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FILHOS

por Thynus, em 28.07.13

 

 

Ter filhos é um desejo comum, talvez instintivo: preservação da espécie. Quase todos quando se casam já planejam quantos filhos desejam ter. Hoje já há um número maior de casais dispostos a excluir a paternidade dos objetivos de uma união amorosa.
Ter filhos é sempre um pouco mais difícil do que nos parece antes de tê-los. Tal como idealizamos o casamento e as relações de amor romântico, idealizamos a paternidade.
Depois idealizamos os próprios filhos. Infelizmente não é incomum depositarmos neles nosso narcisismo, nossas vaidades e desejos não satisfeitos, nossos objetivos não alcançados. Eles, sendo a nossa continuidade parecem os herdeiros naturais e perfeitos de nossas ambições. Passamos a viver por eles e através deles esperamos novamente aquela satisfação que esperamos do ser amado escolhido para partilhar a vida conosco. Desta vez não haverá erro: nossos filhos serão perfeitos, talvez seja nossa última oportunidade de realizar esse ideal de perfeição.
Como das outras vezes em que esperamos de algo ou de alguém a felicidade suprema, acabamos descobrindo que ter filhos pode ter suas delícias e compensações, mas às vezes é também muito difícil. Eles não vão nos amar incondicionalmente e é muito provável que pensem o mesmo: que é difícil serem nossos filhos em alguns momentos.
Na infância deles seremos idealizados e copiados, nossa presença e atenção intensamente desejados. Mas quando a adolescência se aproxima, eles já não pretendem mais ser as nossas gracinhas nem seguir obedientemente nossos ditames e provavelmente tampouco concordarão em satisfazer nossas vaidades. Desejarão ter seus próprios juízos de valor e fazer suas escolhas. E é bom que seja assim, afinal são individualidades a serem respeitadas. Resolver o nosso narcisismo e frustrações é tarefa nossa e não deles. Se não entendemos tais coisas é porque estamos agindo novamente daquela forma primitiva em que não reconhecemos o outro separado de nós, não o vemos em sua totalidade.
Na verdade estaremos sendo pais crianças, com expectativas infantis. E não conhecendo esse modo amadurecido de relacionamento como podemos ensinar a maturidade nas relações a nossos filhos? Provavelmente os estimularemos a terem relações dependentes se esta é a nossa linguagem emocional. Nem poderemos ensiná-los a nos respeitar e nossos desejos, limites e necessidades serão para eles tão desconhecidos quanto os deles para nós.
Um relacionamento de tal ordem tenderá a evoluir com muitos conflitos e ressentimentos. Talvez venhamos a nos sentir vítimas de suas incompreensões e desconsiderações e vice versa. Em todo caso é sempre interessante tentarmos basear a relação no exercício de respeitar, no que há de amoroso nela e nos limites que são necessários. O limite é o respeito ao outro e a si próprio, mas primeiro precisamos aprender a agir assim, senão soará totalmente falso. Não teremos a credibilidade necessária se agirmos de forma contraditória, mesmo crianças muito pequenas percebem isso com facilidade.
A paternidade não exige, nem poderia, que sejamos perfeitos mas ao menos sinceros, com certa humildade para questionar o que estamos fazendo com nossos filhos, com maturidade para entender que não são prolongamentos de nós mesmos e com auto respeito suficiente para exigir deles uma conduta respeitosa para conosco. Respeito não é obediência cega, é consideração. Filhos podem considerar o que dizemos por duas razões mais obvias: porque nos temem e de nós dependem, ou porque acreditam em nós e em nosso amor por eles.
Para que uma relação de confiança se estabeleça, além da coerência é fundamental a sinceridade, podemos exprimir nossos sentimentos com clareza mostrando o efeito que suas ações produzem em nós. Este é um método eficaz de educação emocional que os leva a nos perceber e identificar o que sentimos. Não quer dizer que devamos nos fazer de vítimas ou usar o sentimento de culpa para controlá-los, longe disso. Mas posso dizer que não gostei dessa atitude determinada.
Uma das piores coisas que se pode fazer por um filho é bancar a mãe ou pai abnegados que nem existem e suportam qualquer coisa que faça. Se não aprender em casa terá poucas chances de reconhecer o outro e respeitá-lo quando sair daí. Filhos criados assim tenderão a construir relacionamentos baseados naquela linguagem mais primitiva e menos frutífera de que falávamos antes.
