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O amor e a paixão

por Thynus, em 03.07.13

 

Por que falar do amor? Não basta amar?
A resposta é não. Em qualquer idade, o amor, a paixão entre duas pessoas é algo maravilhoso, mas quanto mais conhecermos a estrutura desses sentimentos e das emoções que lhes são relacionadas, melhor poderemos vivê-las, tanto na adolescência quanto em outros momentos da vida.
Estamos, portanto, escolhendo uma das paixões ''alegres", discutidas no texto sobre o desejo, uma vez que en-focaremos somente a paixão amorosa e, ainda aqui, do ponto de vista psicológico.
Francesco Alberoni, sociólogo italiano contemporâneo, estabelece algumas diferenças entre a paixão e o amor, como veremos a seguir.

A paixão

A paixão, segundo Alberoni, é uma revelação, uma fulguração que transforma toda nossa vida. É o advento do extraordinário que nos retira da tranqüilidade da vida cotidiana, na qual os laços afetivos se encontram já consolidados, e nos atira num rodamoinho que transfigura a qualidade da vida e da experiência, levando-nos a alterar radical e profundamente nossas relações com os outros e nossa postura frente ao mundo.
A paixão, ainda de acordo com a terminologia de Alberoni, é um "estado nascente" que pode levar uma pessoa a descobrir outra ou a descobrir ideais coletivos que a façam ligar-se a um grupo ou movimento. Assim, a paixão é um impulso vital que nos leva a explorar todos os possíveis de nossa vida, que nos faz descobrir emoções intensas e ativa nossa imaginação, tornando-nos mais criativos e contribuindo para que assumamos riscos.
Entretanto, não nos apaixonamos em qualquer momento da vida. É preciso que estejamos disponíveis, predispostos a nos apaixonar, dispostos a romper com o passado e a colocar em questão a nossa vida, buscando outras respostas. Por isso, nos apaixonamos com maior facilidade durante a adolescência.
"A adolescência é o período de passagem da infância e da família infantil para o mundo adulto em toda sua complexidade. Se o estado nascente é um separar o que estava unido e unir o que estava separado, não há nenhuma idade melhor que esta para que esse processo se desenvolva em sua plenitude. Separar da família, do mundo de valores, das emoções, das crenças infantis e unir a outras pessoas que podem ser amadas, e, também, a partidos, grupos, à política, à ciência. A adolescência é, por isso mesmo, a idade do contínuo morrer e renascer para outra coisa, do contínuo experimentar as fronteiras do possível. Na adolescência, portanto, vemos o eclodir de paixões rápidas, um contínuo unir e separar, numa sucessão de revelações e desilusões." (Alberoni.)
A paixão é, ainda, exclusivista. Seu objeto é um só e não pode ser substituído. A paixão exige total dedicação. No entanto, pode ser unilateral, isto é, pode não ser correspondida.
A paixão cria, também, o tempo e o espaço míticos. Determinadas datas, determinados lugares são considerados "sagrados '' pelo par enamorado. São "seus". Estão ligados à origem da paixão e são comemorados seguidamente, tendo a função de reativar os sentimentos.
A paixão caracteriza-se por ser ao mesmo tempo necessidade de fusão com o ser amado e necessidade de individuação, por ser a procura do essencial para ambos, mesmo que os projetos individuais sejam diferentes. A paixão se alimenta da tensão criada pela diferença que se deseja igualdade. Desejamos a diferença do outro porque é ela que nos atrai, por abrir novos horizontes de vida. Ao mesmo tempo, porém, tentamos limitar essa diferença, para nos sentirmos seguros. O ser amado é sempre força vital livre, imprevisível e polimorfo.
E é o próprio fato de o ser amado ser imprevisível que nos faz sentir medo da perda e o ciúme. Aquele que for o mais inseguro do casal começa a colocar limites cada vez mais estreitos como provas de amor, a exigir renúncias numerosas a fim de tornar o parceiro um ser dócil, inócuo, domesticado.
O outro aceita, renuncia a amizades, programas, viagens, às vezes, até à profissão. Muda seu comportamento e sua aparência para manter o amado feliz, transforma-se na imagem desejada por ele, perde sua individualidade, sua liberdade de ser e de escolher. O parceiro, por sua vez, se vê seguro, mas diante de uma pessoa que não mais o interessa, que não aponta mais para novas possibilidades de vida, que não tem mais a força vital pela qual se apaixonou.
Este é o fim da paixão e o começo da desilusão e do rancor, isto é, o momento em que a paixão alegre degenera em paixão triste.

