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CRISE

por Thynus, em 21.07.13

 

Falamos de “crise” em relação a sujeitos, a uma vida ou uma forma de vida, a um sistema ou uma “esfera” de ação. As crises decidem se uma coisa perdura ou não. O caso paradigmático de crise é a crise de vida, na qual, se levada ao extremo, está se tratando de uma questão de vida ou morte. Em toda crise os envolvidos confrontam-se com a questão hamletiana: ser ou não ser. As crises em geral têm causas objetivas, mas devem também poder ser vivenciadas como crises pelos sujeitos ou entidades sociais envolvidos. Elas também sempre afetam a autocompreensão e a autodefinição de agentes, sistemas ou esferas, uma vez que sempre afetam sua “identidade”, isto é, uma vida ou situação de vida como um todo.
Aqui, a história da palavra é importante e esclarecedora. O grego krisis não distingue entre crise e crítica, cobrindo “diferença e conflito, mas também decisão no sentido de resultado definitivo, decisão judicial ou, de fato, qualquer julgamento — algo que hoje se encaixaria na esfera da crítica” (Koselleck, 1973: p.197). Essa ligação original entre os aspectos subjetivo e objetivo da crise subsiste quando criticar entra em moda na modernidade. Na época do Iluminismo esses dois usos divergem, ao mesmo tempo em que continuam sobrepostos. Com essa separação, porém, as palavras crítica e crise, usadas basicamente na Idade Média no sentido médico, tornam-se altamente politizadas. Sir B. Rudyard aplicou o conceito médico de crise ao corpo político: “Esta é a Crise dos Parlamentos: através disso saberemos se os Parlamentos vivem ou morrem.” Mesmo depois do século XVIII, porém, “crise” é um título comum para textos críticos e polêmicos. Thomas Paine deu o nome The Crisis ao diário em que comentava os eventos da revolução norte-americana. Aqui, o sentido grego de crise como julgamento permanece predominante como um conceito polêmico de crise. O significado de “crise” como julgamento, referindo-se a uma decisão judicial, e o significado médico, diagnóstico, combinam-se quando falamos, ainda hoje, de uma situação crítica.
Na antiga Atenas, eram as atividades de julgar (krisis) e governar (kratein) que transformavam um indivíduo em cidadão (Aristóteles). A lei é um produto da crise e da divisão da vida ética. Quando recebe expressão efetiva num julgamento, promove-se o fim da divisão ou CONFLITO. (A palavra alemã Ent-scheidung [decisão] indica esse processo.) O elo aristotélico entre julgamento legal e crise e o status de cidadão político é ele próprio resultado de uma divisão, separação ou diferenciação das esferas de oikos e polis — uma divisão em que a lei desempenha um papel fundamental. A separação do político (e portanto o status de cidadão) acompanha a superação e substituição do antigo sistema legal (justiça de família, vingança de sangue, oikos ou justiça doméstica) por um sistema judicial político-burguês (ver Meier, 1983). Hegel ainda tem em mente essa ligação entre lei e crise na sua teoria da tragédia. Ele descreve a queda do herói na crise do conflito trágico como um “destino racional” que se concretiza em nome de uma justiça nova, trágica e urbana, a qual substitui a “justiça antiga, épica”, hoje vista como um “destino cego” pré-legal.
Do Iluminismo até Marx, a época presente é compreendida como uma crise, e a crise como crítica prática, revolucionária, como uma causa levantada pela nova sociedade burguesa contra o antigo estado, ou pelas classes excluídas da sociedade burguesa contra as que estão incluídas. Mas Marx se encontra também na raiz das teorias sociais científicas sobre crise. À medida que estas se desenvolvem, a separação entre teoria e crítica é ressaltada de forma ainda mais aguda do que na filosofia da história do próprio Marx. Mas o que foi separado na teoria ainda se une na prática política: não pode haver crise sem diagnóstico de crise. Um diagnóstico de crise representa uma vigorosa posição explicativa. Ele não visa um fim da história, mas constrói hipoteticamente uma história capaz de funcionar como justificativa por ações políticas para os que vivenciam a crise. Nesse sentido, a filosofia de Kant já era uma filosofia da história, pressupondo que o tribunal da razão crítica julga argumentações e não pessoas. De agora em diante, crise e crítica encaixam-se em diferentes categorias. Embora a crítica possa tornar uma pessoa consciente de uma crise, e uma crise possa provocar crítica ou transformar a própria crítica em crise, a crise decide outras questões que não as da crítica. Enquanto a crise diz respeito a se uma forma de vida social pode ser ou não ser, a crítica só se preocupa com a validade dos argumentos; se são “verdadeiros ou falsos”, “precisos ou imprecisos”. Essa distinção (krisis) é notoriamente ignorada pela metacrítica conservadora do Iluminismo. Essa crítica fundamental, presente em Nietzsche, Carl Schmitt e Michel Foucault, concebe a argumentação e a crítica como guerra (polemos), como luta por existência e poder. Tal como a filosofia da história que critica, ela combina crítica e crise e, assim, vê na crítica a verdadeira crise dos tempos modernos. “A crise está disfarçada de crítica” (Kosellek, 1973).
