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Paixão e vício

por Thynus, em 04.07.13

 

Vem da tradição filosófica erguida sobre o estoicismo romano e o cristianismo a oposição entre virtude e vício como oposição entre razão e paixão. Signo de uma razão que foi desnaturada pelos costumes, para o estoico, e de uma vontade pervertida pela soberba do primeiro homem, para o cristão, a paixão lança o homem na bestialidade. Todavia, enquanto os estoicos afirmam o poder natural da razão para dominar e suprimir a paixão, os cristãos não podem fazê-lo de imediato, pois, em decorrência do pecado original ou da culpa originária, a natureza humana é viciosa; a razão, estulta; e a vontade, serva. Somente pela fé, com o auxílio da graça santificante, a paixão há de ser domada.
O pensamento moderno, porém, descobre que a razão, luz natural finita, encarregada de guiar a vontade livre, ao esbarrar na paixão, não depara simplesmente com o risco da bestialidade, mas encontra um fundo irracional que a espreita e pode, a qualquer momento, invalidá-la. O deslocamento da paixão para o fundo sombrio da irrazão prepara o caminho que conduz aos nossos dias e que Foucault investigou na História da loucura na Idade Clássica: as paixões da alma irão deixando de pertencer à metafísica, à ética e à política para se tornar paulatinamente objeto da medicina, da psiquiatria e da psicologia clínica. Deixam de ser vícios, mas também deixam de ser paixões, porque ficam sob a suspeita de ser doença. Medicalizada, a paixão enquanto paixão encontra refúgio apenas numa região marginal, supostamente sem compromisso com a verdade e com a realidade, isto é, na literatura e nas artes. Será preciso aguardar longo tempo até que a filosofia novamente dela se ocupe.
Antes, porém, que esse movimento chegasse a se completar, a dissolução da moral da valentia já encetava seu curso, sob o signo da nova formação social que iria destituir a aristocracia de seus valores agonísticos.
No século xvi, Montaigne é responsável por uma mutação decisiva. Por natureza e por costume, escreve ele, temos boas e más inclinações, bons e maus sentimentos sem que virtude e vício coincidam inteiramente com o bom e o mau naturais ou costumeiros. Virtude e vício dependem da presença ou da ausência da razão, “posta pela Natureza a nosso serviço, a fim de nos guiar”. Assim, fraqueza de ânimo e covardia não são o mesmo: a primeira nos vem da Natureza ou do costume; a segunda, da surdez aos conselhos da razão. Por isso o medo, “estranho sentimento”, é o que nos torna insensatos, pondo “asas em nossos pés” quando não deveríamos fugir, e “pregando-nos ao solo” quando a fuga seria necessária. É ele que nos rouba a coragem e dá ensejo à crueldade. Como todo páthos, o medo é um acidente que sobrevém ao éthos, mas não se opõe à valentia, e sim à prudência. E, no século xviii, Rousseau falará na extravagância (isto é, na loucura) da valentia — “a mais extravagante e bárbara das opiniões que um dia entrou no espírito humano” —, pois é um perigo para a sociabilidade fundada no contrato. De fato, na Carta a d’Alembert, Rousseau denuncia o elogio da coragem ou da bravura pelo qual “um homem deixa de ser velhaco, impostor, caluniador e é civil, humano e polido quando sabe bater-se”, ou “que a mentira se transforma em verdade, o roubo se torna legítimo, a perfídia honesta. A infidelidade louvável, desde que se sustente tudo isso com a espada na mão”. A bravura é insensata porque antissocial.
Sob o signo da sensatez, os valores aristocráticos — coragem, fama, glória, riqueza e honra — transformam-se em paixões da alma que a moral burguesa deve, ao mesmo tempo, suprimir e conservar. O percurso dessa curiosa Aufhebung é admiravelmente descrito por Hirschman quando narra a gradual metamorfose do éthos aristocrático em tolice, loucura e vício no momento da constituição da economia política burguesa. Perante as paixões, três atitudes são possíveis: a repressiva ou calvinista, que pretende suprimir o passional; a astuta ou maquiavélica, que espera transformar as paixões em força civilizatória, graças à “astúcia da razão”; e a realista (representada por Bacon e Espinosa), que introduz o “princípio da paixão equivalente contrária” com o qual uma paixão será vencida por outra. Para esta última atitude, tida por Hirschman como vitoriosa, trata-se de abandonar o impossível — tanto a repressão como a utilização do passional — por uma estratégia que permita combater as paixões mais destrutivas e perigosas por meio de paixões equivalentes contrárias. A batalha entre as paixões, acreditam os realistas, redundaria no aparecimento de um contrapoder passional, benéfico e natural. Para tanto, um terceiro termo vem intercalar-se às paixões, o conceito de interesse. Iniciando sua intervenção no plano ético e psicológico, o interesse tornar-se-á um conceito político e, a seguir, voltará a ser o que sempre fora, isto é, um conceito econômico explicitado completamente por Adam Smith.
