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EMPATIA E FANTASIAS NA SAÚDE

por Thynus, em 01.08.13

 

Não há caminhos fáceis para o homem quando se trata de conhecer a si mesmo, pois há muitas imagens violentas e desagregadoras, vividas com a qualidade sensitiva do real quando são conectadas, que jazem em nosso universo interior.
Por isso mesmo se postula terapêutico um aprendizado, de modificação de clichês, ratificando o que há de saudável em nós e reduzindo a força daquilo que, pertencendo a nós mesmos, pode nos aniquilar.
Existem muitos caminhos de auto conhecimento, em geral conhecemos melhor aqueles vindos da sabedoria oriental. Nesses processos sempre há mestres e discípulos e um longo caminho a ser percorrido, tal como no treinamento dos curadores primitivos, que intuíram essa constituição psíquica humana.
Na atualidade podemos perceber que as pessoas buscam este tipo de conhecimento e a pressa que tem nos resultados. Particularmente, não acredito em meios fáceis para se ampliar a própria consciência e o nível de saúde mental. Muita seriedade é necessária quando se trata de oferecer meios de acesso ao inconsciente que não sejam aqueles guiados pela própria intuição, o sentido de si próprio no nível subjetivo do termo.
Quem está doente pede ajuda a alguém e a ciência deixou muito espaço em branco quando tratou de tornar-se exata, fria e matemática. O sentimento básico de quem está doente é o desamparo e qualquer um que ofereça alívio para isto será ouvido.
Acredito que a medicina esteja diante de tão fortes evidências de suas lacunas na forma de tratar a alma de seus pacientes, que precisará mudar.
Quem fala de saúde, fala de qualidade de vida. Infelizmente, não a temos num nível tão abrangente, nem podemos estender a uma parcela maior da população os benefícios conquistados pela inteligência da espécie. Assim, para muitos a simples sobrevivência inda resulta a principal questão; mesmo tomando essa realidade é necessário avaliar também a subjetividade humana.
Não é bom para os médicos tratarem seus pacientes como um corpo apenas, pois esta é uma visão parcial e só pode obter um resultado parcial, gerando insatisfação, mesmo que, no estágio em que muitas populações se encontram, a abordagem de suas questões orgânicas já represente um passo muito adequado.
A prática médica é uma fascinante mistura de ciência e arte e nenhum destes aspectos pode ser negligenciado. Há muito de arte em tratar o homem, pois há muito de fantasia, estética e sensibilidade nele. É uma figura gigantesca, cheia de nuances e de possibilidades. Muitos são seus caminhos internos e seus desvios, suas luzes e sombras se refletem sobre seu corpo, seu comportamento, sua capacidade, sua energia.
Alguém, para tratar de outro, precisa conhecer um oceano e pretender entendê-lo, ouvir sua voz, saber de que precisa, que males o afligem, e para isto a objetividade não basta, é necessário lançar mão de algo mais.
Claro está que algumas doenças guardam mais que outras a relação intima com a alma, mas todos os pacientes que vemos têm uma história pessoal, eventos de emoção e fantasias poderosas.
Somos um pouco do que somos, já antes de nascer: a síntese da herança de nossos ancestrais humanos e pré humanos, escolhida pelas múltiplas possibilidades da genética, determina uma combinação única que é o nosso centro, o miolo do ser e a isso vai-se sobrepondo a experiência externa, em especial a interação com outros seres.
Temos uma carga de fantasias que são herdadas e às quais se ajuntam as que são adquiridas nas vivências posteriores, sobretudo nas infantis enquanto ainda somos mais moldáveis, uma certa permeabilidade, no entanto, existe ao longo de toda a vida. Se assim não fosse não existiria o tratamento capaz de retificar essas fantasias quando produzem doença, usando a plasticidade da alma humana e a capacidade de amar. Lembrando aqui novamente Freud, quando diz que “estamos fadados a cair enfermos sempre que, por razões internas ou externas, estamos impedidos de amar”.
A fantasia que mais freqüentemente mobiliza a tenacidade, a vibração, a confiança e a vontade de estar vivo é a fantasia amorosa. Seja por alguém ou algo, é ela a o motor da criação e do equilíbrio interno humano e, por conseguinte, do externo.
Manter tal estado é a parte delicada da questão. Criar uma expectativa mais promissora e reforçar a capacidade de emergirmos de nossas dificuldades e criar boas situações, precisa ter força para se manter. E o ambiente pode ser cruelmente hostil ao desenvolvimento e sustentação destas capacidades.
Um ambiente que auxilie na sustentação destas capacidades, através da mobilização das fantasias correspondentes, é indicado num tratamento psicológico e muito provavelmente benéfico quando a questão seja agir sobre um mal físico.
O quanto as fantasias podem mobilizar a saúde e a enfermidade é algo difícil de mensurar, passa mais por convicção do que por dados estatísticos, ou exames laboratoriais e de imagem. Não há imagens confiáveis da emoção, nem como compará-la em seus diversos momentos com o desenvolvimento de um processo patológico ou sua cura. Estes são dados que faltam a medicina.
