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Homem: ser de desejo

por Thynus, em 25.06.13
A paixão(do grego, pathos, significa sofrer ou suportar uma situação dificil) é uma emoção de ampliação quase patológica. O acometido de paixão perde sua individualidade em função do fascínio que o outro exerce sobre ele. É tipicamente um sentimento doloroso e patológico, porque, via de regra, o indivíduo perde parcialmente a sua individualidade, a sua identidade e o seu poder de raciocínio. Contudo a paixão não é distúrbio ou doença, mas faz parte da realidade humana (prejudicial seria a apatia, a ausência de sentimento e paixão).

Nada se faz sem paixão

Quando perguntamos "o que é o homem?", a resposta mais comum é "o homem é um animal racional". Isso é bem verdadeiro, mas incompleto. O homem é também um ser de desejo.
E como surge o desejo? Surge à medida que o homem estabelece relações com a natureza e com os outros homens, ocasião em que vivência emoções e sentimentos, isto é, reage afetivamente aos acontecimentos. Qualquer ação humana se explica pelo fato de ser motivada: o homem sente falta, precisa de alguma coisa e deseja alcançá-la. Por isso sai em busca de alimento, de abrigo, de repouso, como também do reconhecimento dos outros, do amor, da beleza etc. Nessa busca, tenta evitar a dor, o sofrimento, o desconforto, a solidão e a morte.
A razão é importante por fornecer ao homem os meios para compreender a realidade, solucionar problemas, projetar a ação e reavaliar o que foi feito. Mas o impulso, a energia, a vibração vêm do desejo. É este que põe o homem em movimento.
Enquanto os atos da razão são resultado da vontade, os sentimentos e emoções afetam os homens independentemente de seu consentimento. Quando somos afetados, não podemos evitar a resposta, seja ela de prazer, dor ou cólera. É nesse sentido que podemos entender o conceito de paixão a partir de sua etimologia: paixão vem de pathos, que em grego tem a mesma raiz de sofrer, suportar, deixar-se levar por.
Existe uma longa tradição que identifica a paixão aos afetos fortes e incontroláveis. Além disso, a paixão é com freqüência associada apenas ao amor, principalmente ao amor intenso, fulminante e "perturbador da alma" que impede o homem de perceber os acontecimentos com clareza. Trata-se de uma concepção negativa, pois os que pensam dessa forma consideram a paixão uma espécie de fraqueza humana, e portanto perigosa, já que o homem por ela "arrebatado" perde o controle de si.
Vamos aqui considerar a paixão como qualquer afeto, seja fraco ou forte. E mais:
• a paixão amorosa não é a única existente; pode-se falar também em paixões em relação ao ódio, medo, inveja, glória; isto é, existem tantas paixões quantos são os afetos humanos;
• a paixão não é distúrbio ou doença, mas faz parte da realidade humana (prejudicial seria a apatia, a ausência de sentimento e paixão);
• não há por que se envergonhar das paixões: elas surgem independentemente de nossa vontade, isto é, não podemos ter ou não ter paixões; por isso, a paixão não é alguma coisa a ser evitada ou negada.
Paixão de vida e paixão de morte
Não convém concluir apressadamente que o homem pode viver todas as paixões tal como elas se impõem. Se isto ocorresse, a vida em comum se tornaria impossível e o próprio indivíduo enfrentaria impulsos contraditórios e inconciliáveis. Além do que, não se poderia contar com a possibilidade de existência de uma vida propriamente moral.
Se "nada se faz sem paixão", também é verdade que razão e paixão são inseparáveis. Mas a relação que se estabelece entre esses dois pólos varia de acordo com as diversas correntes filosóficas.
Para Platão, o homem é constituído por três almas, uma pela qual compreendemos (racional), outra pela qual nos irritamos (irascível) e outra pela qual "desejamos os prazeres da comida, da reprodução e todos os outros da mesma família" (concupiscível). O homem sábio é aquele que fortalece a razão, alma superior, e não se deixa ar-rastar pela força das paixões.
Já não é assim que pensa o holandês Spinoza (séc. XVII), para quem a razão não é superior aos afetos, nem cabe a ela controlá-los. As afecções do corpo e sentimentos da alma são forças de existir e agir e jamais serão vencidas por uma idéia ou por uma vontade, mas apenas por outros afetos mais fortes e poderosos do que eles.
Para Spinoza, a tristeza é a consciência que temos da diminuição da nossa realidade e da nossa capacidade de agir. Por exemplo, ignorar é tristeza, perder o amado é tristeza. Daí derivam outros afetos (tristes): desesperança, autopiedade, medo, ressentimento, inveja, ódio. É possível ultrapassar esse estado criando condições para as paixões alegres se tornarem mais fortes que as tristes. Conhecer e criar geram alegria, que consiste na consciência do aumento de nossa capacidade de agir. As paixões alegres fazem nascer o amor, a amizade, o contentamento, a esperança, e só elas serão capazes de combater as paixões nascidas da tristeza.
As boas paixões permitem o desenvolvimento humano, facilitam o encontro das pessoas e proporcionam a alegria. As más paixões impedem o crescimento, corrompem as relações e orientam para as formas de exploração e destruição.
Em resumo, a boa paixão é voltada para a vida, enquanto a má paixão se volta para a morte.

