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PAIXÃO, ATRAÇÃO E CASAMENTO

por Thynus, em 02.07.13

 

 

 

Quando estamos apaixonados experimentamos o êxtase, poucas coisas podem ser tão agradáveis nesta vida. O objeto de nossa paixão é suficiente para nos garantir toda satisfação e a tão buscada felicidade parece ter finalmente se tornado realidade.
Idealizamos nossos amados como portadores de todo o valor e fonte inesgotável de prazer e bem estar. Então nos dirigimos ao passo seguinte que é concretizar essa união, casando ou vivendo sob o mesmo teto. Quando o tempo da paixão se extingue sobrevem a frustração. É inevitável porque nossas expectativas eram demasiadas e ninguém no mundo pode ser a fonte de toda satisfação para outra pessoa. Poderá ser uma das fontes de satisfação, mas não terá como ser a única, fatalmente teremos que buscar em outras situações o nível de satisfação de que necessitamos.
Como a paixão não se extingue exatamente no mesmo instante para ambos, é provável que surjam ressentimentos. Ou por que o outro já não nos vê da forma idealizada de antes e nossa vaidade gostaria que assim fosse, ou por que nós já não podemos esperar dele satisfação constante . Sentimos que alguém falhou.
Ou eu falhei, não sendo capaz de mantê-lo eternamente apaixonado, ou é ele não foi capaz de perceber a oportunidade que a vida lhe deu de estar a meu lado e ser feliz para sempre.
Há uma imaturidade em esperar que alguém corresponda a todas as nossas expectativas e nos mantenha em
permanente estado de satisfação fazendo de nós o centro do seu universo. A mesma expectativa que temos na infância em relação aos nossos pais e que um dia também se mostra impossível.
Como é parte da nossa natureza ansiar pelo outro e ter a necessidade de amar e ser amado essa é uma das nossas principais questões e resolvê-la deve passar por um ajuste de expectativas. Isso depende de um amadurecimento que nos leve a responsabilizarmo-nos pela nossa satisfação tanto quanto temos que nos responsabilizar por nossa sobrevivência. Assim como ao nos tornarmos adultos não devemos esperar que outros nos sustentem e dirijam, também não seria razoável esperar que outra pessoa represente tudo que aspiramos e nem que espere de nós tal coisa.
Mas, como a paixão é um louco anseio pelo outro, somos capazes de fazer promessas de tal ordem e de crer nas que nos são feitas. Se nossas expectativas de crianças não chegaram a encontrar correspondência na realidade, pois nossos pais fatalmente um dia nos decepcionam e temos de crescer e afastarmo-nos deles, quem sabe este novo amor terá melhor destino?
E não tem melhor destino quando nossas expectativas são essas, não podem ter, dada a impossibilidade que trazem em si. Começando pelo fato de que o desprazer é inevitável em algum momento e nem nós, nem o outro conseguiremos vestir a roupa de super heróis capazes de modificar toda a realidade em favor do amado.
Nossas expectativas não vem abaixo sem sofrimento. Se o relacionamento se rompe podemos encontrar outro, mas o sucesso deste também dependerá da forma como o encaremos. Permanecendo vivas nossas fantasias de felicidade total, cairemos no mesmo quadro. Talvez até passemos a crer na impossibilidade de um relacionamento romântico e deixemos que a desesperança domine a cena. Podemos passar a encarar o assunto como algo perigoso, uma fonte de inesgotáveis enganos e tentemos nos afastar. Manteremos distância emocional suficiente para sentir-nos seguros tornado superficiais os relacionamentos. Não creio que ignorar o outro de um ponto de vista afetivo seja solução satisfatória por muito tempo. Tomá-lo apenas como objeto do desejo sexual direto e isolado de toda ligação amorosa não funciona, sempre fica um gostinho de quero mais. A corrente afetiva da sexualidade, que é tão importante quanto a outra para um ser maduro, fica relegada ao exílio.
Mesmo que desejemos ardentemente tornar possível esse método, pensando em economizar sofrimento, ele não se revelará satisfatório.
Os homens tem parecido os menos satisfeitos com tantas mudanças nas relações entre os sexos. Acho compreensível. Os relacionamentos nos moldes antigos forneciam a eles grandes fontes de satisfação. A figura feminina, na cabeça de um homem estará sempre ligada a uma figura maternal. Uma revivescência do seu primitivo amor pela mãe era possível no casamento tradicional mais do que hoje. A mulher o servia, cuidava dele, de seu bem estar, de sua alimentação, de suas roupas. Como sua mãe o fez um dia, mas com a vantagem de oferecer também satisfação sexual e de poder ter a mulher amada só para si.