Há casos dramáticos de limite, quando a medicina desiste dos pacientes e eles não desistiram de viver. É preciso tentar outra coisa, geralmente isso fica a cargo da fé ou de não médicos. Mas nós também sabemos lidar com o espírito e podemos aprender mais se prestarmos atenção, se tivermos a tenacidade e coragem de tentarmos também uma abordagem não física para algo orgânico.
Se há um acesso da mente para o corpo capaz de fazê-lo adoecer, precisa haver uma influência somática no psiquismo. Ou não faria sentido, se isso não existir toda a lógica de influências recíprocas está desafiada.
Se pensarmos no quanto as pessoas podem estar conectadas pelos fios invisíveis da mente, especialmente quando há entre elas uma forte vinculação afetiva, somos obrigados a entender que a antiga sabedoria dos curadores está correta, e que é preciso abordar mais que o paciente todo seu ambiente, seus relacionamentos e as fantasias que transitam por aí.
O passo mais óbvio é não subestimar a toxicidade dos afetos, nem seu poder reparador.
Tal como procuramos o pulso e os batimentos cardíacos, a respiração e a cor da pele como sinais de vitalidade orgânica, o sorriso e as lágrimas são sinais do subjetivo, que como os sinais físicos indicam um nível de vitalidade do sujeito.
Uma das piores coisas que se pode encontrar num paciente é uma nível mantido de tensão e apatia. Esses são péssimos sinais. Mesmo assim é preciso avaliar a capacidade de resposta a um estímulo positivo. Se você estimula e ele responde, a subjetividade está viva e capaz de recuperar energia.
Algumas vezes é muito difícil encontrar este ponto de estímulo. Em geral precisamos usar medicamentos psicoativos nestes casos, pois não há como esperar uma resposta interna em intensidade e tempo hábeis, ou porque o nível de vitalidade está muito comprometido, ou porque o nível de tensão é excessivo para que se possa estabelecer um contato com as partes mais saudáveis da personalidade.
O quanto as fantasias são poderosas e, o quanto somos hábeis em movê-las no sentido desejado com fim de cura, são questões relevantes para nós .Talvez usemos pouco esse recurso terapêutico.
Ao falar em poder da fantasia e em sua mobilização como método de tratamento não me refiro a ilusionismos, algo mais profundo deve ocorrer que simples repetições de mensagens positivas. É necessário conhecer as crenças mais arraigadas no paciente e as mais ativas no momento do adoecer e no curso da doença, entendendo que interferências podem ter nestes processos.
Trata-se de uma forma de tratamento que utiliza simplesmente ( e tão complexamente) a emoção. Desintoxicar emocionalmente e gradualmente substituir crenças e sensações vigentes por outras mais agradáveis é restabelecer o pulso da subjetividade organizadora do cosmos humano.
Entender o que se passa no corpo que possa afetar a saúde como um todo é mais fácil, estamos lidando com o concreto, ao menos até uma boa parte da investigação. É mais fácil ter respostas sobre a química corporal do que avaliar a subjetividade, porquê demanda mais tempo de contato entre o paciente e o médico. Essa é uma das razões porque não se usa muito essa via. Somos uma medicina que tem alguma pressa e às vezes se torna superficial por conta dela. Outra razão, é que avaliar a subjetividade do paciente requer uma elevada capacidade empática, muito mais que o referencial teórico, embora este seja fundamental. É preciso ter olhos de ver a emoção, em que momento se desperta, com que se conecta, ler a fantasia é necessário para poder movê-la. E usamos menos os atributos da racionalidade e mais a capacidade de perceber a linguagem emocional do outro, que se arranja de forma diferente mas, usa o mesmo alfabeto em todos nós. Este processo é mais sentido do que pensado, e exatamente por isso pode ser tão mais exaustivo.
Estar frente à frente com o doente e receber dele essas informações profundas por um bom tempo, ler os sinais que emite, nos expõe a uma certa toxicidade da qual precisamos então nos resgatar para ir adiante.
A expectativa do médico, o quanto realmente lhe interessa a cura, suas próprias fantasias em relação a poder agir sobre determinada condição, são determinantes para o sucesso do tratamento. O quanto o professor deseja ensinar e confia em sua capacidade para fazê-lo influi na aprendizagem, e com o médico não é diferente. Nos dois casos é preciso um fluxo de interesses, um deve ser capaz de mobilizar no outro o desejo de vitória sobre as condições desfavoráveis. Acreditamos que se pode agir sobre uma patologia e buscamos firmemente fazê-lo, então o paciente entende que está sendo ajudado e se identifica com essa força que provém do terapeuta.
