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Gosto

por Thynus, em 16.07.13

 

A capacidade de julgar e apreciar o que é belo, excelente, bom ou perfeito e a propensão a produzir ou consumir objetos (como, por exemplo, obras de arte) que materializam essa capacidade constituem os dois aspectos do gosto. Embora a noção tenha um extenso e ilustre passado no pensamento social ocidental, que de Kant remonta a Platão, passando por Hume, ela tem sido surpreendentemente negligenciada pelas ciências sociais. Com efeito, até data recente, salvo pelas considerações de Max Weber sobre estilização da vida e pela teoria do consumo conspícuo de Thorstein Veblen, o gosto era a província quase exclusiva de filósofos e especialistas em história ou crítica de arte (Osborne, 1970), para não mencionar os biólogos — em suma, era relegado ao domínio da alta cultura ou da natureza. Assim, o verbete sobre gosto na International Encyclopedia of the Social Sciences (Wenzel, 1968) trata o gosto, a par do cheiro, exclusivamente como um fenômeno físico-químico e não contém uma só linha a respeito de suas dimensões sociais.
A atitude da moderna ciência econômica é típica do tradicional desprezo socialcientífico pelo gosto. Ao atribuir às preferências o status de variável “exógena”, a teoria neoclássica evita a necessidade de estudar sua gênese social, estrutura e mudança, e reduz o gosto ao resultado de um processo inteiramente individual de aprendizagem interna, como na hipótese de “cultivação” de Tibor Scitovsky. Em seu célebre artigo “De gustibus non est disputandum” [Gosto não se discute] Stigler e Becker (1977) chegam ao ponto de sustentar a irrelevância total do gosto para a análise social de toda a conduta humana, afirmando que as diferenças em comportamento se explicam melhor em termos estritamente de variações em preços e rendas. Até mesmo fenômenos “baseados no gosto”, como o vício, o comportamento habitual, a publicidade e a moda, dizem esses autores, podem ser mais bem estudados à luz da “hipótese das preferências estáveis e uniformes”.
Incumbia à filosofia e à ESTÉTICA, portanto, explorar o gosto e seus contornos. O pensamento filosófico do século XX sobre o tópico está apoiado no tratamento de Kant e pode ser caracterizado como uma busca da essência trans-histórica do gosto. Na primeira metade de sua Crítica do juízo (1790), dedicada ao juízo estético, Kant formulou assim o “problema do gosto”: como podemos emitir juízos que pretendam ter “validade universal” quando “sua base determinante” é essa resposta estritamente privada aos objetos do mundo que se chama prazer? Ou é possível ao gosto, brotando espontaneamente de nossos sentimentos subjetivos, excluir “a decisão mediante prova” e, ainda assim, obter a “necessária concordância de outros”? A resposta de Kant foi separar o “gosto puro” do “prazer vulgar”, de modo a isolar a disposição desinteressada para “diferençar” e “apreciar” a beleza (Cohen e Guyer, 1982); esta última rejeita a fácil submissão dos sentidos ao comum e ao vulgar (das Vulgäre) para celebrar a finalidade da forma. É certo que nem todos os filósofos adotaram a noção kantiana de uma faculdade pura de apreciação e distinção. Wittgenstein (Lectures and conversations, s.d., p.8), por exemplo, assinalou claramente uma concepção antropológica de gosto, por oposição a uma carismática, quando insistiu em que, “para descrever o que se entende por gosto cultural, deve-se descrever uma cultura”.
Somente nas duas últimas décadas a pesquisa na área da sociologia da CULTURA quebrou o monopólio da estética filosófica e literária, substituindo a noção essencialista de gosto desta última por uma concepção relacional que vincula firmemente o gosto à dinâmica da desigualdade de CLASSE. Enquanto o propósito básico da estética pura foi ontologizar o gosto na busca de uma entidade platônica com história própria, a sociologia esforça-se por historicizá-lo. Para Norbert Elias (1939), os nossos padrões de gosto são o produto histórico de um secular “processo civilizatório” que envolve a progressiva multiplicação de restrições e proibições impostas às funções físicas do corpo (comer e evacuar, dormir, sexo e violência). A transformação da sensibilidade européia registrada por esses padrões ocorreu primeiro nas cortes reais, antes de vazar aos poucos da aristocracia para as classes média e trabalhadora em virtude do estabelecimento de fortes estados unificados e da conseqüente pacificação física da sociedade. Corbin (1982) desenvolveu argumento análogo no domínio do cheiro ao revelar como as modificações nos padrões olfativos — o que é considerado fétido e aromático, que odores são considerados toleráveis, que grupos são considerados “repugnantes” — na França do século XIX expressaram o crescente conflito entre classes na apropriação e adaptação do espaço na cidade em processo de industrialização.
