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SONHADORES

por Thynus, em 31.07.13

 

 

Toda a grande mudança ocorrida na trajetória humana resultou em nos tornarmos sonhadores. Sonhamos e construímos nossos sonhos, que às vezes se revelam pesadelos. Somos seres que constróem no mundo ao seu redor os desejos e fantasias que povoam seu interior. Só quando sentimos estar no caminho de criar aquilo que brota de nossos mais profundos anseios nos sentimos realmente felizes e entusiasmados, achamos que a vida tem valor. Não queremos apenas comida, abrigo e alívio para a dor. Queremos nos sentir inseridos num grupo. Queremos diversão e beleza, arte e troca. Universo rico e louco que somos precisamos ter a chance de manifestar nosso atrevimento frente à vida e tomá-la em nossas mãos. Sentirmos, tanto quanto possível, que somos agentes do nosso viver. Superar nosso desamparo infantil e contar conosco, com nosso discernimento e toda a consideração que temos por nós mesmos e que nos leva a buscar um estado que denominamos felicidade.
Somos todos loucos varridos quando atentamos contra isso qualquer que seja a explicação que tenhamos para produzir sofrimento.
Não se trata de uma frenética busca ao prazer, de uma sociedade hedonista cuja desenfreada busca de satisfação desrespeita a condição humana. Saímos de um extremo de falta de liberdade e sacrifícios duramente impostos, para a cultura da satisfação imediata, onde vale tudo. O próximo passo deve ser o equilíbrio. Este que por ora não estamos encontrando. Precisamos continuar nos esforçando para descobrir quem somos, como funcionamos, qual é nossa natureza e nossas reais necessidades.
Mais e mais pessoas começam a se questionar sobre a forma como vivemos. Mais e mais denúncias e protestos surgem sobre situações falsas e danosas. Estamos nos tornando mais conscientes do que nunca de tudo o que nos faz mal. Em todos os cantos do mundo pessoas buscam alternativas para uma vida mais saudável, cada grupo com uma visão, todos podem ter uma contribuição importante a dar.
O grande benefício do conhecimento dos modos de vida de todas as culturas, proporcionado pela moderna tecnologia da informação, é justamente mostrar-nos quem somos, onde estão nossas falhas e acertos.
Já não é possível viver no mundo pequeno de cada comunidade. Temos uma consciência crescente de espécie e dentro dela uma certeza de sermos indivíduos com direito ao respeito àquilo que em nós é autêntico.
Nos próximos anos estaremos cada vez mais dispostos a descobrir o que serve e o que não serve para nossas vidas, como afinal, queremos viver.
A força de muitos equívocos vem caindo e a liberdade sendo conquistada, embora não igualmente para todos. Mas a educação se expande e ela pode ser um meio eficaz de desenvolver o senso crítico do indivíduo e sua capacidade de interação positiva com o mundo.
Não queremos mais mentiras e limpá-las tem nos custado bastante. Há feridas expostas e isso, num primeiro momento é doloroso e chocante. Estamos em meio a uma descoberta de nós mesmos como grupo e como indivíduos. Vivemos uma situação de crise, mas elas servem ao crescimento. Temos uma tendência a escamotear, esconder e deixar como está, até que todo mal estar fique muito evidente e a crise se instale. Então, por algum tempo, tudo será questionado e reavaliado e nosso mundo parecerá caótico. Passada esta fase de angústia e às vezes desespero, caminharemos para algo mais satisfatório aprendendo com nossa dor e resgatando nossa identidade.
No futuro não concordaremos mais em vender nossas almas a nenhum tipo de engano e não participaremos de nenhuma falsidade. Compreenderemos finalmente que temos o direito básico à saúde, aquela cujo conceito é um estado de bem estar físico e mental na maior parte do tempo. Então nenhum valor poderá se sobrepor a este e compreenderemos que não é possível ignorar partes desse todo que é a humanidade. Enquanto não pudermos todos desfrutar de saúde, não seremos uma espécie saudável.
Somos um ecossistema social e este, repito, não é um discurso ideológico ou religioso, mas psicológico. À medida que vamos tratando a nós mesmos com mais respeito, estendemos isso aos demais. Quando nos tornamos mais saudáveis há um efeito a nosso redor. O conceito de saúde mental passa pelo auto respeito e pela capacidade amorosa, criativa e de autenticidade. Este afinal era o objetivo da civilização: a associação humana com vistas a promover o bem estar e a libertação sobre nossas dificuldades.
Os laços afetivos precisam também se redesenhar nessa nova ordem. Há que haver espaço para o espontâneo e o que é em nós livre, mas também respeito pela necessidade humana de interação com o outro.
Até aqui as relações humanas têm sido marcadas pelo desejo de dominação. Contudo, a dominação não é necessária, cria uma carga extra para ambos os lados. Podemos começar a pensar associações mais construtivas onde a troca esteja presente e se estabeleça espontaneamente entre as partes. Quanto mais rico interiormente cada indivíduo se torna, mais tem a oferecer e mais enriquecedor será conviver com ele. Recebemos mais e melhor do outro à medida que nossa qualidade individual cresce.
Sempre precisaremos do outro, não existimos isoladamente. O desafio é tornar mais positivas estas interações e termos consciência de que somos indivíduos e não podemos nem queremos sacrificar isso em nome do desejo infantil de dependência e dominância.
As relações serão cada vez mais igualitárias, com respeito às diferenças, mas colocando todos num mesmo plano de valor embora com papéis diferentes.
Respeito parece ser a palavra chave, a grande questão a ser pensada e praticada, já que decidimos abandonar as cavernas. Respeito á diferença, respeito a nossa natureza, ao outro, a si próprio. Respeito ao direito que cada um tem de seguir seu coração, dar vazão ao seu potencial e de expressar-se como ser vivente. Respeito ao direito de sonhar também, pois somos sonhadores.
Quando esta nova forma de ver as coisas amadurecer em nós e finalmente se instalar, não parece que ainda teremos tanto desejo de agredir e destruir. Nossa potencialidade inteligente adquirida os substitui pelo lúdico, o erótico, o desejo de criar e a agressividade auto-defensiva. O que há em nós de destrutivo é resíduo ou patologia.. O homem sadio, respeitado em suas necessidades, não é agressivo.
Não somos uma raça de decaídos, estamos ainda submetidos à criações culturais insatisfatórias, muitas vezes incompatíveis com nosso bem estar e equilíbrio. Porém, à despeito dos tropeços e atropelos durante o período de maturação desta idéia inicial que se expressa no ideal civilizado, acredito que possamos chegar a ela um dia. Aí, uma nova ética finalmente prevalecerá, colocando em definitivo a vida acima de tudo. A vida em todas as suas manifestações e em todo seu potencial.

(Manoelita Dias dos Santos - "A lógica da emoção, da psicanálise à física quântica")

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publicado às 14:30



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