Por isso, não nos podemos deixar influenciar pela fantasia negativa do paciente a seu próprio respeito, precisamos ter a autoridade de afirmar que a parte que deseja curar-se deve e pode assumir o comando dessa situação. Precisamos acreditar nela para que possa crescer, para que possa despertar. Ainda assim, não temos uma forma de afirmar qual será o resultado da batalha, mas o espírito com o qual a enfrentamos é fundamental.
Uma expectativa lúcida e positiva precisa ser mantida e transmitida ao paciente.
Quando nos procura, ele o faz movido pelas suas fantasias de cura e é preciso preservá-las como o mais precioso de seus bens, mesmo que esteja frágil, encoberta e empoeirada. Pois, se não a tivesse mais, estaria morto. ASSIM COMO NÓS MÉDICOS, QUANDO PERDEMOS NOSSAS FANTASIAS DE PODER CURAR ESTAMOS MORTOS PARA ESTA PROFISSÃO.
Isto me parece muito importante. Podermos manter nossas fantasias mais saudáveis, que envolvem a capacidade de vencer circunstâncias desfavoráveis e de persistir numa direção de êxito é a forma como
podemos trabalhar. Sempre dizendo que fantasia é algo mais profundo que devaneio, não é fugir da realidade, é a nossa realidade interna.
Quando digo fantasias de poder curar não me refiro a alguém que se atribua poderes indevidos, refiro-me a uma capacidade de insistir em algo pela vida. Algumas vezes a desesperança contida nas fantasias do paciente nos contamina.
Podemos sentir simplesmente como algo nosso, pensar que tem a ver com as nossas vidas, nossas crenças mais profundas podem contaminar-se neste contato com a doença.
Adoecer envolve, necessariamente, uma boa dose de fantasias de derrota, destruição, morte.
Daí vem a toxicidade da área médica. Não se pode lidar tanto e tão proximamente com o que é doente sem alguma forma de contágio, que precisa manter-se sob controle e ser sempre menor que nossas crenças mais positivas e alicerçadas no instinto de vida.
Os Kereis conhecem esta toxicidade, a medicina que usa a magia conhece estes princípios todos e os atribui a espíritos. De certa forma o são. Se pensarmos que o doente é a soma de todos os fragmentos de Ego que herdou, que em seu inconsciente existem milhões de fantasias que correspondem a registros favoráveis e desfavoráveis, não só de sua existência mas daqueles que o precederam, estes serão os bons e os maus espíritos para a medicina primitiva.
Desde esse ponto de vista, o que fazemos é afugentar maus espíritos e atrair os bons. Transformar a fantasia, esgotar sua energia, despertar outras mais favoráveis, eis o que tentamos fazer.
Esses curadores da Polinésia crêem que a saúde depende de estarmos acompanhados de bons espíritos, no que se pode usar uma analogia com as fantasias mais saudáveis. Se alguém não vive com alegria e abundância ou repouso adequados, os bons espíritos dos ancestrais vão-se embora, então ela adoece. Admitem que há doenças diferentes quanto a causa e, que algumas não obedecem a este mecanismo.
Há muitas influências que são percebidas como estranhas a nós porque provém de partes de nós mesmos que nos são desconhecidas. Uma parte pequena é conhecida. Em parte porque somos treinados a nos distanciar de nossos aspectos mais autênticos, em parte porque muito do que somos está oculto para o tipo de percepção que usualmente temos.
Os povos primitivos têm um sistema de vida e de percepção que se relaciona mais intimamente com seu inconsciente, individual ou coletivamente. O reino desconhecido de nossa mente ignora a lógica e está sempre presente mas cede espaço, no homem civilizado, ao racional e ao convencional.
Uma das maiores forças desse universo interior é sua capacidade criativa. Se esta não encontra um modo de expressão, uma grande quantidade de energia ficará represada e gerará tensão. Assim, todos os desejos que reclamam satisfação e pressionam por realizar-se sem encontrar um meio, comprimem o psiquismo produzindo uma desorganização de seu fluxo. Mas, este é forte demais para que permaneça silencioso, o resultado é uma enfermidade, tenha ela um caráter orgânico ou não, e em geral há um misto delas. Muito dos desgastes físicos que se alcança em determinada fase da vida têm origem nesse funcionamento forçado, contra a correnteza, bem como em hábitos nocivos à saúde.
Originam-se na incapacidade de controlar o nível de tensão psíquica e na impossibilidade de encontrar uma via alternativa de satisfação. Para isso existem causas culturais, formação de hábitos desfavoráveis, mas em grande parte uma forma de ansiedade e incomodidade psíquica mantida que nos faz doentes.
Por todos estes fenômenos subjetivos que compõe o adoecer, a relação médico paciente passa por algo mais abrangente que a relação técnica, é uma interação direta de dois inconscientes onde o papel do médico é, através da empatia, entender o que se passa no íntimo do paciente. Conhecimentos científicos são bons e necessários, mas só isso não basta para nós.

(Manoelita Dias dos Santos - "A lógica da emoção, da psicanálise à física quântica")

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publicado às 23:13



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