Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Sociedade aberta

por Thynus, em 21.07.13

 

 

Esta expressão entrou no vocabulário da ciência política, sendo correntemente empregada por escritores e políticos eminentes, embora raras vezes seja ouvida na boca de pessoas comuns. É usualmente usada para assinalar uma sociedade em que nenhuma ideologia ou religião goza de monopólio, em que existe um interesse crítico por novas idéias, seja qual for a sua origem, em que os processos políticos estão abertos ao exame e à crítica públicos, em que há liberdade para viajar, em que as restrições ao comércio com outros países são mínimas e em que a finalidade da educação é transmitir conhecimentos em vez de imbuir doutrinas sectárias. Durante muito tempo a União Soviética sintetizou a antítese de uma sociedade aberta, mas, sob a política de glasnost, os países que a substituíram parecem estar se afastando desse extremo negativo.
O termo “sociedade aberta” (assim como o seu antônimo, “sociedade fechada”) obteve ampla aceitação por causa de um famoso livro de Karl Popper [A sociedade aberta e seus inimigos] (1945). Como ele próprio reconheceu, esse par de vocábulos tinha sido apresentado antes por Henri Bergson (1932). As concepções desses dois pensadores de uma sociedade fechada tinham muito em comum. Ambas a viram como uma comunidade pequena, compacta, de relacionamento face a face. Segundo Bergson, é uma sociedade centralizada, estática, não-progressista; sua religião é autoritária, sua moralidade absolutista e seus costumes rígidos. Popper sublinhou sua perspectiva anticientífica, mágica, tribalista. Um aspecto assinalado por Bergson, mas não por Popper, foi que a guerra com as sociedades vizinhas será usualmente considerada pela liderança de uma sociedade fechada como uma forma desejável de promover a lealdade tribal e a unidade coletiva.
Entretanto suas concepções de sociedade aberta divergiram consideravelmente. Para Bergson, uma sociedade aberta só surgirá quando a multiplicidade de sociedades fechadas der finalmente lugar a uma sociedade mundial em que o progresso e a diversidade sejam encorajados, e o dogma religioso e a moralidade autoritária dêem lugar à intuição mística e à espontaneidade.
Para Popper, em contrapartida, a característica essencial de uma sociedade aberta não é a intuição mística, mas o uso irrestrito da razão crítica. E essa sociedade pode ser muito pequena; deu como exemplo a sociedade ateniense ao tempo de Péricles (quando os escravos não eram considerados parte integrante dela). E a realização da sociedade aberta não é uma meta situada em um futuro distante. Com efeito, afirmou Popper, lances bem-sucedidos no passado em direção a maior abertura, sobretudo no Ocidente, geraram entre alguns pensadores influentes, com destaque para Platão na antiga Grécia, um veemente desejo de regresso a uma sociedade fechada. Pois a vida em uma sociedade aberta pode ser árdua e as pessoas não são necessariamente mais felizes do que seriam em uma sociedade fechada. Elas poderão sofrer do que Popper chamou “a tensão da civilização”. Algumas pessoas renunciariam com satisfação ao peso da responsabilidade individual, trocando-o pelo calor e a segurança imaginados de uma sociedade fechada.
Popper, contudo, concordou com Bergson quanto à prioridade temporal de uma sociedade fechada em relação a uma sociedade aberta; segundo Popper, a primeira ocorreu, por assim dizer, naturalmente, ao passo que sempre se teve que lutar para conseguir a segunda. Ele apresentou duas razões para isso.
(1) Para ser aberta, uma sociedade também tem que ser, em considerável grau, o que ele chamou de “sociedade abstrata”; nesta, as relações cara a cara com pessoas conhecidas dão lugar ao trato impessoal com indivíduos anônimos que desempenham papéis. E a transição para tal sociedade será um desenvolvimento tardio.
(2) É natural que as pessoas encarem os tabus e costumes rígidos de uma sociedade fechada como naturais e inalteráveis, como se fossem leis da natureza. Assim, a passagem para uma sociedade aberta requer também o reconhecimento revolucionário do caráter artificial e convencional das instituições sociais, outro desenvolvimento tardio.
Em seu livro, Popper (1945) atacou várias doutrinas que são hostis à idéia de uma sociedade aberta. Uma delas era o sonho de organização utópica, sintetizada na idéia de Platão de que o filósofo-rei deveria começar por limpar a sua tela. Isso é um sonho impossível, que mais não seja pelo fato de o limpador da tela e o instrumento para limpar serem parte do quadro a ser apagado. Quanto mais uma liderança política revolucionária se aproximar desse ideal impossível, mais destruição causará. (Ver também TOTALITARISMO.) A alternativa é a organização gradual: esta permite reformas em larga escala, mas requer que elas se processem passo a passo, tornando assim possível monitorar o processo e verificar as hipóteses sociológicas a que se recorreu. Um erro pode ter acontecido nestas, daí resultando que o objetivo pretendido não seja alcançado ou então seja acompanhado de conseqüências que não eram as esperadas e que são indesejáveis. A vigilância crítica torna-se impossível quando um grande número de reformas está em curso na mesma área. (Ver também SOCIAL-DEMOCRACIA.)
Uma idéia afim de Popper (1945) é o utilitarismo negativo; isso quer dizer que os governos devem ter como alvo, não aumentar diretamente a felicidade global, mas reduzir o sofrimento conhecido.
Outra doutrina que Popper considerou hostil à sociedade aberta foi o HISTORICISMO e a doutrina afim do futurismo moral (O que será está certo). Popper recomendou uma metodologia individualista (ver INDIVIDUALISMO).
Alguns críticos têm posto em dúvida se as mais remotas sociedades humanas seriam fechadas. Charles Darwin (1871) enfatizou como a capacidade inventiva e imitativa foi importante para ajudar os seres humanos primitivos a adquirir ascendência sobre os outros primatas. Isso depõe a favor de uma abertura para a novidade que era estranha à inclinação mental característica de uma sociedade fechada.

(William Outhwaite & Tom Bottomore - "Dicionário do pensamento social do século XX")

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:41



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D