De fato, as próprias categorias que usamos para estabelecer hierarquias de gosto, como “intelectual” versus “simplório”, têm sua origem no processo histórico de sacralização da cultura, pelo qual os assuntos e hábitos artísticos das classes privilegiadas foram instituídos em cânone universal de juízo estético. Levine relata em detalhe a demorada luta que se travou nos Estados Unidos “para estabelecer padrões estéticos, para separar a verdadeira arte da puramente vulgar”, de modo que, na virada deste século, o gosto que (…) prevalecia era o de um segmento do espectro social e econômico que se convenceu, e convenceu a nação em geral, de que o seu modo de ver, entender e apreciar música, teatro e arte era o único legítimo. (Levine, 1988, p.231.)
Criar consumidores culturais como uma coleção de pessoas que reagem individualmente ao desempenho com discreto “bom gosto” exigia um trabalho ativo de fragmentação, sujeição e segregação de públicos, atores, estilos e gêneros, o que redundou no sistemático descrédito do entretenimento e da diversão “populares”. O gosto em arte convertera-se em um meio de separação social ligado à ascensão das novas classes média e superior.
Mas é em La distinction: critique sociale du jugement que encontramos uma resposta radicalmente sociológica ao enigma kantiano do gosto. Pierre Bourdieu (1979) efetua nessa obra uma revolução copernicana na ciência do gosto ao romper com três princípios centrais da perspectiva dominante. Em primeiro lugar, aboliu a fronteira sagrada que faz da cultura legítima um universo distinto ao repatriar o consumo estético para a esfera dos consumos cotidianos: o mesmo conjunto de disposições — a que Bourdieu chama habitus — determina a escolha de cada um em matéria de música e esporte, pintura e penteado, teatro e alimento. Em segundo lugar, contra a ideologia carismática, Bourdieu observa não só que as necessidades e capacidades culturais são um produto de criação e educação de classe, mas também que existe uma homologia entre a hierarquia de bens e a hierarquia de consumidores, de tal modo que as preferências estéticas refletem em sua organização a estrutura do espaço social. Por conseguinte, o gosto só pode ser apreendido relacionalmente, dentro de um sistema de oposições e complementaridades entre estilos de vida e entre correspondentes posições sociais na estrutura de classes.
Em questões de gosto, mais do que em qualquer outra área, qualquer determinação é negação: os gostos são, sem a menor dúvida, acima de tudo, aversões, repugnância provocada por horror ou intolerância visceral do gosto de outros. (Bourdieu, 1979, p.56.)
Assim, o “gosto de liberdade” da classe alta, que confere primazia à maneira sobre a matéria com base em uma distância eletiva da necessidade econômica, define-se pela recusa em se entregar a impulsos primários, que ela considera ser o gosto das classes trabalhadoras. Estas evidenciam um “gosto de necessidade”, o qual expressa um ethos de classe e não constitui, propriamente falando, uma estética, na medida em que se recusa a separar arte e vida e a subordinar a função à forma. Entre eles, o gosto da pequena burguesia é manifestação de boa vontade cultural determinada pelo hiato entre seu elevado reconhecimento da legitimidade da cultura burguesa e sua baixa capacidade de se apropriar dela. A terceira inovação de Bourdieu consiste em mostrar que a maneira como o código específico necessário para decifrar obras culturais é adquirido — através da imersão imperceptível no meio ambiente familiar ou via ensino explícito na escola — sobrevive no modo como é usada e afeta profundamente todas as práticas culturais. De suma importância, quando assume a forma de categorias cognitivas que parecem individuais e no entanto são desigualmente distribuídas entre grupos, esse código fornece automaticamente lucros de distinção social: funciona como capital cultural ao naturalizar diferenças de classe.
Portanto, longe de ser o repositório final da individualidade espontânea, o gosto resulta ser a forma por excelência do destino social (amor fati), “uma cultura de classe convertida em natureza, isto é, corporificada” (Bourdieu, 1979, p.190) e destinada a operar como código de poder. Ao revelar o gosto como simultaneamente arma e prêmio nas lutas de classificação pelas quais os grupos procuram manter ou melhorar suas posições na sociedade impondo seu estilo de vida como a única legítima art de vivre, Bourdieu traz o Homo aestheticus de volta ao mundo do lugar-comum, do cotidiano e do contestado, ou seja, de volta ao âmago da ciência social.

(William Outhwaite & Tom Bottomore - "Dicionário do pensamento social do século XX")

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publicado às 16:02



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