A família, sendo o primeiro meio social que freqüentamos, será onde aprenderemos as primeiras lições de relacionamento. Não é um território livre de conflitos e desavenças. Muitas vezes os interesses de um serão contrariados pelo de outro. Um funcionará como competidor e adversário em relação ao outro com maior freqüência do que gostamos de admitir. Crianças, por se regerem pelo princípio do prazer, tendem a agir como exigências consideráveis de atenção. Quando há irmãos, há mais gente disputando o amor e a atenção. Ensiná-los que suas demandas de gratificação só poderão ser parcialmente atendidas é tarefa dos pais. Se estes não precisam continuar agindo como agentes constantes e severos da frustração, tampouco parece prudente passar aos filhos a idéia de que serão suas eternas fontes de inesgotável satisfação. Um pouco de frustração é necessária ao correto desenvolvimento da personalidade já que não há como encontrar um mundo real onde ela não exista. Se fatalmente ela aparecerá em nossas vidas é preciso que aprendamos a lidar com ela desde cedo.
Novamente encontramos o princípio do equilíbrio entre experiências de frustração e gratificação para o saudável funcionamento mental. Nossos desejos não são realizáveis se daí resultará prejuízo para outro. E é em casa que devemos aprender a respeitar o espaço e o direito alheios, para isso temos que aprender a conter nossas demandas. Não há problemas nisso, desde que a criança seja também respeitada e alguns dos seus desejos, aqueles que são possíveis, sejam atendidos.
O perigo de agirmos de forma imatura na educação dos nossos filhos colocando neles toda a satisfação que não tivemos e disto desfrutando, é criarmos uma pessoa cuja análise da realidade seja insatisfatória e a capacidade de independência fique comprometida. Não queremos criar alguém cujo narcisismo o faça julgar-se capaz de realizar qualquer ato proveniente de sua vontade sem se preocupar com os eventuais danos que possa causar a si e aos outros.
Nosso desejo de vê-los bem sucedidos e vitoriosos, que pode funcionar como um prêmio para nossas frustrações, às vezes acaba por levar-nos a ensiná-los a se comportar como se estivéssemos de volta à selva. A agressão fica livre e a ética vai para o espaço.
Num tal estado de coisas há muita ansiedade envolvida. Se o excesso de limites e o impedimento compulsório da satisfação geram ansiedade, a falta de limites e regras também gera.
É o adulto que precisa ter o comando da situação, a ele cabe ter aprendido a lidar com a própria angústia e saber conduzir-se pela vida, porque os filhos vem atrás observando tudo. Se não há regras claras, se o comportamento dos adultos é incoerente e a deixa confusa, a criança será tomada pela ansiedade. Quando adulta não saberá ao certo quais caminhos tomar e como comportar-se. Quando tiver de relacionar-se com mundo sozinha, não terá entendido bem como funciona e quando as exigências da realidade se apresentarem a ela, não terá meios adequados de superá-las e enfrentá-las.
Tanto o Ego que jamais se enfrentou com a frustração quanto aquele que foi demasiadamente exposto a ela, tornam-se frágeis.
O perigo que percebemos à nossa volta é sempre medido em relação a nossa própria força e capacidade de enfrentá-lo. O Ego avalia o perigo e o compara a sua força, se se sente em condições de enfrentá-lo o faz, se vê que não há como fazê-lo recua. E, se não se sente em condições de enfrentá-lo nem pode fugir, entra em desespero.
Quanto mais possamos oferecer aos nossos filhos uma experiência balanceada de auto-estima e reconhecimento dos próprios limites, mais forte estará se formando seu Ego e mais capaz será de interagir com o mundo.
A expectativa realista e equilibrada dos pais em relação aos filhos e renúncia aos ideais impossíveis projetados neles é desejável. Quando se mede com o perigo, precisa-se fazer uma avaliação subjetiva disto. Se nos vemos premidos a responder a super exigências, a nós impostas inicialmente pelos nossos pais, fica complicado. Portanto, dizer ao seu filho que ele deve ser um campeão, pode até ser um estímulo naquela final do campeonato, mas repetir isso obcecadamente, é um desastre. Se você acha tão importante ser um campeão é melhor que tente você mesmo ao invés de transferir ao seu filho a responsabilidade de ser o que você não conseguiu. Responsabilize-se pelos seus desejos e não os ponha das costas dos outros. Ou seu filho tenderá a entender que, satisfazer suas expectativas é a condição para ser amado e ter valor; se não conseguir, é provável que não consiga com tal carga, vai sentir-se um fracasso e passará a agir como tal. O conflito que se instalará será contra ele mesmo, que poderá julgar-se com severidade e criar ansiedades e inibições.

(Manoelita Dias dos Santos - "A lógica da emoção, da psicanálise à física quântica")

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publicado às 13:02



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