(Maria Lúcia de Arruda Aranha, Maria Helena Pires Martins - "Temas de filosofia")
Filósofos há que concebem os afetos, em nós conflitantes, como vícios em que caem os homens por sua própria culpa. Por isso costumam ridicularizá-los, deplorá-los, censurá-los e (quando querem parecer mais santos) detestá-los. (...) Concebem os homens não como são, mas como gostariam que fossem. Por isso quase todos, em lugar de ética escreveram sátira e, em política, quimera conveniente ao país da Utopia ou à Idade de Ouro dos poetas, quando nenhuma instituição era necessária (...) Tive todo o cuidado em não ridicularizar as paixões humanas, nem lamentá-las ou detestá-las, mas compreendê-las. (Spinoza.)

Entre as espécies de afecções, que devem ser muito numerosas, as mais notáveis são a luxúría, a embriaguez, a lubricidade, a avareza e a ambição, as quais não são senão designações de amor ou de desejo, que explicam a natureza de cada uma destas afecções pelos objetos a que se referem. Com efeito, por luxúría, embriaguez, lubricidade, avareza e ambição não entendemos senão um amor ou um desejo imoderado de comida, de bebida, de relações sexuais, de riqueza e de glória. Além disso, estas afecções, enquanto as distinguimos das outras apenas pelo objeto a que se referem, não têm contrárias. Na verdade, a temperança, a sobriedade e a castidade, que costumamos opor à luxúria, à embriaguez e à lubricidade, não são afecções ou paixões, mas indicam a capacidade da alma que modera essas afecções.
  •  O desejo (Cupiditas) é a própria essência do homem, enquanto esta é concebida como determinada a fazer algo por uma afecção qualquer nela verificada. 
  • A alegria (Laetitia) é a passagem do homem de uma perfeição menor para uma maior
  • A tristeza (Tristitia) é a passagem do homem de uma perfeição maior para uma menor. 
  • A inveja (Invidia) é o ódio na medida em que afeta o homem de tal maneira que ele se entristece com a felicidade de outro e, ao contrário, experimenta contentamento com o mal de outrem. 
  • O contentamento (Acquiescentia in se ipso) é a alegria nascida do fato de o homem se contemplar a si mesmo e à sua capacidade de agir. 
  • A humildade (Humilitas) é a tristeza nascida do fato de o homem contemplar a sua impotência ou a sua fraqueza. 
  • A vingança (Vindicta) é o desejo que nos impele a fazer mal, por um ódio recíproco, àquele que, afetado por uma afecção semelhante para conosco, nos causou um dano.       
(SPINOZA, Baruch. Ética, Col. Os pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1973. p. 216-217. 219, 220,224,227).

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