 O amor 

Às vezes, em continuação à paixão, outras, nascendo sem ela, temos o amor. O amor é um sentimento de tranqüilidade, de ternura, de reconhecimento das boas qualidades do outro e de aceitação de seus defeitos. Dura mais que a paixão porque se encaixa e se desenvolve fora das situações extraordinárias, dentro dos limites da vida cotidiana.
A passagem da paixão para o amor é feita através de provas, algumas cruciais, às quais nos submetemos e sub-metemos o outro. Se as provas forem superadas, a paixão vai se revestindo de certeza e o amor passa a preencher os espaços da vida cotidiana, durante a qual nos preocupamos com o outro, assumimos certas tarefas para o seu bem-estar, dedicamo-nos à realização de projetos comuns.
A prova à qual nos submetemos é a prova da verdade: queremos saber se estamos mesmo apaixonados, ou se podemos nos distanciar e dar a paixão por encerrada. É a própria força dos nossos sentimentos que nos impele a resistir, a crer que nos enganamos, que estaremos bem sem o outro. Já nos inebriamos, agora queremos paz. Basta, entretanto, pouco tempo de separação para que sintamos o renascer da paixão, do encantamento, da necessidade e do desejo de estar com o outro. Neste caso, a prova foi superada.
A prova que diz respeito ao outro é a prova da reciprocidade. Ao mesmo tempo que reorganizamos toda a nossa vida ao redor do ser amado, desejamos que ele também esteja disposto a se reorganizar, fazendo de nós o centro de todos os seus interesses. Os dois lados fazem renúncias em nome de um projeto comum. Ambos modificam seus planos e aceitam entrar no projeto do outro. Há, contudo, casos em que não podemos renunciar a parte de nosso projeto, sem renunciar, também, àquilo que somos, ao próprio sentido de nossas vidas e do amor. Esses são os pontos de não-retorno, o nó que o outro deve aceitar, tomar como seu, inserir no seu projeto, abrindo espaço para o nosso eu real.
Superadas essas provas, chegamos à tranqüilidade do amor compartilhado. Isso não quer dizer, entretanto, que ele vá durar a vida inteira.
Devemos sempre nos lembrar de que o amor é uma relação que precisa ser cuidada para não cair no ressentimento, na cobrança por todas as renúncias feitas. É um contínuo refazer de projetos que se adaptem a cada mudança de curso de qualquer um dos parceiros e a cada época da vida a dois, pois o equilíbrio entre a individualidade de cada um, sua necessidade de realização e as exigências do projeto comum é extremamente frágil.

(Maria Lúcia de Arruda Aranha, Maria Helena Pires Martins - "Temas de filosofia")
LEITURA COMPLEMENTAR

[Amizade e enamoramento]
Parece-me oportuno começar logo essa análise, para entrar no âmago do problema. E eu o faria comparando a amizade a uma forma de amor com a qual, na maioria das vezes, é confundida: o enamoramento. Desobstruiremos o campo, mostrando que são dois fenômenos muitíssimo diferentes, até mesmo opostos. O enamoramento é um fato, um acontecimento que tem um início definido. Em sua origem há o estado nascente, uma fulguração, uma revelação. A amizade, porém, não se materializa com uma revelação única inicial, mas com uma série de encontros e de aprofundamentos sucessivos. Outra diferença entre enamoramento e amizade é que não existe um enamoramento verdadeiro e um menos verdadeiro. Não há graus de enamoramento: muitíssimo, multo, bastante, um pouco. Quando digo "estou enamorado", digo tudo. O enamoramento segue a lei do tudo ou nada. A amizade, no entanto, tem muitas formas e muitos graus: vai desde um mínimo até um máximo de perfeição. A amizade pode ser pequena, apenas um movimento da alma, ou então grande, grandíssima. O enamoramento é perfeito desde o início. A amizade, porém, vai na direção do mais. Quando falamos de amizade temos também sempre em mente um ideal, uma utopia.
Prossigamos com a nossa análise. O enamoramento é uma paixão. Em alemão, paixão é Leidenschaft. Leiden é o sofrimento. Na paixão, de fato, também há sempre um sofrer. O enamoramento é êxtase, mas também tormento. A amizade, porém, tem horror ao sofrimento. Quando pode, evita-o. Os amigos procuram-se para se sentirem bem juntos. Se não conseguem, tendem a afastar-se, a pôr um pouco de distância entre eles. Outra diferença fundamental é que posso enamorar-me de alguém e não ser correspondido. Nem por isso deixo de estar enamorado. O enamoramento nasce sem reciprocidade e vai em busca dela. A amizade, no entanto, requer sempre, acho eu, uma reciprocidade qualquer. Não fico sendo amigo de alguém que não seja meu amigo. No enamoramento é sempre terrível deixar quem amamos. Para livrar-me de um enamoramento não correspondido, preciso exercer uma violência sobre mim mesmo, odiar o outro. Mas o ódio pelo amado é, por sua vez, um sofrimento, o mais atroz dos sofrimentos. Na amizade, porém, não há espaço para o ódio. Se odeio um amigo, já não sou seu amigo, a amizade terminou. (...)
(ALBERONI, Francesco. A amizade. Rio de Janeiro, Rocco, 1989. p. 10-11)

