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MARX E OS JOVENS HEGELIANOS

por Thynus, em 22.06.13

 

 

A importância de Hegel na história da filosofia deriva não tanto do conteúdo do que escreveu, mas da enorme influência que exerceu nos pensadores que se lhe seguiram. De todos os que ele influenciou, o que por sua vez veio a ser mais influente foi Karl Marx, que descreveu a sua própria vocação filosófica como consistindo em «virar Hegel de pernas para o ar».
Marx nasceu em Trier, em 1818, numa família protestante de ascendência judaica. Na universidade, primeiro em Bona e depois em Berlim, estudou a filosofia de Hegel com Bruno Bauer, o líder de um grupo esquerdista conhecido como «Jovens Hegelianos». Com Hegel e Bauer, Marx aprendeu a ver a história como um processo dialéctico — ou seja, como uma sucessão de estádios que se seguiam uns aos outros, como os passos de uma demonstração geométrica, numa ordem determinada por princípios lógicos ou metafísicos fundamentais. Esta foi uma concepção que reteve ao longo de toda a sua vida.
Os jovens hegelianos atribuíram grande importância ao conceito hegeliano de alienação , isto é, o tratarmos como estranho algo com o qual nos devíamos identificar. A alienação é o estado no qual as pessoas vêem como exterior algo que, na verdade, é um elemento intrínseco do seu próprio ser. Aquilo que o próprio Hegel tinha em mente era que os indivíduos, todos manifestações de um único Espírito, se viam uns aos ouros como rivais hostis e não como elementos de uma unidade. Os jovens hegelianos rejeitaram a ideia do espírito universal, mas conservaram a noção de alienação, atribuindo-lhe um lugar diferente no sistema.
Hegel tinha encarado a sua filosofia como uma apresentação sofisticada e autoconsciente de verdades a que as doutrinas religiosas tinham, acrítica e miticamente, dado expressão. Para os jovens hegelianos, a religião não devia ser traduzida, mas eliminada. Para Bauer, e ainda mais para Ludwig Feuerbach, a religião era a forma suprema de alienação. Os seres humanos, a mais alta forma de existência, projectavam as suas próprias vida e consciência num céu irreal. A essência do homem é a unidade da razão, da vontade e do amor; não querendo aceitar limites para estas perfeições, formamos a ideia de um Deus de conhecimento infinito, vontade infinita e amor infinito, e o homem venera-O como um Ser independente distinto do próprio homem. «A religião é a separação do homem de si mesmo: ele lança Deus contra si próprio, como um ser que se lhe opõe.»
Marx simpatizava com a crítica que os jovens hegelianos fizeram da religião, a qual descreveria mais tarde como «o ópio do povo», mas colocou desde cedo o foco da alienação noutro lado. Escreveu Marx:

O dinheiro é o valor universal e autoconstituído de todas as coisas. Despojou, assim, o mundo inteiro, tanto o mundo humano como a natureza, do seu próprio valor. O dinheiro é a essência alienada do trabalho e da vida humanos, e esta essência alienígena domina-o enquanto ele a idolatrar.

Em 1841, Marx escreveu uma crítica da filosofia hegeliana do Estado, na qual atacou a teoria segundo a qual a propriedade privada era o pilar da sociedade civil. Na medida em que um Estado for baseado na propriedade privada, é, ele próprio, uma alienação da verdadeira natureza do homem.
Em 1842, tornou-se director de um jornal de esquerda, o Rheinische Zeitung. O governo prussiano considerou-o subversivo e encerrouo. Marx, desempregado e recém-casado, emigrou para Paris com a mulher, Jenny . Aí, encontrou trabalho como jornalista e travou-se de amizades com alguns radicais, incluindo o socialista revolucionário Friedrich Engels, que se tornaria o seu braço direito. Estudou também as obras de economistas britânicos como Adam Smith e começou a desenvolver a sua própria teoria económica. A sua intuição básica era a de que, dado que o dinheiro é uma forma de alienação, todas as relações puramente económicas — como, por exemplo, a que existe entre trabalhador e patrão — são formas alienadas de relacionamento social e até mesmo formas de escravidão que degradam quer o escravo, quer o senhor. Só a abolição da escravidão dos salários e a substituição da propriedade privada pelo comunismo podia pôr fim à alienação do homem.
Em breve seria de novo obrigado e emigrar, desta vez para Brux elas. Aí, com Engels, Marx escreveu A Ideologia Alemã, uma obra de crítica filosófica que não foi publicada senão muito tempo depois da sua morte. Nela, enuncia o princípio segundo o qual «a vida determina a consciência, e não a consciência a vida». A história é determinada não pela história mental de um Espírito hegeliano, nem pelos pensamentos e teorias dos homens individuais, mas pelos processos de produção das coisas necessárias à vida.
Marx tinha já chegado à conclusão de que a mera crítica filosófica não poria fim à alienação humana. Não se tratava apenas de que, na sua famosa formulação, «Os filósofos apenas interpretaram o mundo; o que importa é transformá-lo». A transformação necessária teria de ser violenta, o que exigia uma aliança entre os filósofos e os trabalhadores. «Tal como a filosofia encontra as suas armas materiais no proletariado, assim também o proletariado encontra as suas armas intelectuais na filosofia.» Em 1847, uma recém-formada Liga Comunista reuniu-se em Londres, e Marx e Engels foram encarregues de escrever o seu manifesto, publicado no início de 1848, pouco antes de uma série de revoluções ter abalado os principais reinos do continente europeu.
«A história de todas as sociedades até agora existentes», diz o Manifesto, «é a história das lutas de classes». Isto é uma consequência da teoria materialista da história. À superfície, a história pode parecer um registo de conflitos entre diferentes nações e diferentes religiões; mas as realidades subjacentes são, ao longo dos tempos, as forças da produção material e as classes criadas pelas relações entre aqueles que tomam parte nessa produção. As instituições legais, políticas e religiosas que têm tanto destaque nas narrativas históricas são apenas uma superstrutura que esconde os níveis históricos fundamentais: as forças e os poderes produtivos e as relações económicas entre os produtores. A filosofia, ou «ideologia», usada para justificar as instituições legais e políticas de cada época é apenas uma cortina de fumo que esconde os interesses particulares das classes dominantes de então.

(Anthony Kenny - "História concisa da filosofia ocidental"

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publicado às 15:01



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