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Mulheres que se apaixonam por padres

por Thynus, em 16.06.13

 

Mulheres que engravidam de padres e recebem dinheiro para abortar ou encaminhar o filho para adoção. Um jornalista italiano investigou meses o assunto e traz revelações.

 Uma mulher infeliz no casamento abre o coração para alguém bastante confiável. Ele a conforta e os dois criam um laço de amizade que vira ternura, que vira paixão avassaladora. O moço é bastante charmoso e a entende como ninguém. Os encontros se tornam mais e mais frequentes até que ela deixa o marido e acaba engravidando do novo namorado, que pede: “Aborte ou dê a criança para adoção”. Mas a moça não concorda – aliás, sente que o mundo acaba de se abrir sob seus pés. Logo a campainha da casa dela toca. É o superior do rapaz com um envelope em uma das mãos e um contrato na outra. São 50 mil dólares em troca de silêncio. Nunca, em hipótese alguma, ela poderá revelar o nome do pai de seu filho, um padre.
Casos como esse não são incomuns na Igreja, garante Carmelo Abbate, jornalista italiano que lançou em alguns países da Europa e no Canadá o polêmico livro Sex and the Vatican – Viaggio Segreto nel Regno dei Casti (Sexo e o Vaticano – viagem secreta pelo reino dos castos), ainda sem tradução no Brasil. Católico, Abbate fez a reportagem “As noites selvagens dos padres gays” para a revista semanal italiana Panorama, em que fala sobre homens de batina que organizam orgias homossexuais, mantêm famílias fora do Vaticano ou simplesmente engatam romances com jovens sonhadoras e esposas insatisfeitas. Intrigado com o que encontrou, decidiu continuar a investigar o assunto munido de uma câmera escondida, mergulhando em uma investigação que durou meses. Casos de pedofilia e de padres que exercem livremente a sexualidade não são novidade – continuam como feridas expostas da religião. Mas outro dado desconcertante lança mais lenha na fogueira santa: quem são essas mulheres que, em pleno século 21, aceitam viver como criminosas, reféns do amor por um homem ou do medo pela integridade do bebê? Abbate ouviu o relato de várias e também dos “filhos do pecado”, como são chamadas as crianças nascidas desses relacionamentos, que mais parecem ficção.
“Muitas tentam colocar um ponto final no relacionamento, mas têm recaídas. Quando o padre bate à porta no meio da noite, acham difícil resistir”

Amor proibido: mulheres que se apaixonam por padres

 O que leva um católico praticante a expor os podres da própria crença?
Justamente por ser católico, não posso viver como se não fosse, fingindo que os podres não existem. Algumas das coisas que conto no livro me machucam antes de mais nada, mas me lembram também que nunca devemos deixar de lutar por aquilo em que acreditamos. Além disso, sou um repórter. É meu trabalho fazer investigações desse tipo, sejam elas dolorosas ou não.
Por que uma mulher começa a se relacionar com um homem que fez voto de castidade?
Elas se apaixonam de verdade. São jovens que frequentam a igreja local e ficam fascinadas pela figura do padre, geralmente um homem solitário e carente de afeição e de um corpo para amar. Muitas vezes, essas mulheres são casadas e até têm filhos, mas estão infelizes no relacionamento. Elas procuram os homens da Santa Sé em busca de conforto e acabam encontrando alguém que sente o que elas sentem, que as entende como ninguém. Começa então uma vida em segredo, feita de encontros furtivos, promessas e mentiras. Muitas tentam colocar um ponto final no relacionamento, mas têm recaídas. Quando o padre bate à porta no meio da noite, acham difícil resistir. O sentimento é complexo, porque acabam vivendo um misto de paixão intensa e culpa enorme. No fundo, acham que são a causa do sofrimento de um homem que é “forçado” a se esconder e manter vida dupla.
Quando engravidam, recebem de alguém a orientação para que abortem ou encaminhem para adoção?
É comum que os padres, os colegas ou o superior tentem convencê-las a tirar a criança ou encaminhar para adoção. São acompanhadas por enviados da Igreja a clínicas de aborto, mas muitas desistem no último momento. Então, costumam receber ofertas em dinheiro para que os “filhos do pecado” cresçam em silêncio.
E se elas não concordam?
Em geral, não recebem nenhum tipo de intimidação direta. Mas o clero tem um poder de influência extremamente forte na sociedade, especialmente nesses casos em que as vítimas são mulheres que se envolvem em histórias proibidas e saem delas com a autoestima e a autoconfiança devastadas.

