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Como observou com razão o filósofo contemporâneo André Comte-Sponville, o estoicismo aproxima-se aqui de um dos temas mais sutis das sabedorias do Oriente, em particular do budismo tibetano: a esperança é, contrariamente ao lugar-comum segundo o qual não se poderia “viver sem esperança”, a maior das adversidades. Porque ela é, por natureza, da ordem da falta, da tensão insaciada. Vivemos continuamente na dimensão do projeto, correndo atrás de objetivos postos num futuro mais ou menos distante e pensamos, ilusão suprema, que nossa felicidade depende da realização completa de fins medíocres ou grandiosos, pouco importa, que estabelecemos para nós mesmos. Comprar o último MP3, uma poderosa câmera fotográfica; ter um quarto mais bonito, uma motoneta mais moderna; seduzir, realizar um projeto, montar uma empresa de qualquer tipo que seja: cedemos sempre à miragem de uma felicidade adiada, de um paraíso ainda a ser construído, aqui ou no além.
Esquecemos que não há outra realidade além da que é vivida aqui e agora, e que essa estranha fuga para adiante nos faz com certeza falhar. Assim que o objetivo é alcançado, temos quase sempre a experiência dolorosa da indiferença, ou mesmo da decepção. Como crianças que se desinteressam do brinquedo no dia seguinte ao Natal, a posse de bens tão ardentemente desejados não nos torna nem melhores nem mais felizes do que antes. As dificuldades de viver e o trágico da condição humana não são modificados e, segundo a famosa expressão de Sêneca, “enquanto se espera viver, a vida passa”.
Eis aí toda a lição de Perrette, se você se lembra da célebre fábula de La Fontaine: a jarra de leite não se quebra apenas por razões narrativas, mas na verdade porque o tipo de sonho que anima Perrette jamais pode ser realizado. É como quando a gente brinca de ficar milionário: “vamos supor que ganhamos na loteria”... e então compraríamos isso e aquilo, daríamos uma parte a tio João ou a tia Nininha, outra para as obras de caridade, faríamos uma viagem... E depois? No final, é sempre o túmulo que se desenha no horizonte, e logo se compreende que a acumulação de todos os bens materiais possíveis e imagináveis, por mais imprescindíveis que sejam (não sejamos hipócritas: como se diz de brincadeira, o dinheiro ajuda nem que seja para suportar a pobreza...), não resolve o essencial.
Eis por que, segundo um célebre provérbio budista, é preciso aprender a viver como se o instante mais importante da vida fosse aquele que você está vivendo no exato momento, e as pessoas que mais contassem fossem as que estão diante de você. Porque o resto simplesmente não existe: o passado não está mais aqui, e o porvir ainda não chegou. Essas dimensões do tempo são apenas realidades imaginárias que “carregamos nas costas” como essas espécies de “animais de carga” de que zombava Nietzsche, para melhor perder a “inocência do devir” e justificar nossa incapacidade para aquilo que ele chama, no sentido mesmo dos estoicos, de “amor fati”, o amor do real tal como ele é. Felicidade perdida, felicidade por vir, mas, ao mesmo tempo, presente fugidio, despachado para o nada, embora seja a única dimensão da existência real.
É nessa ótica que os Discursos de Epicteto desenvolvem um dos temas mais famosos do estoicismo — um tema sobre o qual ainda não falei porque é somente agora que você dispõe de todos os elementos para compreendê-lo bem. A vida boa é a vida sem esperanças e sem temores; é, pois, a vida reconciliada com o que é, a existência que aceita o mundo tal como é. Você entende que essa reconciliação não poderia acontecer se não houvesse a certeza de que o mundo é divino, harmonioso e bom.
