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 E VI UMAS DAS SUAS CABEÇAS COMO FERIDA DE MORTE,
 E A SUA CHAGA MORTAL FOI CURADA; 
E TODA A TERRA SE MARAVILHOU APÓS A BESTA.
(Apocalipse 13:3)

A 13 de Maio de 1981, nada fazia adivinhar a tragédia que se avizinhava. João Paulo II almoçou ao meio-dia com vários convidados e pelas cinco da tarde o papa dirigiu-se ao Palácio Apostólico para celebrar a audiência geral semanal na Praça de São Pedro, a qual começou com pontualidade. Milhares de pessoas apinhavam-se no círculo formado pela Colunata de Bernini: 264 colunas coroadas por 162 estátuas de santos.
O percurso que o "Papamóvel" devia realizar já estava delimitado, quando um jovem turco chegara à praça meia hora antes. O papa João Paulo II recusou levar escolta. Chegou ao veículo e num salto subiu para a plataforma. Seguiam-no de perto Camillo Cibin, chefe de Segurança do Vaticano, dois agentes de fato azul, dois agentes da Santa Aliança e à frente quatro membros do corpo da Guarda Suíça. Poggi tinha convocado Cibin meses antes para lhe dar a conhecer que receberam um relatório da espionagem francesa no qual se falava de uma trama de qualquer serviço secreto do Pacto de Varsóvia para tentar matar o Sumo Pontífice e que por isso os seus homens deviam estar atentos.
Às 5.18 da tarde, e quando o papa estava com uma menina ao colo, soou o primeiro tiro na praça de São Pedro. Com as mãos agarradas na barra do "Papamóvel", João Paulo II começou a cambalear. A bala disparada por Mehmet Ali Agca perfurou-lhe o estômago e causou graves ferimentos no intestino delgado, cólon e intestino grosso. Sem pestanejar, o papa João Paulo II, que sabia estar ferido pela dor insuportável no estômago, tentava com as mãos, mas sem o conseguir, deter o sangue que brotava pelo pequeno orifício.
Tinham passado apenas breves segundos e ouviu-se o segundo tiro, mas desta vez a bala feriu o papa na mão direita. O terceiro tiro disparado por Agca atingiu o papa mais acima, no braço. O condutor olhou para trás sem entender o que se passava, mas ao voltar-se Cibin estava já a agarrar a cabeça do papa, caído no banco, no meio de uma poça de sangue.
Cibin gritava aos agentes com as armas na mão que procurassem o atirador, que mergulhara na multidão. Agca corria e abria caminho de arma na mão, uma Browning automática de nove milímetros. Mas a certa altura sentiu que alguém lhe bateu nas pernas e o fez cair: era um agente da polícia italiana que estava num passeio da praça e o prendeu.
Estendido no chão, vários agentes papais pontapearam e bateram em Ali Agca antes de ele ser arrastado para uma carrinha celular, enquanto o "Papamóvel" se dirigia a toda a velocidade para a Porta de Bronze para colocar o papa numa ambulância. No meio dos gritos, o veículo abriu passagem até à Clínica Gemelli de Roma, a que ficava mais próximo do Vaticano.
Uma vez na zona cirúrgica do nono andar, foi rasgada a sotaina branca do papa João Paulo II e ficaram a descoberto uma medalha de ouro e uma cruz manchadas de sangue. Curiosamente, a medalha estava abaulada pelo impacte de uma das balas. Ao que parece, o projéctil ter-lhe-ia atingido o peito se não fosse essa medalha desviar a bala, que apenas lhe atingiu o indicador da mão direita.
Quando recuperou a vida depois de seis horas de intervenção cirúrgica, João Paulo II acreditava que tinha sido salvo pela Virgem de Fátima. Ao longo dos muitos meses de recuperação, o desejo de saber quem tinha dado a ordem para o assassinar converteu-se numa obsessão para João Paulo II.
