me cansar, sem pensar, ignorando os avisos do TEMPO, que a cada momento se está a esgotar, porque SONHO, e aí, nesse lugar escondido na minha mente, não existem relógios, não existe TEMPO, apenas uma doçura infinita que não acaba mais, uma felicidade enorme que me invade, um calor imenso que me queima, uma saudade que me espevita, e todos os teus momentos que nunca esquecerei, até… QUE SE ACABE O MEU TEMPO.
 

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publicado às 22:04



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