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O capitalismo moderno necessita de homens que cooperem sem atrito e em amplo número; que queiram consumir cada vez mais; e cujos gostos sejam padronizados e possam ser facilmente influenciados e previstos/ Necessita de homens que se sintam livres e independentes, não submissos a qualquer autoridade, ou princípio, ou consciência — e contudo desejosos de ser mandados, de fazer o que se espera deles, de adequar-se em fricção à máquina social; que possam ser guiados sem força, dirigidos sem líderes, impulsionados sem alvos — exceto o de produzir bem, estar em movimento, funcionar, ir adiante.
Qual é o resultado? O homem moderno é alienado de si mesmo, de seus semelhantes e da natureza. (Veja-se mais detalhada discussão do problema da alienação e da influência da sociedade moderna sobre o caráter do homem em The Sane Society, E. Fromm, Routledge (Kegan Paul, Londres.) Transformou-se num artigo, experimenta suas forças de vida como um investimento que lhe deva produzir o máximo lucro alcançável sob as condições de mercado existentes. As relações humanas são essencialmente as de autômatos alienados, cada qual baseando sua segurança na posição mais próxima do rebanho e em não ser diferente por pensamentos, sentimentos ou ações. Ao mesmo tempo que todos tentam estar tão próximos quanto é possível dos demais, todos se sentem extremamente sós, invadidos pelo profundo sentimento de insegurança, ansiedade e culpa que sempre ocorre quando a separação humana não pode ser superada. Nossa civilização oferece muitos paliativos que ajudam as pessoas a se tornarem conscientemente inconscientes dessa solidão: antes de tudo, a estrita rotina do trabalho mecânico, burocratizado, que as auxilia a permanecerem sem conhecimento de seus desejos humanos mais fundamentais, da aspiração de transcendência e unidade. Como a rotina, por si só, não o consegue, o homem supera seu desespero inconsciente através da rotina da diversão, do consumo passivo de sons e visões oferecidos pela indústria do divertimento; e, além disso, pela satisfação de comprar sempre coisas novas e de logo trocá-las por outras. O homem moderno está efetivamente próximo do quadro que Huxley descreve em seu Admirável Mundo Novo: bem alimentado, bem trajado, sexualmente satisfeito, e contudo sem personalidade, sem qualquer contacto com seus semelhantes a não ser o mais superficial, guiado pelos lemas que Huxley formulou tão sucintamente, como estes: “Quando o indivíduo sente, a comunidade vacila”; “Nunca deixes para amanhã o prazer que podes ter hoje”, ou, como afirmativa culminante: “Todos agora são felizes”. A felicidade do homem, hoje em dia, consiste em “divertir-se”. E divertir-se consiste na satisfação de consumir e “obter” artigos, panoramas, alimentos, bebidas, cigarros, gente, conferências, livros, fumes — tudo é consumido, engolido. O mundo é um grande objeto de nosso apetite, uma grande maçã, uma grande garrafa, um grande seio; somos os sugadores, os eternamente em expectativa, os esperançosos — e os eternamente decepcionados. Nosso caráter é engrenado para trocar e receber, para transacionar e consumir tudo, os objetos espirituais como os materiais, torna-se objeto de troca e de consumo.
A situação, no que refere ao amor, corresponde, como não pode deixar de ser, a esse caráter social do homem moderno, autômatos não podem amar; podem trocar seus “fardos de personalidade” e esperar um bom negócio. Uma das expressões mais significativas do amor, e especialmente do casamento, nessa estrutura alienada, é a idéia de “equipe”. Em qualquer número de artigos escritos sobre o casamento feliz, o ideal descrito é o da equipe que funcione lubrificadamente. Essa descrição não difere muito da idéia de um empregado que funcione lubrificadamente: ele deve ser “razoavelmente independente”, cooperativo, tolerante e, ao mesmo tempo, ambicioso e agressivo. Assim, diz-nos o conselheiro matrimonial, o marido deve “compreender” sua mulher e ser-lhe de auxílio. Deve fazer comentários favoráveis sobre seu vestido novo, sobre um prato gostoso. Ela, por sua vez, deve compreendê-lo quando ele chega cansado e resmungão deve ouvi-lo atentamente quando ele fala de seus aborrecimentos nos negócios, não deve encolerizar-se, mas mostra-se compreensiva, se ele se esquece de que ela faz anos. Toda esta espécie de relações, na verdade, vem a dar na bem lubrificada relação entre pessoas que permanecem estranhas a vida inteira, que nunca chegam a uma “relação central”, mas que mutuamente se tratam com cortesia e que tentam fazer com que a outra pessoa se sinta melhor.
Neste conceito de amor e casamento, a principal ênfase é colocada no encontro de um refúgio para o que, de outra forma, seria insuportável sentimento de solidão. No “amor” encontra-se, afinal, um porto ao abrigo da, solidão. Forma-se uma aliança de dois contra o mundo, e esse egoísmo a dois é enganosamente tomado por amor e intimidade.
Esta acentuação do espírito de equipe, da tolerância mútua e assim por diante é um desenvolvimento relativamente recente. Foi precedido, nos anos que se seguiram à primeira, guerra mundial, por um conceito de amor em que a satisfação sexual mútua se supunha ser a base de relações de amor satisfatórias e, especialmente, de um casamento feliz. Acreditava-se que as razões das freqüentes infelicidades no casamento estavam no fato de que os nubentes não haviam feito um “ajustamento sexual” correto; via-se o motivo desta falta na ignorância em encarar a conduta sexual “correta” e, portanto, na técnica sexual falha de um ou de ambos os parceiros. A fim de “curar” essa falha e ajudar os casais infelizes que não conseguiam amar-se mutuamente, muitos livros davam instruções e conselhos relativos á correta conduta sexual e prometiam, implícita ou explicitamente, que felicidade e amor viriam em seguida. A idéia subjacente era a de que o amor é filho do prazer sexual, a de que, se duas pessoas aprendem a satisfazer-se sexualmente, amar-se-ão uma à outra. Adequava-se à ilusão geral da época imaginar que o uso das técnicas corretas é a solução não só dos problemas técnicos da produção industrial, como também de todos os problemas humanos. Ignorava-se que a verdade está no oposto a essa idéia subjacente.
O amor não é o resultado da adequada satisfação sexual, mas a felicidade sexual — e mesmo o conhecimento da chamada técnica sexual — e que é o resultado do amor, Se, à parte a observação quotidiana, esta tese precisasse ser provada, poder-se-ia encontrar tal prova em amplo material de dados psicanalíticos. O estudo dos mais freqüentes problemas sociais — a frigidez nas mulheres e as formas mais ou menos graves de impotência psíquica nos homens — mostra que a causa não está numa falta de conhecimento da técnica correta, mas nas inibições que tornam impossível amar. O medo do outro sexo, ou o ódio para com ele, acham-se no fundo das dificuldades que impedem uma pessoa de entregar-se completamente, de agir espontaneamente, de confiar no parceiro sexual numa direta e imediata proximidade física. Se uma pessoa sexualmente inibida puder emergir do medo ou do ódio e, portanto, tornar-se cai)az de amar, seus problemas sexuais, dele ou dela, estarão resolvidos. Se não, nenhum total de conhecimento a respeito de técnicas sexuais servirá de ajuda.

(Erich Fromm - "A arte de amar")

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publicado às 15:30



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