É o que Epicteto aconselha a seu aluno: é preciso expulsar de “teu espírito sombrio”, diz ele, “o medo, a inveja, a alegria pelos males dos outros, a avareza, a moleza, a incontinência. Mas não é possível expulsá-los sem se ter consideração por Deus, sem se apegar apenas a ele, sem se dedicar a seguir suas ordens. Se quiseres outra coisa, tu te lamentarás, gemerás ao seguir aqueles que são mais fortes que tu, ao procurar sempre fora de ti a felicidade que jamais poderás encontrar; é porque procuras onde ela não está e que deixas de procurar onde ela está”. Injunção que é preciso ler aqui num sentido “cósmico” ou panteísta, e não como uma espécie de volta a não sei que monoteísmo.
Sobretudo, não se engane: o Deus de que fala Epicteto não é um ser pessoal como o dos cristãos; é apenas um equivalente do cosmos, outro nome para a razão universal que os gregos chamavam logos, rosto do destino que devemos aceitar, e até mesmo querer com toda a nossa alma, quando, vítimas das ilusões da consciência comum, cremos sempre ter de nos opor a ele para tentar submetê-lo. Como recomenda ainda o mestre ao discípulo:
É preciso conciliar nossa vontade com os acontecimentos de tal maneira que nenhum acontecimento ocorra contra nossa conveniência, e que também não haja nenhum acontecimento que ocorra quando não o desejamos. A vantagem para aqueles que estão assim prevenidos é de não falhar em seus desejos, de não se deparar com o que detestam, de viver interiormente uma vida sem dificuldade, sem temor e sem perturbação...
Certamente, tais considerações parecem, a priori, absurdas ao comum dos mortais. Ele não consegue ver nisso senão uma forma de “quietismo”, quer dizer, uma espécie de fatalismo, particularmente simplória. Aos olhos da maioria, a sabedoria é considerada loucura, porque repousa numa visão do mundo, numa cosmologia cuja compreensão íntima supõe um esforço teórico fora do comum. Mas não é justamente isso que distingue a filosofia dos discursos usuais? Não é assim que ela adquire um encanto a nenhum outro semelhante?
Devo confessar que eu mesmo estou longe de partilhar da resignação estoica — e mais adiante, quando evocarmos o materialismo contemporâneo, terei a oportunidade de lhe dizer mais precisamente por quê. Mesmo assim, ela descreve, de modo admirável, uma das dimensões possíveis da vida humana que, em certos casos — de modo geral, quando tudo vai bem! —, pode, de fato, assumir a aparência de uma forma de sabedoria. Há, com efeito, momentos em que não estamos dispostos a transformar o mundo, mas simplesmente a amá-lo e a experimentar com todas as nossas forças as belezas e as alegrias que ele nos oferece.
Por exemplo, quando você vai tomar banho de mar, quando põe a máscara para observar os peixes, você não mergulha para mudar as coisas nem para melhorá-las ou corrigi-las, mas, ao contrário, para admirá-las e amá-las. É mais ou menos segundo esse modelo que o estoicismo nos estimula à reconciliação com o que é, com o presente tal como ele é, para além de nossas esperanças e de nossos remorsos. É para esses momentos de graça que ele nos convida, e para multiplicá-los, torná-los tão numerosos quanto possível, ele nos sugere, de preferência, a mudança de nossos desejos, e não a da ordem do mundo.
Daí também ele nos fazer outra recomendação essencial: já que a única dimensão da vida real é a do presente e já que, por definição, esse presente vive em perpétua flutuação, é sábio habituar-se a não se apegar ao que passa. Sem isso preparamos para nós mesmos os piores sofrimentos que possam existir.

(Luc Ferry - Aprender a viver"

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publicado às 04:06


1 comentário

De Fátima Dias a 17.07.2013 às 21:02

Com toda certeza as jarras de leite que carregamos pesam mais do que seu conteúdo, pois nos roubam o andar, as flores do caminho, os passantes, o encantamento do que possuímos.
É um desafio diário nos mantermos lúcidos.
A certeza que tudo não passa de um conto, num enorme livro de contos que é a nossa vida, é que nos tira os grilhões..
Quantos contos já vivemos?
Quantos virão?
Saber que estamos vivendo um conto num grande livro, não tira a beleza do conto... mas tira o seu peso,
Somos mais, por isso somos o presente.
Adorei o seu texto!

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