O conceito social científico de crise tem raízes profundas na filosofia da história, mas no século XX deitou raízes novas, pós-metafísicas. O conceito de crise baseado na filosofia da história desenvolveu-se no sentido de um conceito evolutivo, à luz do qual a filosofia da história se vê ela própria relegada ao status de “elo perdido” na transição do antigo conceito de crise para o moderno. A ligação mais importante é, sem dúvida, sua temporalização na cristandade. Esta transforma a decisão judicial na crise extrema do Juízo Final. O todo da história é assim dominado pela contradição de que a decisão final já ocorreu com a encarnação do Messias, mas deve ainda assim ser deixada em aberto para ser ratificada no Juízo Final. Isso estende a crise a todo o processo entre a Revelação, ou vinda de Cristo, e o Fim dos Tempos; a crise permanente transforma, segundo as palavras de Hegel, a história mundial num tribunal mundial. “Desse modo, a modernidade assiste à ascensão de um modelo processual de crise que impregnou inúmeras filosofias da história” (Kosellek, 1976: p.1236).
Um aspecto característico do diagnóstico de crise da filosofia da história é a maneira como a época é tratada como um todo. A crise é sempre a crise de uma totalidade histórica. O conceito social e científico de crise, em contraste, baseia-se sempre apenas em uma esfera ou aspecto parcial de uma totalidade de vida, por exemplo, o sistema econômico, programas de pesquisa, estágios de desenvolvimento ou princípios organizacionais. Não se pode mais fazer afirmações a respeito de crises extremas ou de progresso e retrocesso com relação ao Bem e à felicidade do Todo. A perspectiva da filosofia da história sobre a totalidade de uma “forma de vida” (Hegel) permanece constitutiva para a experiência subjetiva e intersubjetiva de crise por parte dos afetados por elas, mas isso se transforma em mero componente subjetivo de análise social científica. O que permanece da filosofia da história é um discurso de autocompreensão típico das crises — geralmente com características terapêuticas. Isso diz respeito aos problemas de identidade individuais ou coletivos. Os discursos globais da filosofia da história só têm lugar dentro desses discursos, nos quais os envolvidos devem deixar claro quem desejam ou não desejam ser (cf. Tugendhat, 1979). Mas já não têm uma significação prognóstica. Inversamente, as teorias sociais e científicas sobre a crise já não produzem conhecimento a respeito do resultado das conseqüências das crises. Na crise, o número que os dados vão dar fica em aberto. “Toda crise furta-se ao planejamento (…) com base na crença e no progresso” (Kosellek, 1973). Livros como História e consciência de classe (1923), de Lucáks, ou A decadência do Ocidente (1918-22), de Spengler, representam um lado da distinção entre um conceito de crise baseado na filosofia da história e uma concepção de crise social científica. A legitimação da crise (1973), de Habermas, ou As contradições culturais do capitalismo (1976), de Daniel Bell, marcam o outro lado. Outro exemplo de conceito social científico de crise é A estrutura das revoluções científicas (1962), de Thomas Kuhn (ver SOCIOLOGIA DA CIÊNCIA ). Aqui também se trata da vida, como um todo, de uma comunidade particular, concreta, de pesquisadores, ligada a um paradigma holístico, mas não do destino das ciências européias, como no famoso diagnóstico de Husserl (1937), que ainda não abandonou os caminhos de uma filosofia metafísica da história em cima do muro que separa a Queda da Salvação.
No centro da concepção social científica de crise encontra-se o conceito de crise de sistema, que Marx foi o primeiro a exprimir com clareza, ligando-se tanto às teorias de circulação da economia clássica e do Iluminismo francês quanto ao conceito hegeliano de uma contradição entre esferas que não pode ser resolvida dentro de um sistema fechado. A teoria da tragédia de Hegel desenvolve um modelo de crise que retorna em crises de sistema e em conflitos que arrasam, do ponto do vista social, o mundo concreto ou uma imagem do mundo. A validade abrangente de pretensões legais mutuamente exclusivas é o que diferencia as crises das guerras e também das revoluções e das guerras civis. Na lenda grega, Creonte e Antígona não se relacionam um com o outro como amigo e inimigo em guerra; eles trazem em si mesmos a oposição que destrói o seu mundo.
O significado social científico desse modelo de crise ultrapassa em muito a sua interpretação nas filosofias da história de Hegel e de Marx (cf. Kojève, 1947). Marx já havia combinado esse modelo de uma crise orientada para as pretensões à validade de grupos sociais antagônicos (classes) com o da crise de sistema objetiva identificável em problemas de rumo, de orientação e dos imperativos da manutenção do sistema. Mas, mesmo nos diagnósticos dos termos que a modernidade vem oferecendo desde pelo menos a época de Max Weber o modelo trágico de uma esfera ética dividida em si mesma continuou a ser crucial. Ele se estende do “mundo de desintegração” do primeiro Lukács ao diagnóstico de Weber sobre o esmagamento da liberdade e o significado no conflito insolúvel das esferas de valor mutuamente alienadas do racionalismo moderno, até a teoria