Coisa que sempre foi ardentemente desejada por ele desde a infância, mas a existência do pai, de irmãos ou de um padrasto atrapalharam. Agora, casado, o homem pode realizar o desejo de ser carinhosamente tratado por uma mulher, com exclusividade e com satisfação de todos os seus impulsos e desejos.
A nova modalidade de relacionamento o priva de muitas dessas satisfações, não será tão fácil encontrar uma mulher disposta a servi-lo com o mesmo zelo com que sua mãe o fez. Ele também não terá o controle da relação, essa mulher é mais independente e pode deixá-lo se achar conveniente. Pode compará-lo a outros homens, está sujeito a sofrer comparações e ser considerado insatisfatório. Seu paraíso sofreu sérios abalos, sem dúvida. Essa nova mulher vai reclamar, vai cobrar uma posição igualitária, querer que se responsabilize pelo cuidado com os filhos e as tarefas domésticas. Não vai mais se submeter a uma relação sexual por dever conjugal, vai julgar-se no direito de recusálo. Caso ele a traia vai, provavelmente, julgar-se com liberdade para fazer o mesmo.
Não parece que eles estivessem preparados para tantas mudanças nem que a maioria goste delas, tentam adaptar-se. Algumas vezes a tentativa de adaptação se deve mais a um discurso politicamente correto que a uma firme convicção interna. Fica com a impressão de que o discurso masculino de concordância com a emancipação feminina é mais falso do que eles mesmos percebem.
Também há contradições na postura feminina, a liberação sexual não é tão ampla quanto parece. Muitas pessoas ainda tem severas inibições enquanto outras parecem muito a vontade com sua vida sexual e com a troca de parceiros, porém num exame mais profundo confessam-se frustradas com a falta de um vínculo estável. As mulheres ainda alimentam sonhos de serem felizes para sempre com um príncipe encantado que acabará surgindo. Várias delas admitem que a cada relacionamento eventual, que pode ser com alguém que há pouco conheceram e com quem vão logo para a cama, têm a expectativa de daí começar um lindo romance, numa desastrada leitura da realidade onde isso poucas vezes acontece. Algumas nem ao menos esperam conhecer minimamente o caráter de alguém para elevá-lo à condição de possível par romântico. É um exemplo de como a pressão de um instinto pode nos levar a desprezar o teste de realidade.
Entre as mulheres casadas podemos identificar várias postura em relação a sexualidade. Há aquelas que permanecem submetendo-se aos desejos do marido encarando como uma obrigação satisfazê-los e uma garantia de não serem trocadas. Mas passar por cima de si própria não é tão fácil e uma boa quantidade de ressentimentos se acumula aí.
Há as que resolvem algum desencontro e perda de interesse no parceiro buscando uma relação extra conjugal. Há as que desejam fazê-lo mas não encontram uma brecha em sua própria censura e permanecem na fantasia. E há aquelas que se recusam a submeter-se a uma relação sexual contra sua vontade e encontram certa dificuldade em explicar isso aos maridos que sentindo-se desprezados podem tornar-se distantes e até agressivos.
O que se percebe é que sexo pode ter significados diferentes para homens e mulheres, elas tendem a valorizar mais o componente afetivo da relação e eles mais o sexual direto. Talvez a mulher seja mais dependente da fantasia romântica, é mais importante para ela a forma como passaram o dia para que possam ter uma boa relação sexual à noite. Já os homens parecem separar mais as coisas, se vai bem na cama não importam muito os desacertos do dia a dia.
Além de tudo isso há uma diferença biológica que não é desprezível. A libido feminina obedece um ciclo e qualquer mulher que se conheça sabe que seu desejo não é linear, há dias em que ela está mais interessada em sexo e mais capaz de desfrutá-lo. É assim na natureza, as fêmeas tem cio e mulheres são fêmeas como as de outras espécies. O desejo masculino, de um ponto de vista orgânico, é mais constante variando mais em relação a fatores como stress e tensão.
A monogamia não pode pretender basear-se na premissa que nosso desejo se manterá fixo numa mesma pessoa, isso é uma tentativa de controlar algo que é totalmente espontâneo e livre da influência das regras. Tesão não conhece regras e muito menos casamento. Ele acontece, ele mesmo escolhe seu objeto.
O que podemos fazer é a promessa de, em nome do afeto que sentimos pelo outro e do compromisso que assumimos, renunciar a quaisquer interesses sexuais que surjam por outros que não nossos parceiros. Essa pelo menos é uma promessa mais realista.

(Manoelita Dias dos Santos - "A LÓGICA DA EMOÇÃO, da psicanálise à física quântica")

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publicado às 19:42



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