Leu todos os relatórios da Santa Aliança que caíam nas suas mãos vindos da CIA, da BND alemã, do Mossad israelita, do serviço secreto austríaco ou da espionagem turca, mas nenhum deles respondia à sua pergunta. E nem sequer se inteirou de algo mais quando Mehmet Ali Agca foi presente à justiça de Roma na última semana de Julho de 1981 e condenado a prisão perpétua.
Segundo o escritor Gordon Thomas, no seu livro Gideorís Spies. The History of Mossad, seria monsenhor Luigi Poggi, chefe da Santa Aliança, quem lhe daria a resposta. Durante meses, o espião papal tivera estreitos contactos com Yizhak Hofi, o memuneh do Mossad. Poggi teve reuniões secretas em Viena, Varsóvia, Paris e Sófia. Em Novembro de 1983, monsenhor Luigi Poggi voltava de uma reunião em Viena e trazia consigo a resposta para a pergunta de João Paulo II. Quem tinha dado a ordem para o matar?
O seu motorista esperou durante horas no aeroporto pela chegada do avião que trazia Poggi da capital austríaca. Ao chegar à Porta dos Sinos, deram passagem ao veículo com matrícula vaticana, mas mesmo assim foi detido pelos elementos da Guarda Suíça para identificação do passageiro. Ao ver de quem se tratava, o soldado pôs-se em sentido e apresentou armas ao chefe da Santa Aliança.
O arcebispo trazia vestida uma gabardina preta e um cachecol que lhe cobria todo o rosto, mas notava-se que era um homem corpulento. E enquanto aquecia o corpo, recordava ainda a reunião secreta havida no bairro judeu de Viena. Era uma sala um tanto desarrumada, mas Poggi escutara atentamente um katsa chamado Eli responder à pergunta que João Paulo II fazia constantemente.
Poggi foi acompanhado por um mordomo até ao gabinete do papa. Os livros e os relatórios militares amontoavam-se nas estantes. O chefe da espionagem papal sabia que o atentado afectara muito o Santo Padre física e mentalmente. Depois de uma breve saudação, Poggi sentou-se com as mãos sobre os joelhos e num tom baixo começou a relatar a história que tinha ouvido na Áustria. Depois de 13 de Maio de 1981 não deixavam de chegar notícias ao quartel-general do Mossad em Telavive e o facto de todos os serviços secretos terem realizado as suas próprias investigações fez com que Hofi mantivesse o Mossad fora do assunto.
A investigação do serviço de espionagem israelita teve realmente início em 1982, por ordem de Nahum Admoni, que substituíra Yitzhak Hofi no comando do Mossad. Para os norte-americanos estava claro que Ali Agca tinha apertado o gatilho, mas a ordem partira do KGB, ao ver que o apoio expresso de João Paulo II e do seu serviço de espionagem ao sindicato "Solidariedade" podia acender o facho do nacionalismo polaco. Esta mesma versão é defendida pela escritora Claire Sterling no seu livro The Time ofthe Assassins. Para os israelitas, a conspiração tinha sido preparada em Teerão e ordenada pelo ayatola Khomeini: assassinar o papa era o primeiro passo para o ythad contra o Ocidente. Esta mesma versão defende-a o jornalista russo Eduard Kovaliov no seu livro Atentado en la plaza de San Pedro.
Antecipando-se ao fracasso de Agca, os serviços secretos iranianos pensaram apresentar o turco como um fanático solitário e nesse sentido se faria todo um relatório favorável.
Poggi relatou ao papa a história de Agca, que estava num relatório da Santa Aliança que entregou ao Sumo Pontífice dentro de uma pasta vermelha: "Mehmet Ali Agca nasceu na aldeia de
Yesiltepe, a leste da Turquia. Com dezanove anos ligou-se aos «Lobos Cinzentos», um grupo terrorista pró-iraniano que era financiado por Teerão. Em Fevereiro de 1979, Agca assassinou o editor de um jornal célebre pela sua posição a favor do Ocidente. Poucos dias depois do assassínio, o jornal recebeu uma carta supostamente escrita por Agca, na qual se referia a João Paulo II como o comandante das Cruzadas e ameaçava matá-lo se ele (o papa) pisasse solo do Islão".