Os óculos escuros
Esconder. Figura deliberativa: o sujeito apaixonado se pergunta, não se deve declarar ao ser amado que o ama (não é uma figura de confissão), mas até que ponto deve esconder dele suas '"perturbações" (as turbulências) da sua paixão: seus desejos, suas aflições, enfim, seus excessos (na linguagem raciniana: seu furor).
(...)
3. Impor a máscara da discrição {da impassibilidade) à minha paixão: eis aí um valor propriamente heróico; "É indigno das grandes a]mas espalhar ao seu redor a perturbação que sentem" (Clotilde de Vaux); o capitão Paz, herói de Balzac, inventa para si mesmo uma amante falsa, para ter certeza de esconder hermeticamente da mulher do seu melhor amigo que morre de amor por ela. Entretanto, esconder totalmente uma paixão (ou mesmo simplesmente seu excesso) não é conveniente: não porque a pessoa humana seja muito fraca, mas porque a paixão é, por essência, feita para ser vista: é preciso que se veja o esconder: saiba que estou lhe escondendo alguma coisa, esse é o paradoxo ativo que tenho que resolver: é preciso ao mesmo tempo que isso se saiba e que não se saiba: que se saiba que eu não quero mostrá-lo: eis a mensagem que dirijo ao outro. Larvatus prodeo: avanço mostrando minha máscara com o dedo: ponho uma máscara sobre a minha paixão, mas designo essa máscara com um dedo discreto (e insinuante). Toda paixão tem finalmente seu espectador: na hora de morrer, o capitão Paz não pode se impedir de escrever à mulher que ele amou em silêncio: não existe oblação amorosa sem teatro final: o signo é sempre vencedor.
4. Imaginemos que eu tenha chorado, por causa de algum incidente do qual o outro nem mesmo se deu conta (chorar faz parte da atividade normal do corpo apaixonado), e que, para que não se veja, ponho óculos escuros nos meus olhos embaçados (belo exemplo de denegação: escurecer a vista para não ser visto). A intenção do gesto é calculada: quero guardar o benefício moral do estoicismo, da "dignidade" (me tomo por Clotilde de Vaux), e ao mesmo tempo, contraditoriamente provocar a doce pergunta ("Mas o que é que você tem?"); quero ser ao mesmo tempo lamentável e admirável, quero ser no mesmo instante criança e adulto. Agindo desse modo, jogo, arrisco: pois é sempre possível que o outro não pergunte nada sobre esses óculos inusitados, e que, na verdade, não veja neles nenhum signo.
5. Para fazer compreender ligeiramente que sofro, para esconder sem mentir, vou utilizar uma hábil preterição: vou dividir a economia dos meus signos.
Os signos verbais ficarão encarregados de caiar, de mascarar, de tapear: não demonstrarei nunca, verbalmente, os excessos do meu sentimento. Nada tendo dito sobre os estragos dessa angústia, poderei sempre, quando ela tiver passado, ter certeza de que ninguém terá sabido dela. Força da linguagem: com minha linguagem posso fazer tudo: até e principalmente não dizer nada.
Posso fazer tudo com minha linguagem, mas não com meu corpo. O que escondo pela linguagem, meu corpo o diz. Posso modelar à vontade minha linguagem, não minha voz. Não importa o que diga minha voz, o outro reconhecerá que "eu tenho qualquer coisa". Sou mentiroso (por preterição), não comediante. Meu corpo é uma criança cabeçuda, minha linguagem é um adulto muito civilizado...
(BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1981. p. 89-90)

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publicado às 19:42



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