Padres podem viver com mulher e filhos

Você se lembra de algum caso mais marcante?
São muitos. A americana Cait Finnegan, que é casada com um ex-padre, fundou no começo dos anos 1980 a ONG Good Tidings (goodtidingsministry.org) para apoiar mulheres nessa situação. Ela já falou com aproximadamente 2 mil e tem cópias dos contratos firmados com a Igreja. Uma das moças, Terri, disse a Cait que, depois do nascimento do filho, o padre alegou estar apaixonado por outra, que “o amava muito mais”. A justificativa: também grávida dele, a mulher não se recusara a dar a criança para a adoção. Outro caso é o de Judy. Ela era professora em Maine, nos Estados Unidos, e tinha 28 anos quando conheceu o reverendo Marcel, oito anos mais velho. Os dois viveram uma história de amor cheia de carinho, atenção e cumplicidade até que ela engravidou e tudo mudou. Marcel a colocou no carro e dirigiu rumo à clínica de aborto em Nova York. No último segundo, Judy decidiu que não faria aquilo. A viagem de volta aconteceu em silêncio absoluto e ela achou que fosse morrer. Dias depois, um colega do padre foi à casa dela levando uma mensagem: “Deixe o estado e dê a criança para adoção. Os custos serão todos pagos pela Igreja”. Outro prelado chegou com 3 mil dólares para pagar as despesas médicas do aborto. Ela recusou todas as ofertas e quando o filho, Christian, hoje com 37 anos, completou 11, recorreu à Justiça e conseguiu ressarcimento financeiro e um valor mensal para ajudar na criação do garoto até que completasse 18 anos.
O que acontece a essas crianças se em algum momento da vida tentam conhecer o pai?
Elas não são assumidas. Por exemplo, Charles, um menino de 3 anos, um dia saiu da escolinha aos prantos: “Mamãe, por que eu tenho de fazer aquelas lembrancinhas chatas de Dia dos Pais se eu nem tenho pai?” A mãe respondeu que tinha, sim, só que ele estava longe. “Vamos ligar!” “Não há telefone lá...” “Então a gente pega um trem.” “Nenhum chega até onde ele mora...” Com o coração apertado, ela ligou para o padre e ouviu que aquilo não era problema dele.
Há padres que vivem com mulher e filhos?
Em países como Alemanha, Áustria e Suíça, muitos padres estão nessa situação porque a sociedade não se sente ofendida – considera normal que mantenham uma família. Na Alemanha, de acordo com uma pesquisa recente, um em cada três. Na Itália, a situação é bem diferente, e as histórias se desenrolam por baixo do pano. Não há dados oficiais. A família dessas mulheres sabe da situação delas? Não, elas mantêm tudo em segredo, para se preservar. São poucas as que tentam transpor o muro do silêncio. Porque a Igreja defende a conduta dos padres, tentando encobrir os escândalos – não se importa com o que acontece com elas nem tenta resolver. Então, o tratamento que recebem é o de amantes do clérigo.
Na sua opinião, um homem consegue abrir mão de sua sexualidade?
Celibato não funciona. É loucura pensar que um ser humano pode suprimir a sexualidade. Só para citar alguns dados, de acordo com estudos do psiquiatra Richard Sipe, ex-padre beneditino, 25% do clero americano teve romances com mulheres depois da ordenação, 30% são gays e outros 20% se envolveram em relacionamentos homossexuais. No Brasil, o Centro de Estatística Religiosa e Investigação Social (Ceris) conduziu uma pesquisa garantindo o anonimato dos participantes. De 758 padres ouvidos, 41% admitiram ter feito sexo – e metade deles se declarou contra o celibato. O jornal inglês The Guardian fez uma reportagem mencionando a existência de milhares de crianças que são fruto de relacionamentos como esses.

O que significa o abandono do voto de castidade

Por que alguém faz um voto de castidade e depois vai contra a própria escolha? Você acha que a primeira intenção é pura?
A maioria tem boas intenções – o problema é o que acontece depois, desde os tempos do seminário. A mortificação dos desejos pregada dentro da Igreja acaba empurrando muitas dessas pessoas para o lado oposto, o da obsessão sexual.
Acredita que seu trabalho vai mudar alguma coisa?
O processo de mudança vai ser bem lento e difícil porque não existe uma resposta favorável da Igreja. Mas, se os problemas relacionados à sexualidade não forem olhados com a atenção que merecem, a credibilidade da Igreja Católica será destruída para sempre.
Alguma vez pensou em abandonar o catolicismo?
Não. Sou e continuarei sendo católico, mas quero viver em uma Igreja mais transparente, sincera e aberta a todos: gays e lésbicas, separados e divorciados. Sonho com um catolicismo que seja realmente a casa de Deus, onde toda forma de amor seja bem-vinda.

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publicado às 02:27



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