O papa fazia pequenas pausas no relato de Poggi para beber água e fazer-lhe perguntas concretas. Depois da Líbia, continuava o espião papal a relatar, Agca viajou para a Bulgária em Fevereiro de 1981 para se juntar aos agentes do serviço secreto búlgaro. William Casey estava tão furioso pelo facto de o KGB ter envolvido a CIA no atentado que ordenou criar uma "conexão búlgara" na tentativa de assassínio. Segundo ele, o KGB ordenou aos búlgaros que preparassem uma conspiração para liquidar o papa pela sua política em relação à Polónia e ao "Solidariedade".
A 23 de Dezembro de 1983, o papa João Paulo II pôde fazer a pergunta que não lhe saía da cabeça nos últimos dois anos directamente a Mehmet Ali Agca. O papa avançou sozinho até à cela T4 da prisão de Rebibbia. Ao vê-lo, Ali Agca ajoelhou-se e beijou com todo o respeito o anel do Pescador. Os dois homens sentaram-se e, quase roçando as suas cabeças, Agca começou a falar, quase a sussurrar, ao ouvido do papa e, enquanto escutava o que Agca dizia, o seu rosto tornava-se mais sério. Finalmente, o papa João Paulo II obteve a resposta para a sua pergunta.
Mais tarde o próprio espião do papa, monsenhor Poggi, explicava: "Ali Agca sabe coisas apenas até certo nível. Para lá desse nível não sabe nada. Se se tratou de uma conspiração, ela foi tramada por profissionais e estes não deixam vestígios. Nunca ninguém encontra nada."
A verdade é que desde esse dia 13 de Maio de 1981 se escreveram dezenas de livros e reportagens acerca de quem tentou matar o papa João Paulo II naquela tarde, na Praça de São Pedro. Foram procurados centenas de presumíveis culpados e dezenas de explicações dos motivos políticos para essa conjura. Foram acusados os iranianos pelo yihad, acusaram os soviéticos pela política papal na Polónia, a CIA pela ligação de Mehmet Ali Agca com um ex-agente colocado na Líbia, os búlgaros como títeres do KGB, mas ninguém sabe de fonte segura, nem sequer a Santa Aliança, quando passaram mais de vinte anos sobre o atentado na Praça de São Pedro, quem esteve por detrás do gatilho de Mehmet Ali Agca.
Poucos anos depois havia de se saber que, após o encontro de 23 de Dezembro de 1983 entre o Sumo Pontífice e Ali Agca na prisão de Rebibbia, João Paulo II ordenou a monsenhor Luigi Poggi, e portanto à Santa Aliança e ao Sodalitium Pianum, que cessasse qualquer inquérito a respeito do atentado. Como "ordem pontifícia", o espião papal assumiu o mais puro estilo vaticano, ou seja, colocando um véu escuro sobre o que se relacionasse com o "13 de Maio de 1981". A 24 de Dezembro de 1983, e enquanto o Vaticano se preparava para as festividades de Natal, dois agentes da Santa Aliança, escoltados por quatro membros da Guarda Suíça, transportaram em várias caixas, hermeticamente fechadas e seladas com o escudo pontifício, todos os documentos que diziam respeito ao atentado na Praça de São Pedro até ao Arquivo Secreto Vaticano, onde ainda dormem no esquecimento.
Entretanto, as pontas que ficaram por atar no caso IOR-Banco Ambrosiano-Calvi-Marcinkus estavam prestes a ser bem atadas. Michele Sindona, o banqueiro da Máfia, foi condenado a 13 de Junho de 1980 a vinte e cinco anos de prisão por um tribunal norte-americano, mas no entanto havia muito que dizer até ele ser assassinado, em 1986. E ainda há muito para dizer sobre os anos polacos.

(Eric Frattini -  "A santa aliança, cinco séculos de espionagem do Vaticano)

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publicado às 12:53



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