Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



 


Os mestres da lógica paradoxal dizem que o homem só pode perceber a realidade em contradições e nunca podem perceber em pensamento a realidade-unidade final, o próprio Um. Isto leva á conseqüência de que não se busca como alvo derradeiro encontrar a resposta em pensamento. O pensamento só nos pode levar ao conhecimento de não nos poder dar a última resposta. O mundo do pensamento permanece presa do paradoxo. O único meio pelo qual o mundo pode ser apreendido de forma final não está no pensamento, mas no ato, na experiência da unidade. Assim, a lógica paradoxal leva à conclusão de que o amor de Deus não é o conhecimento de Deus em pensamento, nem o pensamento do amor de alguém a Deus, mas o
ato de experimentar a unidade com Deus.
Isto conduz à ênfase sobre o modo reto de viver. Tudo o que há na vida, toda ação pequena, e toda importante, devotam-se ao conhecimento de Deus, mas a um conhecimento não em reto pensamento, e sim em reta ação. Isto pode ser claramente visto nas religiões orientais. No bramanismo, assim como no budismo e no taoísmo, a meta final da religião não é a crença reta, mas a ação reta. Encontramos a mesma ênfase na religião judaica. Quase nunca houve um cisma sobre a crença na tradição judaica (a única exceção grande, a diferença entre fariseus e saduceus, era essencialmente a de duas classes sociais opostas). A ênfase da religião judaica colocava-se (especialmente a partir do início de nossa era) no modo reto de viver, o “Halacha” (tendo esta palavra, efetivamente, a mesma significação do “Tao”).
Na história moderna, o mesmo sentido se expressa no pensamento de Spinoza, Marx e Freud. Na filosofia de Spinoza, a ênfase desvia-se da reta crença para a reta conduta de vida. Marx expõe o mesmo princípio, quando diz: “Os filósofos têm interpretado o mundo de maneiras diferentes: a tarefa é transformá-lo”. A lógica paradoxal de Freud leva-o ao processo da terapia psicanalítica, à experiência de alguém, sempre mais profunda.
Do ponto de vista da lógica paradoxal, a ênfase não se situa no pensamento, mas no ato. Esta atitude tem várias outras conseqüências. Antes de tudo, leva à tolerância que encontramos no desenvolvimento religioso indiano e chinês. Se o reto pensamento não é a verdade final, se não é o caminho da salvação, então não há razão para combater os outros, aqueles cujo pensamento tenha chegado a formulações diferentes. Esta tolerância vem belamente expressa na história de diversos homens a que se pediu que descrevessem um elefante no escuro. Um, tocando-lhe a tromba, disse: “este animal é como um cano de água”; outro, tocando-lhe a orelha, disse: “este animal assemelha-se a um leque”; um terceiro, tocando-lhe as pernas, descreveu o elefante como uma coluna.
Em segundo lugar, o ponto de vista paradoxal leva à ênfase sobre o homem em transformação, em vez de levar ao desenvolvimento do dogma, de um lado, e da ciência, do outro. Das posições indianas, chinesas e místicas, a tarefa religiosa do homem não é pensar retamente, mas agir retamente e (ou) tornar-se um com o Único, no ato da meditação concentrada.
O oposto é exato quanto à principal do pensamento ocidental. Como se espera encontrar a verdade final no pensamento reto, a ênfase maior é posta sobre o pensamento, embora a reta ação seja também considerada importante. No desenvolvimento religioso, isto levou à formulação de dogmas, a infindáveis discussões sobre formulações dogmáticas e à intolerância quanto ao “incréu” ou herege. Levou, ainda mais, a acentuar a “crença em Deus” como o alvo principal de uma atitude religiosa. Isto, sem dúvida, não significa que não houvesse também o conceito de que se devesse viver retamente. Mas, não obstante, quem acreditasse em Deus — ainda que não vivesse Deus — considerava-se superior a quem vivesse Deus, mas não cresse nele.
A ênfase sobre o pensamento tem também outra conseqüência historicamente muito importante. A idéia de que se pode encontrar a verdade no pensamento levou não só ao dogma, mas também à ciência. No pensamento científico, o pensamento correto é tudo quanto importa, tanto do aspecto da honestidade intelectual quanto do aspecto da aplicação do pensamento científico à prática — isto é, à técnica.
Em suma, o pensamento paradoxal conduziu à tolerância e a um esforço para a auto-transformação. A posição aristotélica conduziu ao dogma e à ciência, à Igreja Católica e à descoberta da energia atômica.
As conseqüências, para o problema do amor de Deus, desta diferença entre os dois pontos de vista, já foram explanadas implicitamente e só precisam ser brevemente sintetizadas.
No sistema religioso ocidental predominante, o amor a Deus é essencialmente o mesmo que a crença em Deus, na existência de Deus, na justiça de Deus no amor de Deus. O amor a Deus é essencialmente uma experiência do pensamento. Nas religiões orientais e no misticismo, o amor a Deus é uma experiência intensamente sentida de unidade, inseparavelmente ligada à expressão desse amor no próprio ato de viver. A mais radical formulação foi dada a este alvo por Meister Eckhart: “Mudei-me portanto em Deus e Ele me fez um consigo, e assim, pelo Deus vivo, não há distinção entre nós... Algumas pessoas imaginam que vão ver Deus, que verão Deus como se Ele estivesse além e elas ali, mas não é assim. Deus e eu: somos um. Conhecendo Deus, tomo-o para mim. Amando a Deus, penetro-o”. (Meister Eckhart, ob. cit., pags. 181-2).

(Erich Fromm - "A arte de amar")
"Mudei-me em Deus, e Ele me fez um com Ele, e, assim, não há distinção entre nós. Algumas pessoas imaginam que verão Deus como se Ele estivesse além e elas aquém, mas não é assim. Deus e eu somos um. Conhecendo Deus, tomo-O para mim. Amando a Deus, penetro-O." (Mestre Eckhart)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:09



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D