É paradoxal o itinerário do par paixão/interesse. No início, o interesse define o conjunto das paixões “úteis” que poderão vencer as destrutivas. O interesse é paixão, aquela que cumpre dois objetivos fundamentais, quais sejam, a autoconservação do indivíduo e a segurança política ou manutenção da ordem contratual e consensual. No final do itinerário, porém, o interesse se torna um conceito acrescentado à paixão, e Adam Smith fala em interesse e paixões. Para que essa mudança fosse inteligível, seria preciso que soubéssemos o que aconteceu ao antigo par interesse/paixão. Infelizmente, porém, Hirschman acompanha muito pouco o que sucedeu às paixões e muito mais o que se passou com o interesse. Para os teóricos do interesse, este será uma categoria “isenta da destrutividade da paixão e da ineficácia da razão”. Todavia, e isso é crucial (ainda que Hirschman pareça desconsiderálo), tão logo a noção de interesse intervém, é de imediato assimilada à de cálculo racional para o bom uso das paixões e, dessa maneira, desde o início, é possível perceber que o interesse integrava-se na lógica da razão (mercantilista). Julgamos ser essa integração o que permite a passagem do par inicial “interesse é paixão” para o par final “interesse e paixão”. Em outras palavras, representada com fundo irracional, a paixão continua não “isenta de destrutividade” e a ela não se opõe “a ineficácia da razão”, como supõe Hirschman, mas um novo conceito de razão que é, exatamente, o interesse. Se a paixão é vista como destrutiva é por aparecer como incapaz daquilo que é a marca da racionalidade do interesse, ou seja, saber calcular ganhos e perdas para alcançar plena satisfação. É na qualidade de razão calculadora que o interesse, ao fim e ao cabo, vem justapor-se à paixão — interesse e paixão. Por conseguinte, não é, como supõe Hirschman, a Espinosa que se deve fazer referência para essa mutação conceitual, e sim a Hobbes.
O interesse/razão procura ser operatório e operativo, selecionando paixões compatíveis com os interesses em jogo. Não abole as paixões, e sim, rigorosamente, negocia com elas e as negocia. Nesta perspectiva, não é tanto a relação interesse/paixão que é nova, e sim a mudança do conceito de razão sob o signo do interesse. Para que se viesse a falar em interesses privados (lucro e riqueza) e em interesses públicos (a razão de Estado) e para que se passasse, como claramente evidencia Hirschman, da fórmula “o interesse nunca mente” à “o interesse governa o mundo”, um duplo movimento foi necessário. O primeiro, analisado por Hirschman, é a compatibilização entre interesse e paixão. Mas é requerido também um segundo, não analisado por Hirschman: o da contabilização da paixão pelo interesse. Nesse segundo movimento, a paixão vai rumando para a periferia do mundo moral, econômico e político na qualidade de resíduo ou resto irracional da natureza humana, aquilo que não pode ser contabilizado em favor do interesse. É óbvio que esse segundo movimento encontra sua condição de possibilidade na metamorfose da razão em figura da lógica do capital, absorvendo o interesse. Essa razão, longe de ser ineficaz, faz as contas e, em seu cálculo, cabe à paixão o hospital psiquiátrico, onde a alma faz de conta.
Hirschman situou Espinosa entre os pensadores realistas, teóricos do jogo das paixões contrárias e equivalentes. Cabem aqui dois reparos. Em primeiro lugar, Espinosa não pensa em paixões contrárias equivalentes, e sim em paixões contrárias mais fortes, e essa diferença é significativa, como veremos. Em segundo, visto que não considera a paixão um vício da natureza humana e que não cessa de demonstrar a impotência de uma razão calculadora perante as paixões, o interesse vem subordinado à distinção (esta sim, essencial) entre passividade e atividade, de maneira que, demonstra ele, os mesmos afetos podem ser passivos (paixões) ou ativos (ações), dependendo não do interesse, e sim da causa eficiente que os produz.

(Marilena Chauí - "Desejo, paixão e ação na ética de Espinosa")

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publicado às 22:15



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