de Jürgen Habermas sobre as “patologias do mundo concreto” e diagnósticos semelhantes apresentados por pensadores neocomunitários. Robert N. Bellah e seus colaboradores (1985), seguindo Alasdair MacIntyre (1981), vêem a cultura norte-americana estendida entre os pólos de individualismo utilitário e expressivo. Michael Walzer (1983) descreve com perspicácia o modo como esferas da vida moderna justificadas e geralmente aceitas (divididas “corretamente”) desenvolvem tendências críticas, na verdade autênticas ameaças à vida, a superar e “dominar” umas às outras. Charles Taylor (1989) localiza a contradição mais profunda dos tempos modernos entre bens igualmente constitutivos: universalismo e pluralismo, cientificismo (utilitarismo) e romantismo, moralismo e ceticismo desconstrutivo. Os herdeiros científico-sociais do modelo de crise hegeliano e marxista não apenas dissolveram sua ligação desagradável com a filosofia da história como também substituíram o paradigma da reflexão pelo da linguagem, dissolvendo ainda a perspectiva unificada numa pluralidade de tendências de crise. As contradições que fazem surgir as crises e as abrem à experiência não precisam mais ser entendidas na linha de antinomias lógicas, produzidas pela ascensão do Espírito, através de estágios infinitos de reflexão, mas podem ser trazidas de volta ao seu lugar na linguagem as contradições entre afirmações e acima de tudo no diálogo.
As crises de maturidade e as de desenvolvimento cognitivo e moral, tal como outras crises, são geralmente deflagradas por circunstâncias externas contingentes, mas também têm um aspecto interior, racional. Este se expressa, inter alia, nas tentativas dos agentes de reconciliar suas experiências com sua imagem do mundo. As experiências que entram em conflito da imagem que se tem do mundo podem proporcionar um motivo racional para a busca de soluções coerentes. As crises ocorrem quando experiências conflitantes se acumulam e, no final, não podem mais ser integradas, conforme ocorre com as “anomalias” sofridas pelos “cientistas normais” de Kuhn. O sofrimento em geral inspira a busca de soluções novas e radicais, fazendo surgir uma imagem do mundo de nível mais elevado, que reúne experiências antigas e novas em uma relação inteligível e coerente. As contradições comunicativas ocorrem quando imagens do mundo variadas e incompatíveis se superpõem e entram em disputa na interpretação das mesmas, ou semelhantes, experiências. Quando agentes com imagens do mundo divergentes ou concorrentes são obrigados a debater e a entrar num acordo, precisam usar a linguagem comum da vida do dia-a-dia para articular suas variadas perspectivas e imagens do mundo. A articulação de sua própria imagem do mundo, com sua perspectiva sempre egocêntrica, em linguagem comum e com uma orientação voltada para a compreensão mútua resulta em algo que empurra os agentes no sentido de uma descentralização do seu egocentrismo. Os processos de aprendizado que levam a descentração de perspectivas no mundo podem, portanto, ser explicados pelas contradições entre visões do mundo idiossincrásicas e sua articulação numa linguagem comum. Essas contradições obrigam os agentes a transcender o seu próprio horizonte e a “fundi-lo” com o de outros agentes na linguagem comum da compreensão mútua (ver Gadamer, 1960). Dessa forma, torna-se possível vivenciar o conflito entre visões do mundo, ou “esferas de valor”, como um conflito entre articulações contraditórias da sua própria visão do mundo ou esfera de valores. Uma crise, caso ocorra, resolverá se essas antinomias são produtivas ou destrutivas (ver Kesselring, 1981; 1984). Se são produtivas e fonte de motivação racional, é algo que pode depender na prática das possibilidades institucionais para uma discussão objetiva e a resolução de conflitos. Isso vale tanto para a evolução individual e social, e para o resultado das crises individuais da adolescência, quanto para o auto-esclarecimento de grupos sociais (ver Döbert e Nunner-Winkler, 1978; Eder, 1985).
O que vai ser decidido numa crise depende em geral de toda uma constelação de tendências de crise complexas e que se superpõem. A conjuntura de crises de identidade e crises de sistema produz limiares críticos, mas a expectativa de uma ligação sistemática entre os dois tipos de crise que inspiraram Marx e o marxismo demonstrou ser demasiado especulativa. Na prática, parecemos estar antes vivenciando uma dissociação ou desacoplamento dos mais variados fenômenos de crise cultural, econômica, ecológica, científica, administrativa e outras. A tentativa de sistematizar possíveis tendências de crise pode, portanto, ser ligada ao processo de diferenciação e centramento de subsistemas sociais; é possível observar uma tendência ainda rudimentar de afastamento das crises sócio-econômicas no sentido das crises de motivação, legitimação e cultura. O alto grau de interdependência e a crescente interpenetração de subsistemas, porém, e acima de tudo a mutabilidade e a reversibilidade de tendências evolutivas tornam quase impossível fazer afirmações categóricas.

(William Outhwaite & Tom Bottomore - "Dicionário do pensamento social do século XX")

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